“A várzea é muito rica”, autora fala sobre livro de time amador de 1928

Diretoria do Anhanguera com a pesquisadora: da esquerda para direita estão Fúlvio Fuser (diretor), Marinho (atual presidente do time), Diana Mendes, Eduardo Bertoli (diretor) e Izídio Silva (coordenador de futebol) | foto: Diego Viñas

A pesquisadora paulista Diana Mendes mergulhou na história do Anhanguera da Barra Funda, time de várzea da região centro-oeste da cidade de São Paulo, e descobriu a origem da formação de uma das associações amadoras esportivas mais antigas em atividade no país, com fundação em 1928. O livro “Futebol de várzea em São Paulo – a Associação Atlética Anhanguera (1928-1940)” foi lançado nesta semana, na capital paulista.

Para quem chegava na região da Avenida Paulista na noite desta sexta-feira, dia 12, sentiu o clima de descontração em cada esquina, típico deste tão esperado dia da semana na metrópole e onde se aglomeravam pessoas de diferentes idades e classes em busca de um bom papo, cerveja e risadas. Facilmente, é possível flagrar um grupo ou outro falando sobre futebol, do profissional claro, se não do europeu. Bem provável que muitos – muitos mesmo – mal saibam que ainda existe um tal de futebol de várzea muito vivo. E a poucos metros daquele agito, estava Diana Mendes, dentro da livraria Martins Fontes, sentada sob o ambiente calmo de biblioteca, assinando seu livro para algum leitor que lhe pedia autógrafo.

Diana assina livro para leitores (foto: Diego Viñas)

Mestre da Universidade de São Paulo, Diana se sentiu desafiaad em descobrir os mitos de um período ainda pouco explorado da história do futebol, sobretudo do surgimento da várzea na maior cidade do país. Como personagem, a escritora conheceu a Associação Atlética Anhanguera, ou simplesmente, o Anhanguera da Barra Funda, fundado em 1928 e com sede na rua dos Italianos, região do Bom Retiro. 

Livro também será lançado na sede do time de várzea

Além do lançamento do livro no coração financeiro da cidade de São Paulo, Diana também fará um evento na própria sede do Anhanguera, com previsão para acontecer dia 27 de maio. A promessa é de ter muito samba, cerveja e futebol.

Veja na íntegra a entrevista que os Cornetas da Bola fizeram com a autora da obra.

Como surgiu a ideia de pesquisar o futebol de várzea?

Surgiu em diálogo com meu interesse pelos primeiros anos do futebol em São Paulo. Nós temos muitos mitos e e pouca história sobre esse período. Tinha interesse pela história dos clubes da cidade por imaginar uma gama muito grande de documentos ainda pouco explorados.

Como conheceu o Anhanguera da Barra Funda? A história do Anhanguera foi puro acaso. Meu orientador teve um aluno que frequentava o samba do tradicional clube de várzea e que lhe alertou sobre a riqueza de sua história. Contatos foram trocados e pronto: acabei me decidindo por pesquisar a trajetória de um dos representantes dos primeiros clubes de futebol amador e de várzea da cidade. Era tudo muito fascinante.

Para você, enquanto pesquisadora e acadêmica, quais as principais contribuições do futebol de várzea?

A várzea é muito rica, oferece muitas pautas. Ao pesquisar os primeiros anos do Anhanguera e do futebol de várzea, pude notar várias coisas, mas duas delas me chamaram a atenção: 

Primeiro, o quanto a experiência da auto-organização política e comunitária – o associativismo popular – foi importante para a formação dos clubes amadores que se formaram à beira do Tietê.  

Segundo, o quanto aspectos dessa experiência perduraram, não desapareceram mesmo com o fim das atividades desses primeiros clubes. Veja, dos clubes nascidos no mesmo período que a Associação Atlética Anhanguera, isto é, meados da década de 1920, apenas o Anhanguera e seu vizinho, o Clube Nacional (de 1913), persistiram. Os demais sucumbiram diante da força do processo de industrialização e da especulação imobiliária. Sem falar dos clubes que antecederam o Anhanguera. Nenhum conseguiu continuar. Pois bem, ainda assim, questões como ‘o amor à camisa’ ou a ‘identidade do clube com o bairro’, tão importantes para definir as identidades clubísticas e as formas de torcer do futebol profissional, tiveram seu berço no futebol amador e popular das várzeas.

Diana em conversa com Arthur Tirone, um dos integrantes e uma espécie de “historiador” do Anhanguera da Barra Funda. (foto: Diego Viñas)

Devem ser muitas histórias na sua pesquisa. Mas tem alguma que você descobriu e achou muito curiosa?

Tem muitas histórias interessantes. A que gosto mais está no livro. É a conversa, que entrevi pelas atas das reuniões de clube, de dois jogadores fundadores do Anhanguera. Um era craque, o outro a base da organização do clube. Um pouco aparecia no clube. Apenas nos bailes e nas partidas. E parecia dever mensalidades. O outro passava os dias organizando papéis e cobrando associados inadimplentes. Eles debateram em inúmeras reuniões quem deveria ser o centro-avante titular nas partidas que o Anhanguera disputava. Imagine, só, toda a diretoria e alguns associados num debate como esse. Houve que defendesse o craque, mas houve quem defendesse o fiel sócio. Para mim, a disputa entre os dois revela a entrada do critério da competência esportiva no futebol amador. E certo abandono do critério de participação e fidelidade ao clube. Segundo associados do Anhanguera, esse tipo de briga acontece ainda hoje.

Quando resolveu escrever o livro, por onde começou? 

Comecei pelo material que o clube me emprestou: o livro das atas produzidas entre os anos de 1928 e 1934. Ao lê-las, muitas questões foram surgindo. Eu ia atrás das imagens e informações que mais se repetiam ou as que mais chamavam minha atenção. Consultava obras de referência sobre futebol, sobre a sociabilidade dos imigrantes, sobre a cidade e sobre o subúrbio de São Paulo. Pesquisei e registrei anos dos periódicos de época, principalmente d ‘A Gazeta Esportiva’, responsável por promover o futebol de várzea já ao final dos anos 1920.

E quanto aos varzeanos do Anhanguera, como eles colaboraram?

Realizava entrevistas com os associados mais velhos  do clube. Devo as entrevistas ao Arthur Tirone, espécie de historiador do clube. Ele não só conhecia todos os antigos associados, como guardava as histórias contadas por aqueles que já tinham falecido. À época ele possuía um blog sobre o Anhanguera cheio de histórias e informações riquíssimas. 

Sofremos muito com a dificuldade de registro histórico na várzea. Na sua pesquisa, como isso se deu?

Creio que as maiores dificuldades estiveram relacionadas à documentação. Ao contrário dos primeiros clubes representantes da elite cafeicultora, das fábricas, etc. que ainda hoje possuem arquivos que documentam suas histórias, os clubes amadores e populares da várzea encontraram várias dificuldades para perdurar, pois tinham pagar aluguéis de campos e sedes às vezes muito altos. Tudo isso com a receita oriunda de mensalidades dos sócios. Esses, por sua vez, tinham que dividir o gosto pelo futebol com inúmeras outras despesas. Daí que nem sempre era possível fechar as contas. Então era frequente o encerramento das atividades dos clubes de várzea. Por essa razão, seus associados iam passando para outros clubes. O resultado é que os documentos dos clubes que fechavam suas portas iam se perdendo.

Diana ao centro com os diretores do Anhanguera da Barra Funda (foto: Diego Viñas)

É muito comum encontrar alguém comentando que a várzea acabou ou que vai acabar em breve. O que você pensa sobre isso? 

Penso que a várzea como espaço livre do rio Tietê, do Tamanduateí, Pinheiros, Aricanduva e de outros tantos de fato acabou. Desde os primeiros anos do século passado foram realizadas intervenções nas várzeas desses rios para aproveitamento de suas áreas seja por vias expressas, pontes ou prédios. Mas há algo muito importante que não acabou: a prática da ocupação de espaços livres, a prática do futebol em espaços não especializados como as quadras ou estádios. A prática de se reunir pra jogar bola e ocupar política e culturalmente espaços ociosos perdura, se reinventa e assume novos significados a cada novo time fundado, a cada novo campo que se estabelece. 

É muito louco pensar que esses times, esses bairros seguem organizados sozinhos, sem apoio. Que leitura você faz sobre esse fenômeno?

Gostaria de falar sobre a forma como as associações populares vivenciaram o futebol. Foram experiências da maior importância que, em verdade, ainda existem e nos mostram que há formas menos mercantilizadas e hegemônicas de lidar com o esporte. São experiências comunitárias e políticas muito ricas. Para mim, a maior descoberta ao lidar com a trajetória do Anhanguera é notar que a criação de tempo livre, de tempo próprio para práticas prazerosas como o futebol é algo tão possível quanto necessário para se sentir parte dessa enorme cidade.

Por Diego Viñas