PAPO TÁTICO ESPECIAL: O dia em que o Flamengo de Zico e Júnior conquistou o mundo inteiro

Crédito da foto: Reprodução / Facebook

Imaginem um time que conquistou um Campeonato Carioca, uma Copa Libertadores da América, goleou impiedosamente um dos seus maiores rivais e ainda venceu o então vencedor da Liga dos Campeões da Europa com autoridade em pouco APENAS UM MÊS. Esse time, caros amigos, não é fruto da imaginação de algum cronista saído de algum boteco na Lapa. Essa equipe existiu mesmo. E neste dia 13 de dezembro de 2016, uma das maiores conquistas desse esquadrão completa 35 anos. Foi nessa data (em 1981) que o Flamengo de Zico, Leandro, Júnior, Nunes e companhia, atropelou o histórico Liverpool de Bob Paisley (vencedor de seis campeonatos nacionais e três Ligas dos Campeões) na final do Mundial Interclubes (ou Copa Intercontinental) com uma atuação magistral de toda a equipe, em Tóquio, no Japão. Não há um só torcedor que não conheça esse time de cor e salteado. E não existe quase ninguém que não tenha ficado maravilhado com a maneira com a qual esse histórico Flamengo jogava. Não é à toa que essa equipe seja considerada uma das melhores de todos os tempos.

Leia mais ~> Flamengo conta com a saída de alguns jogadores para fechar com reforços; entenda

Aquele Flamengo inesquecível começou a ser montado em 1978, a partir da conquista do Campeonato Carioca daquele ano. Comandado por Zico (dentro de campo) e por Cláudio Coutinho (no banco de reservas), o time já contava com nomes como Júnior, Raul Plassman, Tita e Adílio. O grande Paulo César Carpegiani só assumiria o comando técnico três anos depois, quando o Fla já tinha conquistado o seu primeiro título brasileiro (em 1980 sobre o Atlético-MG). Dentre algumas idas e vindas, a formação ideal só foi encontrada no dia oito de novembro de 1981, quando o Mais Querido do Brasil goleou o Botafogo por seis a zero, devolvendo o placar de 1972 e acabando com as gozações dos rivais. A entrada de Lico no lado esquerdo (ou direito, dependendo da movimentação dos jogadores) deu o equilíbrio que faltava a uma equipe que contava com dois laterais extremamente ofensivos e um meia atuando como volante, um atacante raçudo no comando do ataque e um camisa dez fora de série distribuindo as jogadas e fazendo gols. MUITOS GOLS.

Paulo César Carpegiani encontrou a formação ideal para o Flamengo na goleada de seis a zero sobre o Botafogo, pelo Campeonato Carioca. Os avanços de Adílio, o posicionamento mais contido de Tita e a entrada de Lico no time deram o equilíbrio que faltava ao time. No papel, um 4-1-4-1. Na prática, um verdadeiro carrossel.
O técnico Paulo César Carpegiani encontrou a formação ideal para o Flamengo na goleada de seis a zero sobre o Botafogo, pelo Campeonato Carioca, em novembro de 1981. Os avanços de Adílio, o posicionamento mais contido de Tita e a entrada de Lico no time deram o equilíbrio que faltava ao time. No papel, um 4-1-4-1. Na prática, um verdadeiro carrossel rubro-negro.

Leia mais ~> Flamengo divulga nota sobre participação na Florida Cup

Em pouco mais de trinta dias, o Flamengo goleou o Botafogo por seis a zero, venceu a Copa Libertadores da América (em três partidas nervosas contra o Cobreloa do Chile) e conquistou o Campeonato Carioca sobre o bom time do Vasco da Gama. Era a hora de disputar o Mundial contra o não menos histórico time do Liverpool. Os comandados do lendário Bob Paisley vinham da conquista da Liga dos Campeões da Europa em maio de 1981 (a terceira em menos de cinco anos) com uma vitória por um a zero sobre o Real Madrid. O esquema tático básico era o 4-4-2 bem conhecido da escola britânica. Mas para travar o Flamengo (time que já era conhecido pelo estilo ofensivo), a ideia de Bob Paisley era fazer a variação para o 4-3-3 quando os Reds estivessem com a bola. Terry McDermott abriria à direita, Sammy Lee jogaria pelo outro lado, o escocês Greame Souness chegaria como o conhecido “box-to-box” do futebol inglês e a lenda Kenny Dalglish e o atacante Craig Johnston abrindo as defesas adversárias. Sem a bola, Lee e McDermott fechariam pelos lados. Não era raro, no entanto, ver o quarteto ofensivo mudando de posição durante as partidas.

Com o esquema tático esmiuçado acima, o objetivo de Bob Paisley era explorar as descidas dos laterais rubro-negros (sobretudo Júnior) e explorar os contra-ataques, uma das grandes armas daquele Liverpool. Já o Flamengo de Carpegiani manteria o time que vinha jogando nas últimas partidas (e conquistando títulos). Lico e Tita jogariam como pontas, mas voltariam com os laterais adversários. Andrade faria a proteção à dupla de zaga e daria um pé na marcação pela esquerda junto com o jovem Mozer, onde Júnior sofria com as descidas pelo seu lado. Adílio ficaria mais contido no meio-campo, muito mais como um segundo volante do que como um “quarto meia de criação”. Mais na frente, Zico teria liberdade para encostar em Nunes como um segundo atacante, mas sem esquecer da marcação aos volantes adversários. O estilo de jogo da equipe era considerado extremamente ofensivo por alguns torcedores, mas o próprio técnico Paulo César Carpegiani reconheceu que sua equipe rendia muito mais fazendo aquilo que mais gostava: atacar e fazer gols.

Na decisão do Mundial, Zico fez a diferença atuando entre as duas linhas do 4-4-2 do Liverpool e acionando Nunes. Com Adílio um pouco mais contido, o desenho tático utilizado Por Carpegiani em Tóquio se assemelha a um 4-2-3-1.
Na decisão do Mundial Interclubes, Zico fez a diferença atuando entre as duas linhas do 4-4-2 do Liverpool e acionando Nunes. Com Adílio um pouco mais contido, o desenho tático utilizado por Carpegiani em Tóquio se assemelha a um 4-2-3-1. Com dois gols de Nunes e um de Adílio (e explorando bem o lado direto de ataque), o Fla construiu uma bela vantagem diante da atônita e atordoada equipe britânica.

Leia mais ~> Zé Ricardo promete fazer da base protagonista no Flamengo em 2017

Quando o mexicano Rubio Vásquez iniciou a partida naquele 13 de dezembro de 1981, o que se viu nos primeiros minutos foi um Flamengo mais contido, talvez pelo frio de dez graus que fazia em Tóquio, e pelo próprio nervosismo da partida. Aos poucos, o time rubro-negro foi se arrumando e percebendo as deficiências da equipe britânica. Tita passou a jogar nas costas do lateral irlandês Mark Lawreson e Zico encontrou espaço de sobra para criar as jogadas de ataque entre as linhas do 4-4-2 de Paisley. Vale lembrar também que o técnico Paulo César Carpegiani havia orientado sua equipe a marcar a saída de bola do adversário com Nunes encostando nos zagueiros e Tita e Lico chegando pelos lados. Não demorou muito para a estratégia dar resultado Logo aos 12 minutos da primeira etapa, Nunes passou para Mozer e este para Zico. O camisa dez lançou o “João Danado” que tocou na saída do bom goleiro Bruce Groebbelaar depois que o zagueiro Phil Thompson falhou no lance. Era o primeiro do Fla e o início do show em Tóquio.

Bob Paisley resolveu mandar sua equipe ao ataque. Dalglish passou a cair mais pela direita junto a McDermott para explorar as descidas de Júnior. No entanto, as grandes atuações de Andrade e Mozer acabariam com a festa inglesa. Depois de uma melhora do Liverpool na partida (e de um recuo até certo ponto excessivo do Flamengo), o time voltou a fazer aquilo que sabe: atacar. Aos 31 minutos, Zico lançou Tita pela direita e este foi derrubado com falta por McDermott (que veio ajudar Lawrenson na marcação). Dois minutos depois, Zico ajeitou a bola e, mesmo de muito longe, mandou uma bomba. A bola explodiu no peito de Grobbelaar. Os zagueiros Hansem e Thompson não conseguiram afastar, o goleirão fez boa defesa em chute de Lico, mas Adílio esticou a perna e fez o segundo do Flamengo. O Liverpool sentiu o golpe e, aos quarenta minutos da primeira etapa, Zico se livrou da marcação e lançou Nunes. Este se livrou de Lawrenson e Hansen antes de chutar cruzado e marcar o terceiro gol do Flamengo na partida. Em cinco chances de gol na primeira etapa, o Flamengo balançou as redes do seu adversário em três oportunidades.

Bob Paisley tentou mudar o panorama da partida com a entrada de David Johnson no lugar de McDermott no início da segunda etapa. O Flamengo manteve a postura ofensiva e só não aumentou o placar por causa do relaxamento natural com a vantagem de três gols construída nos primeiros 45 minutos. O mundo se pintava de rubro-negro.
O técnico Bob Paisley tentou mudar o panorama da partida com a entrada de David Johnson no lugar de McDermott no início da segunda etapa. O Flamengo manteve a postura ofensiva e só não aumentou o placar por causa do relaxamento natural dos jogadores com a vantagem de três gols construída nos primeiros 45 minutos. O mundo se pintava de rubro-negro.

Leia mais ~> Mercado da bola: veja as NOVIDADES nas negociações do Flamengo para 2017

Como bem descreveu o jornalista André Rocha no livro “1981”, não era só um chocolate brasileiro: era um show. Nem mesmo a entrada de David Jonson no lugar de McDermott e a melhora da produção ofensiva da equipe inglesa mudaram o panorama da partida em Tóquio. Aos nove minutos do do segundo tempo, Júnior escapou pela esquerda como se fosse um ponta e passou a bola para Andrade mandar para o gol com a parte externa do pé direito. Grobbelaar teve que se esticar todo para evitar o quarto gol do Flamengo. Aos quinze, no entanto, o Liverpool quase diminuiu com Johnston, mas Raul Plassman evitou o pior em boa defesa. Logo na sequência, aconteceria um daqueles lances que fariam os amantes do “futebol-arte” sorrirem de orelha à orelha. o veterano goleiro bateu tiro de meta e encontrou Tita na intermediária. Este tocou para Zico que viu Lico partindo em direção ao gol e deu-lhe a bola. Do camisa onze para Adílio (de calcanhar) e de Adílio para Júnior. O lateral se livrou de um adversário e devolveu a bola para o camisa oito bater cruzado de perna esquerda. Bruce Grobbellar teve que se virar para defender.

O único senão da partida aconteceu aos dezessete minutos do segundo tempo. Mozer entrou num carrinho violento nos pés de Souness na intermediária do Flamengo, num lance em que até mesmo o cartão vermelho sairia barato para o zagueirão. Era caso de boletim de ocorrência. Mas o árbitro mexicano (como de praxe na época), relevou e não tirou o cartão do bolso. A superioridade rubro-negra era tão grande que Paulo César Carpegiani manteve o time até o apito final, mesmo com os jogadores sentindo o cansaço da partida e da maratona de decisões em pouco mais de um mês. A arbitragem ainda enxergaria impedimento (duvidoso) de Zico em belo lançamento de Tita. Mas o camisa dez da Gávea não precisou balançar as redes. Só os passes, os dribles, a visão de jogo e os lances de efeito já davam a ele o título de melhor atuação de um jogador numa final de Mundial Interclubes. O apito final de Rubio Vásquez fez com que o mundo inteiro se pintasse de rubro-negro. Se você ainda não acredita no que acabei de descrever, acesse o link abaixo e confira a transmissão da TV Globo do JOGO COMPLETO direto do canal NivinhaFla no YouTube.

Leia mais ~> Flamengo tem premiados em noite de Seleção do Campeonato Brasileiro; confira

Aquele timaço do Flamengo (subestimado por muitos e inclusive pelo próprio Liverpool na final do Mundial Interclubes) ainda conquistaria muitos títulos, mas duraria apenas mais dois anos. Com a saída de Zico e Júnior para o futebol italiano e o crescimento de outras equipes no cenário nacional (como o Grêmio de Renato Gaúcho e o Fluminense de Romerito), o Fla ainda venceria o Campeonato Brasileiro em 1982 e 1983 e a famigerada Copa União em 1987, com a volta do Galinho de Quintino e mais Andrade e Leandro no time. O retorno de Júnior em 1990 com a conquista da Copa do Brasil daquele ano e o Campeonato Brasileiro de 1992 marcaria o fim daquela geração única de craques. O “Tromba” ainda traria um pouco do Flamengo de 1981 no time de Adriano e Petkovic campeão brasileiro em 2009, no último suspiro do timaço que encantou o mundo nas décadas de 1970 e 1980. Uma equipe que encontrou a química e o equilíbrio perfeito entre “futebol-arte” e disciplina tática. Talvez um dos últimos grandes times a unir esses dois elementos até o histórico Barcelona de Pep Guardiola, já nos anos 2010.

Nunca mais o Clube de Regatas do Flamengo conseguiria reunir uma geração de jogadores com tanto talento como aquela que brilhou nos gramados de Tóquio. Dizem que times assim surgem apenas de tempos em tempos, até mesmo para que os deuses do futebol tenham um “descanso” depois trabalharem tanto. O legado do Fla de 1981 permanece até hoje. E a atuação na final do Mundial Interclubes diante do Liverpool em Tóquio será relembrada por muito e muito tempo como uma das maiores exibições coletivas de uma equipe na história da competição. O fato, amigos, é que Raul, Leandro, Marinho, Mozer, Júnior, Andrade, Adílio, Zico, Tita, Nunes e Lico jamais sairão da mente do torcedor rubro-negro.



Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.