Guardiola passou pelo MS, e será que você viu?

O conceito de que o futebol é um jogo psicológico e que depende da inteligência coletiva para que uma equipe triunfe faz parte do D.N.A do Barcelona, implantado desde “la cantera” e defendido com um patrimônio do clube em todas as categorias, principalmente no time principal. A ideia de competição sustenta fora dos campos o amor de uma legião de torcedores que cresce a cada dia, por admiração a essa escolha de postura, e pelo orgulho de performances que valorizam o esporte, o que torna fácil entender o lema azul grená “Mais que um Clube”. Dos 117 de existência da instituição nunca ela esteve tão na moda, porém vestir uma equipe com alma do Barcelona, ou propriamente a “alma que o Barcelona escolheu para si”, não é uma tarefa fácil. Imagine então aplicar com sucesso algo próximo dessa filosofia no Mato Grosso do Sul, no primeiro trabalho como técnico, em um time com menos de uma década de existência? Quem arriscaria métodos que consagraram Pep Guardiola com essas circunstâncias?

 Barcelona de Johan Cruyff, com Guardiola na zaga, um dos modelos que o clube apresentou do seu afã pelo jogo ofensivo (Torcedores.com)

Vice com alma de campeão e um ímpeto pelo ataque constante

Bazílio do Amaral, 41 anos, educador físico formado na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), e treinador do Novoperário, em boa parte do Campeonato Estadual do Mato Grosso do Sul deste ano, foi “maluco” o bastante para arriscar tal ousadia. Contrariando pragmatismos da bola ele não só tornou realidade essa tentativa de um “jogo ofensivo”, “com jogadores que atuavam de cabeça em pé”, como ainda foi vice-campeão, comandando um time que na partida de ida chegou a ter domínio completo do campo, batendo até 68% de posse de bola e uma quantidade de passes que eu gostaria muito de ter contado na minha análise de desempenho. Porém, dou o testemunho que foram muitos, e que a cada jogada de ataque, o que na linguagem técnica do futebol dá-se o nome de transição ofensiva, os “meninos do Bazílio” trabalhavam a bola pelo menos com cinco trocas de passes. Quando possível o tick-taka fazia mais e a bola passava por até sete atletas diferentes.

Ciclo durante as partidas, e base da escolha da estratégia de jogo, que por sinal define o papel em campo dos atletas (Caio Gondo)

Todavia porque isso foi tão difícil de ver nas duas partidas da decisão entre Novo e Corumbaense? As qualidades do jogo e da arbitragem influenciaram muito na obstrução da visibilidade a esse modelo de jogo. Na disputa da ida, nos 46 minutos iniciais, do tempo normal da etapa mais acréscimos foram 55 interrupções, seja por faltas ou por “circunstâncias normais” como as reposições de bola. Acontece que chute a gol de verdade foi apenas um, e que originou o tento para o time de Corumbá, com finalização cruzada do atacante Willian. No primeiro tempo da volta, na Cidade Branca, o grande público que prestigiou o Arthur Marinho foi obrigado a ver um jogo com 73 vezes que a bola parou, em 49 minutos. E média, a cada 1 minuto e 27 segundos a disputa travou. Na última etapa, foram 48 entrepausas.

Honrando o nome, o Novo trouxe algo diferente, e muito diferente para os padrões do Estado e de Brasil, contudo a cadência excessiva do jogo que se pratica no Mato Grosso do Sul afetou diretamente no grau de reconhecimento a ideia implantada por Bazílio do Amaral, com respaldo da Diretoria do clube. Aliás somente com respaldo pode-se arriscar tanto no futebol. Como disse antes, Bazílio foi um maluco, mas não foi maluco sozinho e ensinou seus jogadores a terem menos medo que o normal. Time leve, com proposição constante de ataque e objetivo número preliminar de controlar partidas, o comportamento tático do caçula do Campeonato Estadual previu um padrão com base no 3-3-4 no auge da fase ofensiva e ocupação de espaço dos terços médio e avançado do campo. Para a compactação defensiva, nada de encaixotar jogador atrás da linha da bola e apenas a busca de atrapalhar o adversário.

Mobilidade coletiva e incentivo para o avanço de laterais, deram ao Novo a chance de controlar o campo regularmente (Teoria do Futebol)

O Novo teve uma obsessão pela bola, e tentou em cada partida recuperar a bola para ter construção de jogadas, com avanço das linhas e um sincronismo de disposição da peças que variava com harmonia do 4-3-3 na prontidão para saída, a um 3-4-3, na elaboração média do ataque e no momento mais avançado de posse de bola o ousado 3-3-4, com abertura da equipe pelas pontas, seja com lateral, homem de meio caindo pela ponta ou atacante deslocado. O gol feito pelo time em Corumbá, aos 9 minutos da etapa final mostra bem o risco que o ataque poderia oferecer em sua plenitude e o modelo de jogo. Em oito segundos, apostando em um passe de profundidade e movimentação rápida, o alviverde chegou com três dentro da área do Corumbaense, onde três defendiam. O pecado é que essa mesma objetividade do momento do gol não se repetiu em outras situações que o jogo aconteceu, quando a bola conseguiu rolar.

Copiar o Barça não é certeza de vitória, porém traz identidade

Fora do campo, o Barcelona também é ofensivo nas suas estratégias, o que é vital para sua internacionalização bem sucedida (Divulgação)

Para atuar com essa concepção parecida com o estilo Barcelona de jogar, e isso vale para o time do Luis Henrique, o treinado antes pelo Guardiola, ou o Barcelona B, alguns cuidados são necessários dentro de campo, e pelo que fui informado Bazílio antecipou os jogadores a respeito desses riscos. A perda da bola no terço médio, devido à movimentação avançada de laterais e disposição do time na transição ofensiva é muito mais fatal que o comum. Fora isso, há a questão de que com tanta posse de bola, a tendência é o adversário se compactar, algo que vai exigir paciência, inteligência e criatividade para quebrar a barreira de defesas. Tal remédio tem como vir de um passe certeiro, ou a rodagem de bola na frente da área, variando os lados, tarefa que determina altruísmo de quem ficar mais tempo com a bola no pé. O sujeito pode até carregar a bola, contudo é para abrir espaços a um colega, e nessa engrenagem de abertura é que o Barcelona, ou times parecidos como o Novo perturbam a paz das outras equipes.

A solidariedade na marcação e apresentação para recebimento de passes também fazem parte da cartilha, pois isso garante mais ainda a certeza de que a bola será mantida em domínio. Diante disso, boa parte da equipe, pelo menos 70% dela, tem que valorizar polifuncionalidade de jogadores. A dependência da movimentação faz com que o atleta precise conhecer fundamentos específicos a áreas do campo. Na escola tradicional o atleta fica restrito a conhecer sua “tática individual” e algumas responsabilidades com o coletivo. A exigência de tal inovação impede por exemplo o conforto de se ter como fórmula constante aquele meio-campo de contenção, “camisa 5 pra vida toda”, ou o “9 pesado”, que faz toda a estrutura se mexer para servi-lo como um rei. Jogadores assim podem existir na escalação, mas terão que pensar um pouco mais para que não percam oportunidades que pareçam óbvias. A adaptação de Suarez no Barcelona é um bom exemplo para isso, ou o recuo de Mascherano para a zaga.

Bazílio apresentou apenas uma parcela do que é capaz, assim como o Novo, que dando continuidade a esse modelo de organização tem como sonhar com uma hegemonia no Mato Grosso do Sul. Ter uma filosofia de jogo implementada é fundamental para a evolução de resultados esportivos e de projetos institucionais, e, em 2017, o vice-campeão sul-matogrossense lançou uma semente como nenhuma outra na região. Não veio o título, e nem sempre “o Barcelona ganha”, contudo ambição pelo excepcional ficou como legado. Com disse Ferrán Soriano, no livro “A bola não entra por acaso”, sobre o sucesso do Barça, e sua construção neste século, “O compromisso autêntico é individual; sua origem está no interior de cada pessoa. Mas estimulado e agrupado na equipe pode gerar resultados extraordinários”.

No momento de 1:26 segundos, se vê o Novo com quatro jogadores avançados e a equipe aberta na frente, o que ajudou na opção para lançamento da zaga, diferença substancial entre o “chutão” e o passe, graças a ocupação de espaços (TV Morena)

Para quem achou exagero a comparação entre Guardiola e Bazílio do Amaral, nas últimas linhas desse texto me rendo a concordar. Jogar com o auge da posse de bola em linhas fases de 3-3-4 não é para qualquer um. No Bayern de Munique, a equipe foi até campeã nacional mas não permitiu a Pep a plenitude de realizar suas ideias, conforme ilustra alguns trechos da obra “Guardiola Confidencial”, publicada em 2015. Mesmo assim o treinador espanhol vendeu suas convicções na terra bávara e foi enaltecido. Garanto que se o técnico do Novo soubesse falar alemão iria mais longe.

*Por Danilo Galvão, jornalista, com MBA em Gestão Estratégica de Negócios além capacitação em Gestão Esportiva, Gestão de Terceiro Setor e Análise de Desempenho em Futebol