Prata em Sydney 2000, Quirino lamenta situação do atletismo brasileiro: “Precisa rever conceitos”

Claudinei Quirino
Crédito da foto: Márcio Donizete/Torcedores.com

Um ano após as Olimpíadas do Rio de Janeiro, modalidades esportivas do Brasil estão com dificuldades na detecção de talentos para um novo ciclo olímpico. É o caso do atletismo, que até possui nomes importantes agora, como Thiago Braz (salto com vara) e Caio Bonfim (marcha atlética), mas que ainda é pouco para uma nação que “respira” esporte. Para o medalhista Claudinei Quirino, prata em Sydney 2000 no revezamento 4x100m, não há transição de gerações.

“Não acredito nisso (transição), não. Estamos repetindo transição há 50 anos. Não acaba (risos)”, brinca, em entrevista ao Torcedores.com, em tom também de crítica. “No Mundial de Atletismo em Londres, tivemos uma medalha de bronze, com o Caio Bonfim. Ele está beirando (medalha olímpica) e tem ótimos resultados recentes na marcha, mas o carro-chefe hoje é o salto com vara, com Thiago Braz. Tirando as lesões, ele não vem tendo um ano bom”, explica.

Quirino atendeu o Torcedores.com em sua sala na Secretaria de Esportes de Presidente Prudente, no oeste paulista – Crédito da foto: Márcio Donizete/Torcedores.com

Nas corridas de pista, onde Quirino competiu por décadas, vê uma falta de regularidade nos resultados dos atuais atletas. “Tem corredor que faz 10.11 nos 100m uma vez, porém esse tempo não pode ser feito uma vez, tem de ser constante. No Mundial chega com esse índice de 10.11, mas precisa repetir isso quatro vezes: nas três eliminatórias e na final. O brasileiro não está sendo”, lamenta.

“Nos 4x100m nosso, sempre íamos às finais, mesmo quando caía bastão. Dessa vez a gente nem conseguiu se classificar, nem no feminino. Tirando o Caio Bonfim, nosso melhor resultado foi a Rosângela Santos, que se tornou a primeira brasileira a correr os 100m abaixo dos 11 segundos [10.91, batendo o recorde sul-americano]. Sou membro da CBAt (Confederação Brasileira de Atletismo) e não falo mal, mas precisamos rever nossos conceitos, porque algo está errado”, complementa Claudinei Quirino.

Renovação de técnicos

Quirino, que hoje comanda a secretaria de Esportes em Presidente Prudente, a 600 km de São Paulo, vê que uma possível solução para desenvolvimento das modalidades de atletismo seja uma renovação de treinadores.

“A gente torce para brasileiro em qualquer campeonato, mas não damos sequência. A gente deveria dar uma reciclada em nossos treinadores. Trabalhei com o Jaime Neto, que conquistou várias medalhas em competições mundiais, sul-americanos e Pan-Americanos com atletas treinados por ele, mas faz tempo que ele não está colocando um atleta dele em evidência”, critica.

Perguntado se a solução seria ex-atletas virando técnicos para passar a experiência, Claudinei Quirino diz que poderia ser uma boa alternativa, mas faz ressalvas. “Se o cara tiver uma qualificação, por que não? O Vicente Lenílson está em Cuiabá hoje. Mas nossos treinadores estão muito velhos”, emenda o medalhista em 2000.

Cartilha de treinos

Para o ex-velocista, hoje o atleta precisa trabalhar o psicológico, algo treinado pelos melhores do mundo, como estadunidenses e jamaicanos. “O atletismo mudou, se modernizou. Começamos com a cartilha russa (de treinos), onde o atleta precisa ser forte, depois fomos para o norte-americano, onde o cara não precisa ser forte, mas rápido, e hoje é filosofia: 100% psicológico. Treinamento é uma coisa, auto-rendimento é outra”, explica.

“Nossos melhores atletas treinam assim: Caio Bonfim com os pais, excelentes professores e estudiosos; o Braz, com o Vitaly Petrov, da escola russa; a Rosângela, nos Estados Unidos; a Erica Sena (da marcha), na altitude; os melhores fundistas nossos, em camping na Itália. Dos mais antigos, ainda temos o Nélio Moura, que treinou a saltadora Maurren Maggi, e o Katsuhico Nakaya, técnico das pistas. Porém a gente precisa também dar uma reciclada”, finaliza Claidinei Quirino.

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* Direto de Presidente Prudente-SP


Jornalista desde 2012, com passagens pelos jornais ABCD Maior e Diário do Grande ABC, além do canal NET Cidade. Atualmente como repórter colaborador no site Torcedores.com.