As histórias do primeiro brasileiro a completar travessia de 8 horas de remada no Havaí

Patrick Winkler se tornou o primeiro brasileiro a completar a travessia Molokai to Oahu, no Havaí (Foto: Reprodução/Instagram @Patrickinwater)
Patrick Winkler se tornou o primeiro brasileiro a completar a travessia Molokai to Oahu, no Havaí (Foto: Reprodução/Instagram @Patrickinwater)

Tubarões, tartarugas, ondas, correnteza, cansaço, enjoo. Tudo isso esteve no caminho de Patrick Winkler para que ele pudesse se tornar o primeiro brasileiro a completar, de paddleboard, a travessia entre as ilhas havaianas de Molokai e Oahu, no dia 30 de julho. O ultra-desafio, chamado Molokai To Oahu (M2O) é um dos mais tradicionais dos esportes de remada e tem um percurso de 32 milhas náuticas (cerca de 60km).

“Para mim, é um feito importante, que me traz retorno e que me deixa animado. Mas pro pessoal que pratica paddleboard, é muito mais importante que para mim. Eles viram que é real, eles viram que é possível fazer essa prova. Eles viram que um cara que está aqui no Guarujá, em Maresias, em Ubatuba, pegou a mala, foi para lá e completou a prova. Isso tirou um pouco da mística do mar do Havaí e trouxe para uma coisa mais real”, afirmou Patrick Winkler, em entrevista exclusiva ao Torcedores.com.

O brasileiro completou o percurso em 8 horas e 24 minutos, tornando-se o primeiro atleta brasileiro a completar a travessia. Sexto colocado na categoria de 30 a 39 anos, o waterman passou por momentos alguns momentos extremos durante a realização da prova, especialmente no trecho final, quando teve de remar contra a correnteza do mar havaiano.

“Tem um muro chamado ‘China Wall’. Quando eu estava em frente a esse muro, a maré estava totalmente contra e ali existe uma onda chamada ‘backwash’. A onda bate no muro e volta contra você. O finalzinho da prova, para mim, foi muito duro. Eu fiquei preso dentro do mar”, revelou o waterman.

Confira a entrevista de Patrick Winkler ao Torcedores:

Como você conheceu e começou a praticar o paddleboard?

“Em 1999, eu fui morar na Austrália. Eu fui a primeira geração de brasileiros a morar na lá. Hoje, se você for pegar as grandes cidades, tem muito brasileiro. Mas, se você for pegar a década de 90, o foco do intercâmbio do Brasil era os EUA. Eu fui pra Austrália por causa da natação, nadei num excelente clube de natação e, no meu tempo livre, meu técnico me colocou para remar de paddleboard. Aos finais de semana, quando eu terminava meus treinos, eu remava paddleboard por influência do meu técnico de lá. Depois de um ano de vida na Austrália, a prancha que eu tinha lá, eu trouxe para o Brasil. Hoje em dia, depois do crescimento do stand up, é comum você ver muita gente com pranchas grandes no aeroporto. Mas em 99 eu parecia um ET com uma prancha daquele tamanho voltando para o Brasil”

Patrick Winkler se tornou o primeiro brasileiro a completar a travessia Molokai to Oahu, no Havaí (Foto: Reprodução/Instagram @Patrickinwater)
Patrick Winkler se tornou o primeiro brasileiro a completar a travessia Molokai to Oahu, no Havaí (Foto: Reprodução/Instagram @Patrickinwater)

Como é sua rotina de treinos normalmente e como concilia com sua vida profissional?

“É disciplina. Eu treino paddleboard na raia da USP na hora do almoço, à noite eu treino natação na academia e, aos finais de semana, eu sempre estou na água salgada, ou remando, ou surfando. A minha rotina é essa. Você faz o ciclo de acordo com o objetivo, que nesse ano era Molokai to Oahu”
(Nota: Patrick é editor-chefe do Swim Channel, maior canal de natação do Brasil)

Já encontrou com algum animal marinho durante treinos e provas? Tem medo?

“Medo propriamente dito, não. Animal marinho é certeza que você vai encontrar, seja em Ubatuba, seja no Havaí. Então, você vê tubarão, golfinho, tartaruga, arraia, você vê tudo. Essa é a realidade. Você acaba vendo tudo. Não chega a dar medo, mas você fica sempre atento. No Havaí, vi tubarão, vi tartaruga, vi golfinho. Mas a gente tem que entender o o animal mora lá, o invasor somos nós. Eu acho muito difícil ter um ataque. Durante a minha preparação para a travessia, eu cheguei a trombar numa tartaruga gigante, os golfinhos passavam bem perto. A água é muito clara, você consegue ver com uma certa distância também. Na travessia não vi, porque eu estava tão focado que eu não conseguia nem prestar atenção na água”

Quais foram suas principais dificuldades na M2O?

“Você tem que ter uma experiência de surfar o downwind [remar na mesma direção que o vento aponta], porque lá venta muito e o mar fica bagunçado. Você tem que ter a experiência de conseguir pegar essas ondas, que é o ponto fraco dos brasileiros, porque não venta muito aqui. Mas a maior dificuldade de M2O foi a inversão da maré, porque como a prova é muito longa, oito horas para mim, a maré virou contra perto da chegada e estava me jogando de volta para Molokai. E tem um muro chamado ‘China Wall’. Quando eu estava em frente a esse muro, a maré estava totalmente contra e ali existe uma onda chamada ‘backwash’. A onda bate no muro e volta contra você. O finalzinho da prova, para mim, foi muito duro. Eu fiquei preso dentro do mar. Minha rotação de braço era idêntica à do começo da prova, mas minha velocidade, por causa da inversão da maré e do ‘backwash’, caiu quase que pela metade. Eu fiquei praticamente preso. Foi meu maior perrengue do Havaí”

Atleta de standu up enfrenta a China Wall, trecho que Patrick teve mais dificuldades na prova (Foto: Divulgação/Molokai2Oahu)
Atleta de standu up enfrenta a China Wall, trecho que Patrick teve mais dificuldades na prova (Foto: Divulgação/Molokai2Oahu)

Como é a alimentação numa travessia dessa que você fica oito horas no mar?

“A alimentação não acontece só no momento da prova. A minha largada era às 7h30. Meu nutricionista mandou eu acordar às 4h30 e comer um macarrão com salame e presunto, para aquela energia já entrar no seu corpo. O café da manhã é muito importante. E 30 minutos antes da prova, eu comi mais um sanduíche de presunto. Existe um barco de apoio individual por atleta. Então, teve um barco que me acompanhou, que era meu GPS desde o começo. A minha alimentação foi feita por um nutricionista de alto calibre, que é o Renê Leite. Durante a porva, é basicamente tudo líquido. Eu tomava Endurox (suplemento para reposição de energia), água e barras de cereal. A barra me enjoava, mas eu não podia ficar tanto tempo sem comer. O único momento que eu passei mal da travessia, foi do estômago, entre a quarta e a quinta horas. Eu tinha que comer e o mar estava muito sacudido. Eu não cheguei a vomitar e eu tenho uma alta resistência para não ficar enjoado no mar, mas foi muito duro, eu tive que me concentrar para não vomitar. Eu estava deitado numa prancha, com o mar sacudindo. Era como se eu estivesse comendo dentro de um liquidificador”

Ficou satisfeito com seu desempenho na travessia?

“Eu sou um atleta de mar liso. Eu venci as principais provas do Brasil, mas a situação de mar de Molokai é muito diferente da situação da região sudeste do Brasil. O único mar que se compara é o de Fortaleza. Como eu não tenho muita experiência em downwind, era uma prova muito longa e nenhum brasileiro tinha feito essa prova, a minha missão era completar. E foi o objetivo atingido. A travessia Molokai To Oahu é como a travessia do Canal da Mancha na natação. Eu pretendo voltar e melhorar minha posição e meu tempo”

Qual a importância do seu feito de se tornar o primeiro atleta brasileiro a completar a Molokai To Oahu?

“Para mim, é um feito importante, que me traz retorno e que me deixa animado. Mas pro pessoal que pratica paddleboard, é muito mais importante que para mim. Eles viram que é real, eles viram que é possível fazer essa prova. Eles viram que um cara que está aqui no Guarujá, em Maresias, em Ubatuba, pegou a mala, foi para lá e completou a prova. Isso tirou um pouco da mística do mar do Havaí e trouxe para uma coisa mais real. Então, a minha influência sobre os outros praticantes do Brasil é o mais importante de tudo. Eu espero que outros brasileiros peguem a mala e vão conhecer o Havaí no estilo paddleboard”

Patrick Winkler se tornou o primeiro brasileiro a completar a travessia Molokai to Oahu, no Havaí (Foto: Reprodução/Instagram @Patrickinwater)
Patrick Winkler se tornou o primeiro brasileiro a completar a travessia Molokai to Oahu, no Havaí (Foto: Reprodução/Instagram @Patrickinwater)

Como foi a reação do corpo logo após o final da prova?

“Muita gente me pergunta como está minha lombar. A lombar não dói. No paddleboard, você divide, o peso entre a perna, o abdômen e a lombar. Então, você só põe um terço da força na lombar, e não o peso inteiro. Então a lombar não dói, mesmo que a prova demorasse 100 horas. O ombro sente muito e a parte do pé, que fica em contato com a prancha, fica muito machucada. A sensação mais estranha que eu passei, foi que duas horas depois que eu terminei a prova, tudo ainda estava mexendo. Eu não consegui tomar banho. Quando eu estava no banheiro e fui pegar o xampu, estava tudo se mexendo. Eu fui conversar com os remadores de outros países, eles estavam falando a mesma coisa: ‘não consigo pegar o xampu’, ‘não consigo amarrar meu tênis’… A sensação é que você fica oito horas num liquidificador e as próximas duas horas, o chão está fixo, mas seu cérebro ainda está se mexendo”

Como foi a recuperação?

“Eu fiquei 48 horas de repouso. Voltei a remar na quarta-feira , o que foi uma besteira. O ideal era que na quarta-feira eu fizesse uma natação leve, fizesse um alongamento. Só que como eu ia voltar para o Brasil, eu queria aproveitar o Havaí ao máximo. Aí eu fiz um downwind de canoa havaiana, no dia seguinte eu fiz um downwind de stand up, e na sexta-feira, eu fui surfar. Voltei estourado para o Brasil porque eu não fiz a recuperação ideal. Aí fiquei uma semana de molho e agora já estou bem de novo”

Qual o principal aprendizado que você leva para a vida depois de completar essa travessia?

“A primeira coisa é a força mental. A força mental é quase tão importante quanto a física, para vencer longa distância, frio, ondas… E eu viajei para o Havaí sozinho. Não fui com nenhum outro brasileiro, com nenhum técnico, com nenhum nutricionista. Esse crescimento de você se ver sozinho nessa situações. Como achar um navio para levar minha prancha de Molokai para Oahu? Como eu vou pegar um ônibus para me locomover? Como eu vou achar os produtos de nutrição que o meu nutricionista mandou comprar? Como eu vou treinar sozinho sem técnico num mar que eu nunca entrei? Então, você se sente um desbravador mesmo. E me dá forças para fazer outros desafios. Em 2018, meu desafio vai ser fazer o Canal de Catalina na Califórnia, que é a prova mais tradicional do mundo de paddleboard, tem 30 milhas náuticas e já tem mais de 60 edições. É uma situação de ondas mais parecida com a do Brasil, mas a água é muito gelada. No Havaí, a água é mais quente”

Quais serão seus próximos desafios agora?

“Esse final de semana eu estou indo para o ISA Games, que é o Campeonato Mundial de Stand Up e de Paddleboard. A Dinamarca é um lugar onde a água é muito frias, eles são descendentes dos vikings e a remada faz parte do povo. Então, vai ser o grande desafio. Não estava no meu calendário, mas como eu recebi o convite da federação e estou com a preparação física muito boa, eu resolvi aceitar. Na Dinamarca, como o mar é totalmente flat, minha intenção é chegar entre os oito primeiros”

Patrick Winkler se tornou o primeiro brasileiro a completar a travessia Molokai to Oahu, no Havaí (Foto: Reprodução/Instagram @Patrickinwater)
Patrick Winkler se tornou o primeiro brasileiro a completar a travessia Molokai to Oahu, no Havaí (Foto: Reprodução/Instagram @Patrickinwater)

Intercâmbio cultural graças ao paddleboard

“Você tem que viver a vida intensamente. Eu jamais iria para a Dinamarca esse final de semana se não fosse o paddleboard. Eu estou indo conhecer a Dinamarca por causa do paddleboard. Ele realmente me traz novas situações que eu vivo. E o atleta que está do seu lado, por mais que ele tenha uma cultura diferente, ele tem um estilo de vida parecido com o seu. O Japão é um país muito diferente, mas quando você conversa com um atleta de paddleboard do Japão, ele tem uma vida parecida com a sua. Trabalha, sai para remar na hora do almoço, volta… Então, é engraçado esse intercâmbio de países diferentes, mas com estilo de vida igual”

Apoio da namorada até em alto mar

“Fazer treino longo não é uma missão tão fácil. A minha namorada, a Raquel, é atleta de canoa havaiana. Então ter, além de tudo, uma pessoa que possa me acompanhar a 20 km da costa é uma oportunidade incrível. Estar ao lado da minha companheira em alto mar me deu uma segurança, foi algo incrível para mim”

Oportunidade única que o paddleboard proporcionou em sua vida

“O Havaí é uma das ilhas turísticas mais conhecidas do mundo. Mas eu conheci o Havaí pela água. Eu conheci o North Shore inteiro pela água. Depois eu conheci o South Shore inteiro pela água, remando. Eu conheci a ilha de Oahu inteira pela água. Se não fosse o paddleboard, eu estaria na terra pegando um ônibus para visitar os pontos turísticos, mas eu conheci um dos lugares mais famosos do Oceano Pacífico nas águas do Oceano Pacífico”