Júlio Santos desabafa após título: “Ninguém queria o Novo Hamburgo campeão”

Júlio Santos
Foto: Facebook - Novo Hamburgo

As passagens por São Paulo e Vasco da Gama seguem bem vivas na memória de Júlio Santos, mas foi com a camisa do Novo Hamburgo que o zagueiro construiu uma das páginas mais bonitas de sua trajetória como jogador de futebol. Mesmo aos 35 anos, e com uma carreira já consolidada, ele sorriu e correu com a alegria de um iniciante por volta das 18h30 do último domingo, quando o árbitro Leandro Vuaden decretou o final da disputa por pênaltis com vitória do NH sobre o Inter.

Júlio, aliás, não fugiu de sua responsabilidade e foi um dos batedores do Novo Hamburgo. Da mesma forma que eliminou o Grêmio na semifinal, o time da região metropolitana precisou das penalidades máximas para tirar a taça de campeão do Inter – que lutava pelo sétimo estadual seguido, em um feito obtido apenas uma vez na história. Quando o seu companheiro de zaga, Pablo, converteu a última cobrança, Júlio Santos correu para comemorar ao lado dos companheiros aquilo que, em suas palavras, “ninguém queria que acontecesse”.

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Pois, em entrevista exclusiva ao Torcedores.com nesta última terça-feira, o zagueiro, em tom de desabafo, lamentou o tratamento que o clube recebeu por parte da grande mídia durante a competição. Queria uma valorização maior ao Novo Hamburgo, especialmente depois da irretocável primeira fase, em que o NH liderou da primeira até a última rodada. Para ele, a imprensa “ficou obrigada a falar do Novo Hamburgo” quando o time chegou à final.

Elenco anilado na premiação do Gauchão (Foto – Facebook NH)

Na ausência do meia Preto, Júlio era o habitual capitão do time brilhantemente comandado por Beto Campos. Formado no São Paulo em uma geração que despontava nomes como Kaká e Júlio Baptista, o defensor acumulou boas atuações no Gauchão, chegou a fazer quatro gols na campanha e, com justiça, integrou a seleção do torneio. E, com a voz rouca no telefone, fruto de dois dias intensos de comemoração, revelou alguns bastidores da conquista ao Torcedores.

Torcedores.com: Júlio, vocês construíram uma linda história neste Gauchão. A ficha já caiu? Imagino que tenha sido a conquista mais importante da tua carreira.

Júlio Santos: A ficha dessa conquista não cai de imediato, vai caindo aos poucos. Mas agora temos que torcer e trabalhar para que não pare. E que o Novo Hamburgo possa se engrandecer cada vez mais com o passar dos anos. A gente espera que essa possa ser a primeira de muitas conquistas do clube. E, sim, com certeza posso afirmar que essa foi uma das conquistas mais importantes da minha carreira, por ter sido com um time considerado pequeno, que não era favorito. Outros títulos que ganhei foram com equipes maiores, que entravam como favoritos.

T: Vocês jogadores, o Beto Campos, a diretoria, enfim, todos do Novo Hamburgo bateram na tecla da “dificuldade” em fazer futebol no interior gaúcho. Você pode exemplificar alguma dificuldade vivida?

JS: O que a gente briga é por um salário um pouco maior, mesmo nas equipes menores. Mas, assim, nem se compara a diferença salarial que tem por exemplo a dupla Gre-Nal com o Novo Hamburgo. E vou te dar um exemplo de tratamento que a gente sente que é porque somos time dos considerados “pequenos”. Na final, o mando de campo era nosso, porque fizemos a melhor campanha. Tiraram o jogo de Novo Hamburgo por conta dos problemas com as autoridades, mas, o mando seguia nosso mesmo em Caxias do Sul. Mas sábado em Caxias, um dia antes da decisão, o Inter resolveu ir treinar de manhã, primeiro que a gente, e para nós sobrou a tarde. Sendo que a preferência deveria ser nossa para escolher. Éramos nós os donos da casa naquele momento. Esse é um exemplo de situação que acontece com um clube de menor expressão. Mas assim, o Novo Hamburgo deu todo o suporte para a gente e cumpriu com as obrigações.

T: Havia, entre vocês, algum incômodo por supostamente não estarem sendo reconhecidos pela grande campanha?

JS: Não é que nos incomodava, mas a gente sabia que seria assim e foi durante o campeonato todo. Ganhamos as seis primeiras rodadas, depois tropeçamos e já veio aquele papo: “Agora o velho Novo Hamburgo voltou”. Quando ganhávamos, não éramos nós os merecedores, mas sim os outros que haviam jogado mal. Aí ganhamos do Inter lá na terceira rodada, dentro do Beira-Rio, e falaram que o Inter jogou mal. Tudo bem, mas a gente cobra valorização para o nosso time. Mostrar que as pessoas precisam olhar também para os times do interior, que têm bons valores. Depois passamos do São José nas oitavas, tiramos o Grêmio na semifinal e foi aquela história que o Grêmio deu mole, não jogou bem e tal. Mas aí a imprensa se obrigou a falar de nós, porque chegamos a uma final. Não era bom para ninguém o Novo Hamburgo ser campeão. Ninguém queria, a Federação Gaúcha de Futebol não queria, para todos era melhor um grande da capital vencer, mas nós conseguimos.

T: Foi mais difícil passar pelo Grêmio na semifinal ou pelo Inter na decisão?

JS: A gente sabe que o potencial de investimento da dupla Gre-Nal é muito grande. Nem se compara com o poder que a gente tinha. Mas cada jogo tem sua história, e nós montamos uma equipe experiente, com jogadores rodadas. Isso nos ajudou a fazer um grande jogo na Arena na semifinal e depois também no Beira-Rio contra o Inter, com toda a torcida deles. Hoje a gente sabe que o Inter vive um momento de estar numa Série B, mas pelo clube grande que é, logo vai voltar.

T: Você fica no Novo Hamburgo?

JS: Então, agora essa semana ficamos de nos reunir e conversar sobre a sequência da temporada. Então vamos ter uma resposta sobre a continuidade no clube.

Lance em que Júlio Santos disputa com Carlos (Foto: Ricardo Duarte/Inter)

T: Por um dever até jornalístico, devo te fazer essa pergunta. Após o primeiro jogo da final no Beira-Rio, os colorados pediram uma penalidade máxima em um lance contigo e com o Carlos. Foi pênalti, Júlio?

JS: Isso deu um barulho mesmo. Pô, aquela foto circulou um monte pelas redes sociais e pela internet. E as pessoas pegaram só a questão da foto, não se interessaram em analisar o lance. Foto é foto. Se for ver, aquela imagem ocorre depois que eu já afastei a bola e a jogada já estava parada para o escanteio. Para mim, foi lance normal de jogo. O futebol é um jogo de contato, então dentro da área sempre vai existir essa disputa.

T: Para finalizar, como foi a oportunidade de jogar no Mazembe, um dos históricos carrascos do Inter?

JS: Assim, eu tive uma passagem pelo Mazembe em 2012, ou seja, foi dois anos depois daquela vitória sobre o Inter no Mundial da Fifa. O pessoal de lá lembra sim desse jogo, mas eles mantêm o maior respeito pelo Inter e pelo futebol brasileiro. Era normal ver funcionários ou auxiliares do clube trabalhando com a camisa do Inter. E pessoalmente para mim foi muito bom, foi muito interessante vivenciar e conhecer uma cultura nova, de outro país.

 



Jornalista formado pela PUCRS em agosto de 2014. Fã de esportes, sobretudo tênis. Colorado por paixão, jornalista por vocação e tenista por opção.