Seleção dos EUA fora da Copa vira um problema de US$ 200 milhões para a Fox

Trinidad e Tobago x Estados Unidos pelas Eliminatórias da Concacaf
Derrota para Trinidad e Tobago tirou os EUA da Copa - Foto: US Soccer/Twitter oficial

A derrota histórica da seleção dos EUA para Trinidad e Tobago, que deixou o país fora da Copa do Mundo de 2018 na Rússia, vai custar caro também para a Fox, emissora que comprou os direitos de transmissão da competição no território americano e agora vai ter que lidar com o menor interesse da população no evento. De acordo com a versão online do Wall Street Journal, o grupo pagou US$ 200 milhões (cerca de R$ 630 milhões) para transmitir a Copa do ano que vem.

Os direitos comprados pela Fox por esse valor são para transmissões em idioma inglês. A emissora tinha planos de fazer a maior cobertura da história da televisão americana em uma Copa do Mundo. Esse planejamento inclui 350 horas de programação em um trabalho que vai unir diversas plataformais digitais da emissora.

Segundo o WSJ, a Fox já gastou dezenas de milhões de dólares para construir uma estrutura de produção em Moscou para cobrir a Copa do Mundo. Agora, sem a presença da seleção dos EUA, é provável que a audiência da competição seja muito menor, ainda mais levando em consideração que os direitos de transmissão adquiridos valem para o idioma inglês.

A Fifa comercializa de maneira distinta os direitos de transmissão da Copa do Mundo nos EUA, levando em consideração o idioma veiculado na exibição dos jogos, já que isso influencia diretamente nas regiões e no público alcançado pelos canais. O público que fala espanhol ainda pode manter um bom interesse no evento, já que seleções da Concacaf e Conmebol de país com muitos imigrantes estarão na Copa do Mundo.

Essa queda na audiência terá que ser explicada e compensada de alguma maneira pela Fox aos anunciantes que já compraram as cotas de patrocínio da Copa do Mundo baseado em estudos e projeções de médias com a presença da seleção dos EUA em campo.

Em entrevista ao WSJ, o CEO da empresa de marketing esportivo Engage Marketing, Kevin Adler, disse que apenas o público mais fanático deve se manter interessado na competição nos EUA, com uma “queda significativa” nos índices de audiência.

“A maioria dos fãs mais casuais se preocupam com a sua seleção e a história de Cinderela na qual eles poderiam superar tudo e vencer, e agora isso acabou”, disse Adler. “Será difícil para a Fox encontrar uma linha interessante para contar a história da Copa e que vá atrair esses fãs mais casuais nos Estados Unidos”, completou.

Time dos EUA chegou a dar mais audiência que final da NBA em 2014 – Foto: Getty Images

A preocupação encontra base nos números de audiência de Copas passadas. Em 2014, o Mundial disputado no Brasil, com horários acessíveis ao público americano, teve uma audiência média de 3,9 milhões de espectadores nos 60 jogos que não tiveram a presença do time dos Estados Unidos em campo. Com a seleção nacional disputando, essa média disparou para 14,3 milhões. Os dados são da Nielsen, que mede a audiência da TV no país. Na ocasião, a ESPN era a detentora dos direitos de transmissão.

Era uma evolução em relação aos números da Copa do Mundo de 2010, realizada na África do Sul. Naquela edição, os jogos da seleção americana tinham 10,3 milhões de espectadores em média, contra 2,8 milhões dos outros 60 duelos. O interesse da Fox foi despertado após esse crescimento da concorrente.

Voltando à Copa de 2014, o ranking dos cinco jogos mais assistidos daquele evento nos Estados Unidos tem os quatro jogos da seleção local e a final, disputada entre Alemanha e Argentina. E o jogo entre Portugal e os americanos, ainda na fase de grupos, superou a audiência da decisão e até mesmo a da eliminação dos EUA em uma prorrogação emocionante diante da Bélgica nas oitavas de final.

O jogo contra Portugal bateu 18,2 milhões de espectadores. A final teve 17,4 milhões que viram a Alemanha faturar o tetra sobre os argentinos. O mata-mata contra os belgas foi visto por 16,5 milhões de pessoas, ainda segundo a Nielsen. Segundo o WSJ, a audiência desse duelo contra os portugueses foi maior até que a das finais da NBA disputadas naquele ano, lembrando que o basquete é um esporte mais popular que o futebol no país.

A Fox americana divulgou um comunicado dizendo que a eliminação dos Estados Unidos não muda “a paixão pelo maior evento esportivo mundial”. A emissora acrescentou exaltando a Copa do Mundo. “Enquanto a seleção dos Estados Unidos está eliminada, as principais estrelas do mundo, como Lionel Messi e Cristiano Ronaldo garantiram seus bilhetes até a Rússia no mesmo dia, e vão disputar contra times como México e Inglaterra, que possuem uma base enorme de fãs nos Estados Unidos”, disse o canal Fox Sports.

Mas em um evento no começo do ano, o presidente do Fox Sports americano, Eric Shanks, havia brincado com a possibilidade dos EUA ficarem fora da Copa dizendo que “nesse caso seriam um 200 milhões de dólares jogados pela descarga do banheiro”.

De fato, se a Fox não conseguir entregar os números de audiência que foram prometidos aos anunciantes, a emissora terá que compensar cedendo mais tempo de publicidade para compensar a queda.

Depois do sucesso da Copa na ESPN, Fox comprou e ficou com edição sem EUA

Para o consultor independente Nigel Currie, também ouvido pelo WSJ, a Fox pode tomar um duro golpe financeiro, mas não estará sozinha no prejuízo. “É um desastre para a Federação, para a MLS (liga de futebol dos EUA) e para a Fifa”, disse. “Os Estados Unidos tem sido muito importantes para o desenvolvimento do futebol de maneira global desde que a seleção norte-americana começou a se classificar de maneira regular para a Copa do Mundo”, afirmou.

A Fox pagou US$ 425 milhões pelo pacote que inclui as Copas do Mundo de 2018 e 2022, em uma compra que aumentou e muito o valor pago pela ESPN pela edição anterior. Os direitos de língua espanhola para os mesmos mundiais foram comprados pelo canal Telemundo por um valor até maior, de cerca de US$ 600 milhões.

No Brasil, a versão brasileira do Fox Sports vai transmitir a Copa do Mundo de 2018 na TV por assinatura graças a um acordo de licenciamento dos direitos de transmissão realizado com a Rede Globo. A emissora brasileira comprou um pacote pelos mesmo mundiais de 2018 e 2022 na época por um valor jamais divulgado pela Fifa.

A Record TV chegou a ameaçar processar a entidade por não realizar um processo público de licitação dos direitos. Na época, o canal de Edir Macedo disputava com a Globo a posse das principais competições esportivas e chegou a deixar a concorrente sem as Olimpíadas de Londres-2012.

A Globo chegou a temer um cenário como este vivido agora pela Fox. Quando a seleção brasileira era comandada pelo técnico Dunga, o Brasil chegou a figurar na sexta colocação nas eliminatórias sul-americanas. As eliminações precoces nas duas edições da Copa América disputadas na gestão do ex-treinador assustaram ainda mais o torcedor brasileiro. Com a chegada de Tite, porém, o time deu uma arrancada histórica, não perdeu mais e garantiu vaga na Copa do Mundo em março de 2017, a primeira equipe a se juntar aos russos na lista de classificados.



Editor do Torcedores.com, está no site desde julho de 2014. Repórter e apresentador da TV Torcedores. Formado pela Universidade Metodista de São Paulo, já passou por UOL, Editora Abril e Rede Record. Participou da cobertura da Copa do Mundo de 2014, de dois Pans, dos Jogos Olímpicos de Londres 2012 e do Rio 2016.