Dez anos depois: o que Patrício, William e Tcheco lembram do Grêmio de 2007

Grêmio
Foto: Montagem a partir de fotos do site do Grêmio

Há exatos 10 anos, os gremistas testavam o coração a cada partida. O Grêmio de 2007 não foi feito para torcedores tranquilos. Jogava no limite. E se algum dia, leitor, perguntarem por qual motivo gostam de chamar o tricolor gaúcho de “copeiro”, nem gaste saliva. Apenas mostre uma foto ou um vídeo daquele time de 10 anos atrás que a dúvida estará sanada.

Porque era um time que fazia questão de sofrer – mas fazia do sofrimento um ingrediente a mais na construção de uma grande equipe. Sem grandes estrelas, craques ou jogadas ensaiadas inspiradas no futebol europeu, o Grêmio montado por Mano Menezes era exemplo de aplicação tática, luta e vibração. E foi assim que, amparado por sua frenética torcida, chegou à final da Libertadores com viradas históricas pelo caminho.

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A classificação na primeira fase só veio com um gol depois dos 30 do segundo tempo contra o Cerro Porteño, no último jogo da chave, no saudoso estádio Olímpico. No mata-mata, viradas contra São Paulo e Defensor demonstraram o peso da camisa gremista e credenciaram o time a chegar à semifinal, onde seguraria sabe-se lá como o resultado diante do Santos, na Vila Belmiro. Mesmo com a derrota na final para o Boca Juniors, que era melhor, o Grêmio de 2007 até hoje é lembrado com carinho pela torcida. E o Torcedores.com conversou com três personagens daquele time.

Patrício: grupo maravilhoso e méritos do Boca 

Titular incontestável no esquema montado por Mano Menezes, que já o conhecia dos tempos de XV de Novembro, de Campo Bom, o ex-lateral Patrício olha para trás e fala com orgulho dos resultados obtidos pelo Grêmio entre 2005 e 2007, que começaram na inacreditável Batalha dos Aflitos e só foram parar no mais emblemático estádio da América do Sul. Para o ex-jogador, uma das receitas do sucesso foi ter formado um grupo unido, com colegas que se gostavam.

“O time de 2007 tinha muitos jogadores que traziam aquele espírito forte e guerreiro de 2005. Já havia uma luta grande para subir. Aí subimos, fomos bicampeões gaúchos em 2006 e 2007, com essa Libertadores pela frente. De onde tirar forças para reverter tantos resultados como fizemos naquela campanha? Cara, a nossa força era a confiança que vinha das arquibancadas, do nosso treinador, era um grupo bom, que se gostava no vestiário. Isso conta muito. Era um grupo maravilhoso. Se precisasse, brigávamos em campo, falávamos mais alto, mas tudo para poder ajudar e corresponder ao nosso torcedor. A torcida nos abraçou de uma maneira que fez muita diferença, para todos aqueles jogos e viradas incríveis. Quando ela te apoia e acredita em você, tudo fica diferente. E nós entrávamos nos jogos determinados, super motivados nesse sentido”, colocou.

Ao lado de William e Carlos Eduardo, Tcheco comemora gol pelo Grêmio (Foto: Site Grêmio)

A campanha gremista até a grande final em Porto Alegre contra o Boca permitia aos torcedores sonharem com uma nova virada – e, por consequência, com o título. Apesar da derrota por 3×0 na Bombonera no jogo de ida, havia um clima de otimismo e esperança para a volta. Mas Riquelme tratou de frustrar os planos gaúchos com uma nova grande atuação na vitória por 2×0 dos visitantes. Patrício vê merecimento na conquista argentina.

“Sinceramente, quando as pessoas me falam desse jogo, sempre penso que, sim, a gente poderia ter ganho. Mas quando as pessoas reconhecem que a outra equipe era melhor, a gente fica bem mais tranquilo. O Boca realmente estava em um ano iluminado, vinha fazendo resultados incríveis naquela Libertadores, foi crescendo durante a competição. E a Libertadores é assim, você cresce dentro dela, não chega nela como favorito antes”, frisou Patrício.

Em áudio, o ex-jogador também comentou sobre mudanças que ele detecta no atual perfil do Grêmio. Ouça:

William: sede de vitória e apoio da torcida

Atual comentarista dos canais SporTV, William deixou claro a receita daquele time: se o primeiro jogo do mata-mata fosse fora de casa, a missão era buscar um resultado viável para virar no Olímpico, que em Porto Alegre a torcida jogaria junto. Se a ida fosse em casa, a vitória era indispensável – e melhor se fosse por mais de um gol, como contra o Santos na semifinal.

William, ao Torcedores, fez uma interessante revelação que servirá para massagear o ego dos gremistas: o zagueiro jamais havia visto uma torcida ver seu time levar um gol e cantar mais alto no mesmo instante.

“A torcida do Grêmio, cara… foi a primeira vez que eu vi na carreira o meu time tomar um gol e a minha torcida cantar ainda mais alto. Uma surpresa incrível quando joguei no Grêmio, equipe grande de fato. Tenho só que agradecer todo carinho e apoio que foi dado àquele grupo tanto de 2006 como de 2007”, pontuou.

Assim como Patrício, seu companheiro do lado direito de defesa, William concorda que o Grêmio surpreendeu ao chegar à grande final daquela edição da Libertadores. O “capita” vai ainda mais além. Para ele, o tricolor nem tinha o grupo mais qualificado tecnicamente entre os brasileiros na competição. Ainda assim, ele não nega o “gostinho amargo” pelo vice-campeonato.

“Eu tive um prazer enorme de participar daquele momento do clube, daquele grupo de atletas. com aquela comissão técnica liderada pelo Mano Menezes. Então, a gente poder ficar em terceiro no Brasileirão de 2006, entrar na Libertadores de 2007 e ser vice, ainda que tenha ficado um gostinho um pouco amargo… eu sempre lembro das expectativas que se tinha naquele grupo, e nem o mais fanático gaúcho diria que a gente passaria para final, porque tínhamos um grupo de menor qualidade técnica se comparado a outros times brasileiros, mas com uma sede de vitória inigualável”.

Tcheco: “bom gremista que sou” e o sonho de voltar

Com a faixa de capitão prensando o braço esquerdo, Tcheco representava o torcedor gremista em campo a cada jornada pela Libertadores de 2007. Foi indispensável na campanha ao marcar gols decisivos contra São Paulo, Defensor e Santos e mesmo sem ter conquistado um grande título em sua passagem pelo Grêmio, acabou se postando no rol dos grandes ídolos do clube.

E a recíproca é verdadeira. Porque ele não nega para ninguém que é gremista. Prova disso foi a forma como iniciou o contato com a reportagem do Torcedores: “Como bom gremista que sou…”. Ainda que atualmente exerça o cargo de coordenador-técnico do Paraná, clube em que iniciou a carreira profissional na década de 90, o ex-meia não esconde o carinho e a admiração pelo Grêmio – e se coloca entre mais um dos milhares de torcedores gremistas na expectativa por um novo grande título.

É o azul do Grêmio que está no horizonte profissional de Tcheco. Adorado pela torcida, ele quer que as coisas ocorram de maneira natural, sem pressa, no momento certo. É por isso que empurra para um futuro o sonho de voltar a ser treinador, cargo que chegou a ocupar no Coritiba. Se puder ocupar a casamata do mandante na Arena, melhor. Melhor não: “Maravilhoso”.

“O meu desejo de ser treinador é algo para mais adiante. Com certeza, eu estando preparado, com os resultados vindo, que isso conta muito para os grandes times, eu acho que ao natural pode acontecer de eu ir treinar o Grêmio um dia, por que não? Seria um grande sonho meu. Se isso se concretizasse, seria maravilhoso. Mas não é uma obsessão porque quando a gente acaba planejando alguma coisa no futebol, a gente não sabe que rumo vai tomar e se vai conseguir chegar nesse planejamento. Seria um grande sonho a ser realizado, sim, mas eu tenho muito claro que as coisas acontecem aos poucos, devagar e também não seria algo para já”, explicou.

 



Jornalista formado pela PUCRS em agosto de 2014. Fã de esportes, sobretudo tênis. Colorado por paixão, jornalista por vocação e tenista por opção.