PAPO TÁTICO: Como Luís Enrique resgatou o 3-4-3 de Louis van Gaal no milagre de Barcelona

Crédito da foto: Reprodução / Facebook / UEFA Champions League

A vitória do Barcelona sobre o Paris Saint-Germain desta última quarta-feira ainda será lembrada por bastante tempo. A maior virada da história da Liga dos Campeões da Europa premiou a coragem dos comandados de Luís Enrique, que não se abateram em nenhum momento (nem mesmo quando Cavani marcou o único gol do PSG), e que toda covardia e prepotência será punida no futebol. No entanto, vale lembrar que o “milagre do Camp Nou” também foi marcado por um resgate tático interessante por parte do treinador do Barça na partida. Precisando vencer por cinco gols de diferença, Luís Enrique apostou num desenho tático imortalizado no Ajax de Louis van Gaal em meados da década de 1990: o 3-4-3 com meio-campo em losango. E nós vamos contar um pouco da história dessa formação aqui na coluna PAPO TÁTICO.

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A derrota por quatro a zero em Paris (explicada aqui) trouxe lições valiosas para Luís Enrique e seus comandados. O treinador do Barcelona já vinha testando o 3-4-3 em alguns jogos na Espanha com um objetivo bem claro: diminuir a dependência do Trio MSN. Rafinha Alcântara e Neymar se transformaram em “alas”, dando profundidade e amplitude às jogadas de ataque; Messi ocupou o centro do losango, atuando logo atrás de Suárez; e Umtiti entrou no lugar do ofensivo Jordi Alba. Linhas avançadas, pressão na saída de bola do adversário e muita, mas muita movimentação no ataque. Mesmo com as decisões polêmicas da arbitragem do alemão Deniz Aytekin, não há como Unai Emery e os jogadores do PSG tentarem justificar a derrota. A estratégia de compactar as linhas no 4-1-4-1, esperar o adversário na defesa e dar campo ao Barça se mostrou completamente equivocada. E a prepotência apresentada por alguns atletas logo depois do gol de Cavani acabou sendo fatal.

Luís Enrique armou o Barcelona num 3-4-3 extremamente ofensivo foi premiado pela coragem no "milagre do Camp Nou". Rafinha Alcântara, Neymar e Suárez bagunçaram completamente o 4-1-4-1 de Unai Emery.
Luís Enrique armou o Barcelona num 3-4-3 extremamente ofensivo e foi premiado pela coragem e ousadia no  chamado “milagre do Camp Nou”. Rafinha Alcântara, Neymar, Messi, Iniesta e Suárez bagunçaram completamente o 4-1-4-1 de Unai Emery.

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É bem verdade que a arbitragem acabou influenciando no resultado do jogo, principalmente no pênalti inexistente de Meunier em Suárez. Mas duas coisas jamais poderão ser esquecidas depois dessa partida. A primeira delas é a covardia e a estratégia mal planejada e executada do Paris Saint-Germain de Unai Emery. E a segunda é a coragem e a execução quase perfeita de um esquema tático nascido dos primórdios do chamado “futebol total” com a Holanda na década de 1974. E como o papo aqui é tática (e como também já se falou muito sobre o jogo nesses últimos dois dias), vamos focar no desenho tático utilizado por Luís Enrique na partida. O trio de zagueiros (com o defensor central iniciando a saída de bola), os “volantes-meias” que partiam apoiando ao ataque e fechavam o meio na cobertura dos atacantes e o trio ofensivo móvel utilizado pelo treinador do Barcelona já haviam sido utilizados com muito sucesso há pouco mais de vinte anos atrás por Louis van Gaal.

Mesmo não tendo sido o inventor do 3-4-3, o holandês nascido em Amsterdam percebeu nos seus primeiros anos como treinador que o desenho tático era uma evolução do popular e conhecido 4-3-3 utilizado pela Laranja Mecânica na década de 1970. Naqueles tempos, era bastante comum se ver um dos defensores atuando um pouco mais avançado e se transformando numa espécie de meio-campista defensivo. O que Louis van Gaal fez foi tirar esse desenho tático do papel e colocá-lo em prática. Para ele, os jogadores de defesa deveriam se transformar em criadores de jogadas no futebol moderno. E assim ele o fez no comando do Ajax. Com Danny Blind no centro da defesa, com o já veterano Frank Rijkaard voltando a defender as cores do clube holandês e o surgimento de uam geração de grandes atletas como Seedorf, Davids e Bergkamp, Van Gaal conquistou o mundo em 1995 superando alguns gigantes do futebol mundial.

Crédito da foto: Reprodução / Facebook / Manchester United
Crédito da foto: Reprodução / Facebook / Manchester United

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O ápice desse esquema tático foi alcançado no dia 24 de maio de 1995, quando o Ajax derrotou o poderoso Milan de Fabio Capello, Baresi, Maldini, Costacurta e Donadoni na final da Liga dos Campeões da Europa 1994/95 em Viena, na Áustria. Enquanto a equipe rossonera jogava numa espécie de 4-1-3-2 com Boban perseguindo Rijkaard e encostando na dupla de ataque formada por Massaro (que voltava pela direita acompanhando Frank de Boer) e Simone, o Ajax mantinha o 3-4-3 com um trio de atacantes de bastante movimentação e uma defesa firme nos desarmes e segura na saída de bola. O gol do título saiu a cinco minutos do final da partida, com Kluivert completando passe do nigeriano Kanu (aquele mesmo dos Jogos Olímpicos de 1996). O Ajax voltava a conquistar uma Liga dos Campeões da Europa depois de vinte e dois anos graças à ousadia do seu treinador.

É bem verdade que Louis van Gaal nunca foi unanimidade. O gênio forte e controlador fez com que o holandês colecionasse inimigos e desafetos por onde passou (Rivaldo, no Barcelona, e Lúcio, no Bayern de Munique, são alguns exemplos). Além disso, ele sempre teve uma postura muito mais pragmática do que a grande maioria dos defensores do “futebol total”. Era comum Van Gaal ordenar que seus jogadores de meio-campo não fizessem jogadas de ultrapassagem com os atacantes e incentivar as ligações diretas da defesa para o ataque. Para ele, a segurança defensiva era fundamental, embora também defendesse que seus pontas deveriam ter espaço para chegar à linha de fundo. De qualquer maneira, o Ajax do início dos anos 1990 encantou justamente pelos motivos apresentados anteriormente: um futebol vibrante, ofensivo e de muita intensidade.

O Ajax quebrou um jejum de vinte e dois anos sem títulos da Liga dos Campeões jogando no 3-4-3 de Louis van Gaal. Kanu e Kluivert entrariam nos lugares de Litmanen e Seedorf para fazer a jogada do gol da vitória.
O Ajax quebrou um jejum de vinte e dois anos sem títulos da Liga dos Campeões de 1995 jogando no 3-4-3 de Louis van Gaal. Kanu e Kluivert entrariam nos lugares de Litmanen e Seedorf para fazer a jogada do gol da vitória sobre o Milan de Fabio Capello.

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A vitória histórica sobre o Paris Saint-Germain, além de ser lembrada por muito tempo, também vai servir de inspiração para o Barcelona nessa sequência da Liga dos Campeões da Europa e do Campeonato Espanhol. Luís Enrique mostrou mais uma vez que é um treinador antenado e que ainda tem muito a contribuir para o crescimento do futebol. Os títulos recentes e as soluções táticas falam por si só. E por mais que se tente diminuir o Trio MSN, é bom não duvidar da categoria de Messi, Suárez e Neymar. Ainda mais quando os três estão mordidos com as críticas de torcedores e jornalistas. E pelo que se viu depois do “milagre do Camp Nou”, a tendência é vermos o Barcelona sendo Barcelona mais uma vez. A conferir.

Em tempo: o futebol é a melhor invenção do homem depois do sorvete de flocos. E tenho dito.



Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.