Poker: esporte ou jogo? conheça suas contradições

Reprodução: Facebook oficial World Series of Poker (WSOP)

O poker é um jogo muito antigo e as teorias acerca de sua origem são diversas. Ainda assim, em meio a especulações sobre seu surgimento, o jogo se popularizou em vários lugares e foi praticado em diversos formatos.

Com uma mecânica simples de ser aprendida por novatos e misturada com uma dose de complexidade no aspecto técnico para se tornar um vencedor constante, o jogo fisgou muitos apaixonados por estratégia mundo afora. E também muitos jogadores que preferiam acreditar que a sorte poderia fazer tudo por eles.

E foi desde esse momento que o poker se dividiu em dois grupos, que até hoje continuam existindo: os recreativos buscando diversão e os estrategistas buscando incessantemente a vitória.

Naturalmente, não há nada de errado nos dois estilos e cada um define o que é melhor para si mesmo (ou a própria competição trata de definir). Mas existe um porém nessa história e é uma situação que não pode ser vilipendiada. O momento em que o jogador excede o nível aceitável da intensidade com a qual pratica o jogo e acaba prejudicando outros pontos de sua vida social. A esses casos existe uma definição e esses jogadores acabam enfrentando a ludopatia de frente, que nada mais é do que o jogo impulsivo ou patológico.

E esse é o principal entrave e o tabu social que o Poker enfrenta quando se tenta elevar o jogo ao status de esporte da mente.

Reconhecimento no papel vs. Reconhecimento público

Pode-se dizer que o poker recebeu um reconhecimento maior com o passar das últimas décadas. A WSOP, que é a série mundial de poker e ocorre todos os anos em Las Vegas, teve um papel decisivo para tirar o poker das mesas de apostas e organizar o jogo baseando-se nos esportes. Tanto é que a sigla WSOP leva o peso do nome World Series, uma tentativa clara de conexão com as séries de jogos de outros esportes mais famosos e respeitados na época (e ainda hoje).

O jogo foi reconhecido mundialmente pela IMSA (International Mind Sports Association) como um esporte da mente. Até mesmo no Brasil, país conhecido pelos morosos processos burocráticos, o poker foi reconhecido pelo Ministério dos Esportes!

Mas a principal provação, que é o reconhecimento público, continua sendo uma barreira enorme para o esporte da mente. Em grande parte essa situação se dá por um simples motivo: o fato de que o poker era praticado em rodas de apostas, ao melhor estilo cowboy fora-da-lei.

As histórias e até lendas que surgiram, nem sempre favoreceram a imagem do jogo. Xerifes sendo mortos na mesa (como no caso de Wild Bill Hickok), Holywood promovendo o jogador como um malandro sem sentimentos e até mesmo os jogadores famosos de carne e osso não fazendo muito esforço para deixar de lado a fama de espertos, como o grande Amarillo Slim.

O resultado não poderia ser diferente, o poker carrega vários estigmas dessa época. Mas o mundo mudou e o mesmo ocorreu com esse esporte da mente. E até mesmo o formato de apostas em dinheiro em tempo real mudou. O jogo ficou mais sofisticado.

Mas a versão esportificada do poker são os MTTs (Multi-table tournaments).

A origem dos torneios de poker

O sistema de torneios com apostas obrigatórias progressivas surgiu após conversas entre algumas personalidade importantes do mundo do poker. Benny Binion, Puggy Pearson e “Nick the Greek” Dandolos foram os personagens centrais dessa trama, na metade do século XX. Até 1949 os jogos de poker eram sempre os cash games, com pouca variedade na maneira de serem jogados, sempre tratando das apostas obrigatórias a cada rodada permanecendo as mesmas ou mudando de acordo com a escolha dos jogadores, mas sem regras rígidas. E o objetivo era apenas um: ganhar a maior quantidade de dinheiro dos oponentes.

Já na abordagem de torneios proposta pelos engajados jogadores Puggy e Dandolos, o objetivo seria de conquistar todas as fichas em jogo para ser considerado o vencedor. E para forçar jogadas mais arriscadas e trazer a emoção para os feltros, todos os jogadores começariam com a mesma quantidade de fichas (tornando a disputa mais igualitária) mediante o pagamento de uma inscrição (conhecida como buy-in) e as blinds (apostas obrigatórias que ocorrem a cada rodada) seriam progressivas e aumentariam de tempos em tempos.

Foi esse o formato apresentado a Benny Binion. Posteriormente os torneios ganharam algumas variações, mas esse primeiro estilo foi chamado de freezeout e adotado na World Series of Poker, uma série de torneios criada por Binion.

Os cash games são prejudiciais?

Os cash games são os jogos com apostas contínuas com dinheiro real a todo momento circulando nas mesas. Então essa é a modalidade que estigmatizou o poker, mas é também a origem de tudo. Existem excelentes jogadores que praticam os cash games e não há nada de errado com esse formato. O problema é que não se trata de uma formato adequado para ser adotado como esporte e é justamente nesse ponto que os torneios vieram para mudar a imagem de tudo o que era conhecido antes.

Mesmo assim, ainda se enfrentam sérias barreiras. Porém, várias delas vem sendo quebradas com o passar dos anos e com a força de uma parcela da comunidade que continua lutando por isso.

Então não se trata de valorizar torneios e destruir cash games. Ambos podem coexistir, criando um cenário mais inclusivo. Entretanto é importante salientar que são diferentes e possuem suas particularidades.

Ou seja, torneios de poker seriam o esporte. E os Cash games seriam jogo.

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