Campeã Pan-Americana estreou com 13 anos e chorava para poder jogar futebol

Daniela Alves relembra começo de carreira no futebol feminino, aos 13 anos (Foto: Renato Senna/Torcedores.com)
Daniela Alves relembra começo de carreira no futebol feminino, aos 13 anos (Foto: Renato Senna/Torcedores.com)

Daniela Alves fez parte da melhor geração do futebol feminino brasileiro. Meia de um chute potente na perna direita, a camisa 7 conquistou os Jogo Pan-Americanos de 2007, disputados no Rio de Janeiro há exatos 10 anos. Porém, para chegar ao estrelato, Daniela teve que enfrentar a resistência da família. Quem a salvava era sua mãe, que também curtia jogar seus rachas quando era jovem.

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“Gastei muitas lágrimas. Apesar de a minha mãe ter jogado na infância, meus tios jogarem, mesmo assim, eu enfrentei muita dificuldade. Meus pais são nordestinos, baianos. Emeu pai nao gostava que eu estivesse sempre no meio dos meninos, jogando futebol. Então eu tinha que gastar lágrimas para poder jogar. Eu tinha mais facilidade se tivesse um tio meu jogando. Tinha que estar vendo se meu pai não chegava do trabalho, porque quando ele chegava ele mandava eu entrar porque só tinha eu de menina. E eu ficava lá chorando e gritando ‘eu quero brincar!’, até que minha mãe intervinha e deixava eu ir. Então não foi fácil”, contou a ex-jogadora em entrevista exclusiva ao Torcedores.com, em evento realizado pela TIM, no Rio de Janeiro.

Como quase todas as mulheres daquela geração, Dani teve que começar jogando entre os meninos. Com poucas meninas nos campos, naquela época, elas tinham que enfrentar dois adversários dentro de campo: os homens e o preconceito.

“Além disso, eu enfrentava o preconceito dos outros. Só eu de menina jogava, então tinha muitos adjetivos que eles usava. Mas eu me impunha porque eu sabia jogar tão bem ou melhor que os meninos e conquistava meu espaço. Eu jogava bem, era sempre a primeira a ser escolhida no meio dos meninos. Não foi fácil, mas eu nunca baixei a cabeça”, revela a campeã pan-americana.

Profissionalização aos 13 anos

Acostumada a jogar em campos perto de casa, a ex-jogadora fez três peneiras para poder entrar numa equipe de futebol. Mas diferente das tradicionais histórias, ela não teve que insistir para ser aprovada. Ela passou nos três, mas escolheu o que lhe daria a melhor condição para continuar seus estudos.

“Minha primeira peneira foi com 12 anos. Foi no Palmeiras, em Amparo, no interior de São Paulo. Eu passei, mas não quis ficar porque eu não queria largar os estudos para jogar. Depois teve outra no Juventus, na Mooca. Passei e também não quis ficar, porque eu achei que ainda não estava legal. Na terceira, que foi na Portuguesa eu fui meio que empurrada, porque eu tinha 13 anos e eu era muito nova. Podia jogar a partir de 15 anos só e o treinador não me queria porque eu era muito nova. O meu treinador insistiu que eu participasse só por ir, para estar lá junto e fazer a viagem. Fiz a peneira, eles gostaram e eu acabei ficando. E aí comecei a jogar profissionalmente, com 13 anos. Ele (o treinador) tinha receio de me por, mas eu sempre fui forte e grande. Até que ele me colocou para jogar contra o Vasco e eu nunca mais saí”, diz a ex-jogadora.

Apenas dois anos depois, Dani já estava na seleção brasileira, se preparando para a disputa da Copa do Mundo de Futebol Feminino de 1999, que seria disputada nos EUA. Porém, quando chegou o regulamento, veio o baque. Ela teria que ser cortada, já que só podiam participar atletas acima dos 16 anos.

“Pela idade, eu tinha que o gato ao contrário, pra ficar mais velha (risos)”, brinca Daniela, relembrando o começo:

“Foi tudo muito precoce. Eu brincava ali e pensava que só eu de menina no mundo jogava futebol. Até que eu vi na TV e falei: ‘eu queria jogar assim, pra passar na TV’. Eu jogava no colégio também junto com os meninos, porque não tinha outra menina. O professor montou um time feminino e resolveu fazer um amistoso contra um time de campo. E ele gostou muito de mim. E aí foram mais lágrimas para eu jogar no campo com as meninas”.