Tricampeãs mundiais dos EUA ganhavam 4 vezes menos que homens que deixaram país fora da Copa

VANCOUVER, BC - JULY 05: The United States celebrates after winning the FIFA Women's World Cup Canada 2015 5-2 against Japan at BC Place Stadium on July 5, 2015 in Vancouver, Canada. (Photo by Jeff Vinnick/Getty Images)

O ano de 2016 marcou a divulgação de um levantamento feito pela Associação das Jogadoras da Seleção Feminina de Futebol dos Estados Unidos (USWNTPA, na sigla em inglês) que escancarava ao mundo uma realidade cruel do futebol das mulheres: a seleção feminina norte-americana ganhava quatro vezes menos que os jogadores da seleção masculina que deixaria o país fora da Copa no ano seguinte. 

Do lado delas, três títulos mundiais e quatro medalhas de ouro olímpicas até hoje. No deles, apenas jogadores famosos, sim, mas sem títulos de expressão com a camisa nacional, e que agora entraram para a história por deixar o país fora de uma Copa do Mundo pela primeira vez desde 1986 com uma derrota inacreditável para a lanterna Trinidad e Tobago na última partida das eliminatórias da Concacaf.

Foi apenas no começo deste ano que a USSF, a Federação de Futebol dos Estados Unidos, chegou a um acordo com as jogadoras campeãs mundiais no qual se comprometia a pagar maiores salários, bônus pelos resultados, melhorar as acomodações das atletas, e diminuir a enorme desigualdade que existia até então. Os valores não foram divulgados, mas colocaram um ponto final em uma briga que se arrastou por mais de quatro anos e chegou a ter ameaça de greve perto das Olimpíadas do Rio de Janeiro.

Seleção feminina recebendo a taça de campeãs do mundo em 2015 – Foto: Getty Images

Na ocasião do acordo, a USSF comemorou o anúncio dizendo que “nós estamos orgulhosos do nosso trabalho duro e do compromisso com um diálogo de ideias refletido por esse processo, e esperamos o fortalecimento da nossa parceria para seguirmos adiante”. Mas a história não teria tido esse final feliz se não fosse pela mobilização das jogadoras.

Lideradas pelas estrelas Carli Lloyd, Rebecca Sauerbrunn, Hope Solo, Alex Morgan e Megan Rapinoe, todas campeãs com a seleção dos EUA na última Copa do Mundo Feminina da Fifa disputada no Canadá em 2015, as jogadoras apresentaram no ano seguinte um relatório que mostrava a diferença salarial de quatro vezes em favor dos homens. Para piorar: descobriram que a seleção feminina gerava 20 milhões de dólares (quase R$ 65 milhões no câmbio de hoje) a mais que o time masculino para os cofres da USSF.

De acordo com informações publicadas na época pela versão americana do site espnW, a seleção feminina dos Estados Unidos distribuía US$ 99 mil para cada jogadora caso todos os amistosos da temporada fossem vencidos. Já os homens, se conseguissem o mesmo feito, embolsavam quase US$ 264 mil cada um. Ou seja, uma diferença de 266% em favor do time masculino só com as vitórias em amistosos. E ficava ainda pior: elas não ganhavam nada disso se perdessem uma partida. Os jogadores faturavam US$ 100 mil mesmo sendo derrotados.

A diferença ficava ainda mais gritante quando se levava em consideração que o empate por partida rendia US$ 6,25 mil para cada jogador da seleção masculina, que ainda ganhava US$ 5 mil em caso de derrota. Cada vitória da seleção feminina valia US$ 1,35 mil por atleta. Ou seja, valia muito mais a pena financeiramente perder um jogo pela seleção sendo homem do que ganhar uma partida sendo mulher.

Trinidad e Tobago x Estados Unidos pelas Eliminatórias da Concacaf
Derrota para Trinidad e Tobago deixou os EUA fora da Copa masculina – Foto: US Soccer

O levantamento ainda divulgou que as atletas levaram US$ 75 mil por causa do título da Copa do Mundo de 2015. Por chegarem às oitavas de final do Mundial disputado no Brasil em 2014, cada jogador norte-americano levou mais de 400 mil dólares. Uma diferença cinco vezes maior por um objetivo completamente inferior. Oitavas de final contra um título mundial, o terceiro da história do país.

A discrepância total só “diminuía” a quatro vezes porque a seleção masculina dos Estados Unidos alcança objetivos muito inferiores no geral do futebol além da Copa do Mundo. O time feminino foi amplamente noticiado em 2016 por não conseguir alcançar pela primeira vez na história as semifinais dos Jogos Olímpicos. Ou seja, era completamente normal a seleção delas conquistar títulos atrás de títulos.

“Os números falam por si só. Somos as melhores do mundo, temos três Copas do Mundo, quatro títulos de Olimpíadas, e a seleção masculina recebe mais apenas para aparecer do que nós recebemos por vencer os principais campeonatos”, disse há dois anos a goleira Hope Solo ao espnW.

No próximo ciclo, além da diferença de valores estar sendo reduzida pelo novo acordo, os homens vão deixar de ganhar qualquer bônus na Copa do Mundo, já que jogaram fora com uma derrota histórica a vaga no Mundial depois de 32 anos.

A seleção feminina dos Estados Unidos, por sua vez, seguirá a preparação para brigar pelo tetracampeonato mundial na Copa do Mundo de 2019, na França, e para tentar voltar ao pódio nos Jogos Olímpicos de Tóquio-2020.



Editor do Torcedores.com, está no site desde julho de 2014. Repórter e apresentador da TV Torcedores. Formado pela Universidade Metodista de São Paulo, já passou por UOL, Editora Abril e Rede Record. Participou da cobertura da Copa do Mundo de 2014, de dois Pans, dos Jogos Olímpicos de Londres 2012 e do Rio 2016.