O vira-latismo e a falácia do “outro jogo”

a falácia do outro jogo e sindrome de vira-lata
Crédito da foto: Reprodução/Tv Globo

Flamengo e Fluminense protagonizaram o jogo mais atraente do Futebol brasileiro neste ano de 2017 que está apenas começando. Barcelona deu espetáculo aos milhões de espectadores ao redor do mundo, e claro, seus torcedores presentes no Cup Nou diante do PSG no épico 6X1 pelas oitavas-de-final da Champions League.

Mas o que estes dois jogos tem em comum? Mais do que aparenta.

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Após o sensacional empate em 3X3 no Fla X Flu pela final da Taça Guanabara no último domingo, suscitou-se a discussão de que o Flamengo seria um time defensivamente frágil, já que sua defesa fez uma apresentação muito ruim no clássico. O mesmo se disse do Fluminense.

Vamos aos números.

O Rubro negro não perde desde o dia 16 de outubro de 2016, quando foi vencido pelo Inter por 2 X 1 no Beira Rio, pelo campeonato brasileiro. A última vez que o Flamengo tinha tomado mais de 2 gols em uma só partida havia sido no outro clássico, contra o Botafogo pelo primeiro turno do Brasileirão 2016, na Arena da Ilha, no empate em 3X3, no dia 16 de julho. Além disso, o Flamengo só levou mais de um gol em uma mesma partida em apenas 12 ocasiões desde que o treinador José Ricardo assumiu o comando da equipe, e em apenas 6 ocasiões nestas partidas o Flamengo saiu derrotado.

Neste ano foram 11 jogos. 28 gols marcados, apenas 5 sofridos, sendo 3 contra o Fluminense. No jogo mais importante do ano até então, defesa sólida, contra um time que mesmo pouco perigoso, era muito organizado, o San Lorenzo.

Além dos números, é importante ressaltar que, mesmo não estando totalmente ajustado, pois o esquema com o Arão e o Rômulo ainda precisa funcionar melhor, além do papel no Mancuello pelo lado direito do time que tem deixado o Pará muitas vezes sozinho no ataque, para não desguarnecer a defesa, o Flamengo não tem apresentado problemas defensivos. Pode-se falar muita coisa da equipe do Zé Ricardo, mas não isso.

Mas essa é a grande questão quando se discute o futebol brasileiro. Existe uma certa predisposição a falar mal das equipes, treinadores e jogos no Brasil. Nossa tão falada síndrome de vira-lata em várias áreas, grassou o futebol após a vergonhosa e fatídica goleada sofrida contra a Alemanha, neste que considero um divisor de águas no futebol brasileiro, em vários aspectos (mas isso é matéria para outro texto).

A imprensa, que é parte interessada que o Futebol caseiro vá bem, nada faz para colaborar com isso, e a capacidade de análise da esmagadora maioria dos jornalistas esportivos é do tamanho de um amendoim. Depois do Fla X Flu, voltou a se falar da falaciosa (e patética) história de que no Brasil, comparado a EUROPA, joga-se outro jogo, mas não futebol.

Será? Vamos lá.

Primeiro, Europa não é uma cidade, e sim um continente. Chega a ser pueril as análises que adjetivam o Futebol Europeu como se um só fosse. Quando se olha atentamente (uma criança pode fazer isto) se vê que o Futebol jogado na Inglaterra é completamente diferente do futebol jogado na Espanha, que se difere e muito da Italia, que é muito diferente de Portugal, que por sua vez nada parece com o que se joga na Alemanha. Todos estes países são localizados na Europa.

Mas vai além disso. Quando você analisa a tabela de classificação do campeonato espanhol, à medida que você vai descendo você observa times muito fracos. A Ponta do campeonato Espanhol tem 4 ou 5 times no máximo. Entre eles, os dois primeiros se destacam exorbitantemente dos demais (Real Madri e Barcelona), mas consegue garimpar mais 2 ou 3 times competitivos a nível Europeu, como o Atlético de Madri, o Sevilla, e Villa Real (nesta temporada 16/17). A parte de baixo da tabela do espanhol é tão fraca que os jogos são muito feios e difíceis de acompanhar. Os entusiastas do “outro jogo” devem assistir apenas os jogos do Barcelona e Real Madri, pois Ninguém em sã consciência pode falar que Osasuna X Málaga é mais atraente (do ponto de vista técnico) do que um Atlético X Cruzeiro, por exemplo.

Se pegarmos o caso da França e da Alemanha, é ainda pior. Campeonato com a ponta excepcional mas sem nenhuma profundidade. O Campeonato Italiano vive uma crise técnica muito grande e não se difere muito do Campeonato Brasileiro. O Campeonato Português não é melhor que o Brasileiro. Nem perto de ser.

A Premier League é o melhor campeonato do mundo, de fato. Além de ter uns 6 times muito fortes e competitivos que entram o ano pensando em título, a briga é boa entre quase todas as equipes.

No caso do Brasileiro, temos 12 grandes clubes, e mais uns 3 times que sempre são competitivos. É claro que há sim uma crise técnica no Brasil, que é um combinado de fatores, um deles, o econômico. Também é inegável que, tendo em vista a ponta (os melhores times) de cada campeonato destes citados, a distância dos gigantes europeus para os brasileiros é medida em anos-luz. Estamos muito atrás dos melhores times do mundo, e não sei se será possível um dia que essa distância diminua, tendo em vista que o dinheiro é determinante para isso.

Mas é fundamental observar que, na média, o campeonato Brasileiro não fica muito atrás destes campeonatos. Será mesmo que o Flamengo, Palmeiras, Atlético MG, Santos e Cruzeiro (melhores times do Brasil atualmente) iriam lutar para não serem rebaixados no campeonato Espanhol? No Italiano? No Francês? Nunca saberemos, mas sinceramente, acho muito difícil.

É ai que está situada a discursão do “outro jogo”. Quando o Pep Guardiola perde de 4X0 para Barcelona, Everton, ou faz um jogo maluco com o Mônaco e vence por 5X3 em um dia que sua defesa estava uma peneira, não se ouve um só piu da imprensa brasileira a respeito do “outro jogo” que estaria fazendo o Guardiola. Quando o PSG goleia o Barça por 4X0, ou pior, quando o PSG leva uma virada antológica por 6X1, nenhuma linha escrita sobre o “outro jogo”.

O mais engraçado é que o Barcelona fez 3 gols de bola parada e dois gols com bola levantada na área. Foi lindo. No Brasil seria jogo dos “Oompa Loompas “, como foi dito. Você não precisa assistir muitos minutos de um jogo “europeu” para ver chutões, cruzamentos e jogadas laterais. Aqui isso é proibido, porque deixou de ser futebol.

Se seu time tem bons cabeceadores você não pode cruzar na área, sob o risco de inaugurar uma nova categoria de estilo, como o “Cucabol” ou agora o “Zébol”.

Alguém já se perguntou se as críticas (todas elas) feitas ao futebol brasileiro fazem sentido mesmo? Alguém que tem voz na mídia para criticar, realmente assiste aos jogos menos interessantes do Italiano, do Espanhol, do Frances, ou só assiste aos jogos dos Melhores times do mundo? será que lá foram também existe o outro jogo?

Tudo isso, visto individualmente, arrasta súditos do discurso do “outro jogo”. Quando analisados em conjunto, cabe a pergunta:

Tem alguém “vendendo lenço no velório”?

Sempre tem.

Acho que nenhum discurso é inocente e despretensioso. O Discurso da depreciação do futebol brasileiro e a falácia do “outro jogo” certamente não são.

Quando se olha o Fla X Flu de domingo ou o Barcelona X PSG desta quarta, percebe-se que não há outro jogo. O que há é futebol. As equipes erram em determinados jogos, acertam em outros, por que futebol ainda é jogado por pessoas, que nunca são as mesmas. Times consistentes podem apresentar problemas algum jogo e levar muitos gols. Times fracos podem ganhar de times fortes. Times que precisam golear para se classificar tem o direito, e certamente irão, fazer de tudo para ganhar, inclusive jogar “feio”.

A critica que durante todo imbróglio do Fla X Flu defendeu que torcida única é o túmulo do futebol, e que a razão de ser do esporte é a torcida, agora quer que os times joguem para agradar a crítica.

Mas só no Brasil. Barcelona pode ganhar de 6X1 alçando bola e tá ótimo. Guardiola pode ganhar levando 3 gols que também está ótimo. O Fluminense não. O São Paulo não. O Flamengo não.

O 7X1 não acabou.

O vira-latismo está longe de acabar…