“A minha inspiração para escrever é o fato de não me inspirar em ninguém”, conta Rica Perrone

Créditos da Foto: Divulgação/ Facebook oficial de Rica Perrone

Polêmico, irreverente e autor de textos notáveis. Este é Ricardo Perrone, ou simplesmente Rica Perrone, um dos jornalistas esportivos mais populares da atualidade, que atualmente escreve para seu site independente, faz entrevistas para o ‘Cara a Tapa’, do Youtube, e que vem ficando marcado pelo seu jeito característico de escrever sobre futebol.

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Mas a relação de Rica com a profissão não é das melhores. Aliás, o são paulino não se considera um jornalista, e sim uma pessoa que vende entretenimento. Em seu próprio site, que tem vergonha de se dizer jornalista. Talvez por isso não leia a notícias, livros e muito menos aos blogs de colegas de profissão. Sua principal inspiração é si mesmo.

Rica gosta mesmo é de criar. Desde o inicio, decidiu que não seria um jornalista convencional. Por isso, dos seus sentimentos e do que se passa na sua cabeça, cria textos. Inova, ousa e sempre surpreende pela qualidade. Mas, acima de tudo, sempre diz o que pensa e tenta promover este produto chamado futebol, que é uma das paixões dos brasileiros.

Com mais 90 milhões de visualizações em seu site, Rica já escreve para os leitores da internet há mais de nove anos. No Facebook, mais de 250 mil curtidas. No Twitter, mais de 177 mil seguidores. No currículo, textos que fizeram muito sucesso, como O grande, o rico; Um domingo qualquer; O dia do flamenguista; e, atualmente, Caro capita.

Em entrevista concedida ao Torcedores.com através de uma rede social, o paulista falou sobre sua personalidade, jornalismo esportivo na internet, o jeito incomum de escrever seus textos, São Paulo Futebol Clube, o rotulo de ser um jornalista polemico, a preferencia pelo sistema de ‘mata-mata’ e muito mais.

Confira, a seguir, a entrevista com o jornalista:

Torcedores.com: Para os que ainda não o conhecem, quem é Rica Perrone?
Rica Perrone: Rica Perrone é um jornalista esportivo que não faz jornalismo, e sim entretenimento. É um cara que não acredita do jornalismo esportivo da maneira que é feito. Não tem paciência, não quis seguir os métodos convencionais, e fez tudo do jeito dele. E dá pra dizer que deu certo, de alguma maneira. De outras, deve ter dado errado. Por isso que nunca recebi um 13° (risos). Mas, no final das contas, estou satisfeito com o resultado. É um cara brincalhão, que acha que o futebol deve ser tratado como brincadeira o tempo todo e que acha que o futebol deve ser puro entretenimento. Nada além disso.

Torcedores: Você entrou no jornalismo por não saber jogar, e tinha o desejo de conhecer ícones como Zico, Senna e Rai. Você conseguiu conhecer algum deles?
Rica Perrone: Eu consegui conhecer o Zico e o Rai. O Rai eu conheci antes mesmo de ser jornalista. O Senna, infelizmente, não deu tempo. Eu ainda tenho esperança de um dia conhecer o Schumacher, que é um ídolo, também o Mike Taison, que é outro ídolo. Eu conheci muitas pessoas que gostaria durante este tempo todo. Eu conheci o Ronaldo, conheci o Romário, o Zico, enfim, também atletas que não são do futebol. O Senna, infelizmente, é um sonho impossível. Terei de morrer com esta vontade guardada.

Torcedores: Hoje tem site que é muito acessado, com milhões de views, e muitos dizem que sua escrita é diferente. Qual a sua inspiração para escrever?
Rica Perrone: A minha inspiração para escrever é o fato de não me inspirar em ninguém, de não ler nada. Eu não leio nada e assisto pouca coisa. A minha inspiração sou eu: o que eu estou pensando, o que estou sentindo, o que estou vendo dos torcedores. Realmente eu não leio nada, nem livro, nem blog. De ninguém. Só leio quando um amigo me manda, pois sei que é indicado. O meu texto é diferente, porque ele é falado. Você lê o texto como se ele estivesse falado para você, não tem os vícios da escrita. Mas, uma linguagem que eu gostava, era a de Nelson Rodrigues. Eu adorava. Mais pela maneira que ele olhava o futebol. Tenho o conceito de que futebol se sente mais do que se assiste.

Torcedores: Você tem algum amor pela escrita? Se tem, quando essa amor surgiu?
Rica Perrone: Eu não tenho nenhum amor pela escrita. Não leio, não tenho livros. Nem o meu livro eu li. Faço os textos mas nunca parei, sentei e li ele inteiro. Não tenho paciência de ler, é um defeito meu. Não tenho nenhuma paixão pela escrita e não sou um desses caras que tem esse orgulho: “ah, eu amo escrever!”. Escrevo porque escrevo, porque é a forma que tenho para me comunicar pela internet. Eu vejo uma coisa legal, diferente, pelo de fato da pessoa, com o tempo, ir te conhecendo e interpretar o texto no tom que você quis. Isso é legal. Mas, tirando isso, não tenho nenhum delírio pela escrita.

Torcedores: Você não vive do jornalismo, certo? Então acha que esse foi o principal motivo do crescimento e disseminação do seu conteúdo, o fazer por prazer e não por dinheiro?
Rica Perrone: Não é que eu não viva de jornalismo, é que eu não considero o que eu faço jornalismo. Por exemplo, tenho informações de diversos clubes, de diversas formas, que eu poderia simplesmente noticiar. Mas isso é trabalho do jornalista, e eu não me enxergo assim. Sou do entretenimento, sou um cara que faz o futebol estar na vida das pessoas. Posso também informar, mas optei por essa não ser minha escolha. A escolha foi feita a partir do momento que eu enxergaria isso como entretimento, e não como ideal. Para muitas pessoas o jornalismo é ideal. Aliás, eu acho que o jornalismo é superestimado. O jornalista tem uma série de coisas, mas ele tem mesmo é que falar a verdade. A primeira coisa é essa. Quanto ao futebol, ele vai falar? Não, porque ele tem um paixão no meio. A verdade dele é mentira. Melhor tratar como entretenimento que tratar como uma falsa verdade.

Torcedores: Apesar de já ter feito rádio, o online é o seu meio favorito. Por que? Você também chegou? E você tem vontade de trabalhar no impresso, na TV ou tipo de mídia?
Rica Perrone: Eu já fiz rádio e gosto muito de rádio. Mas o rádio, infelizmente, é um meio que respira por aparelhos. O meu meio favorito é o online porque ele é online, ele é rádio, ele é a televisão, ele é texto, ele é tudo. O online é a união de todas elas, é a possibilidade de fazer qualquer uma delas. A internet é, disparada, a união de todas as mídias que tem pra fazer. Em relação ao impresso, não. A televisão, muito dificilmente eu faria. De futebol, não vejo nada para fazer. Fora de futebol, tem. Mas futebol, não. Tudo o que tem hoje no ar para mim é muito antigo, muito ruim, muito comum e cada dia satisfaz menos quem assiste. Eu criaria alguma coisa, mas não faria parte do que tem hoje. Evidentemente, só se dinheiro for muito bom, afinal, eu tenho um preço.

Torcedores: Rica é são paulino. Já foi fanático, mas hoje não tem o mesmo fanatismo de antes. O que levou a esse estreitamento de relação entre você e o clube?
Rica Perrone: Qualquer pessoa que for trabalhar com o futebol, seja na área em que for, ele vai ter uma diminuição da paixão natural dele. É exatamente como a paixão por uma mulher. Quando você olha a distancia, ela é linda, ela é isso e aquilo. Você fica com ela e ela se torna um pouco melhor. Vocês vão namorando e vai diminuindo o mito na sua cabeça, ai você vai vendo os defeitos. Depois de um ano, você está de saco cheio. É a convivência, a rotina, a desmitificação. Quando você trabalha com o futebol, não como um todo, mas uma dose do encanto, você começa a ver pessoas no seu clube. Quando seu time ganha, você vê pessoas que não gosta e coisas erradas vencendo. Quando você é torcedor, você está longe para caralho e não tem contato com isso. A diminuição pela paixão é natural. Sou são paulino pra caralho! Mesmo diminuindo pela metade, eu ainda sou doente.

Torcedores: Você também é fã do futebol internacional? O futebol gringo lhe agrada? E qual o clube ou time que mais lhe agradou em toda sua vida e qual o que mais lhe agrada atualmente?
Rica Perrone: Não, não sou fã do futebol internacional. Eu me resumo muito ao futebol brasileiro. O futebol internacional é uma coisa que eu olho, dou uma olhada em um jogo ou outro, em um clássico, mata-mata de Champions League, Real Madrid e Barcelona uma vez por ano, e mais nada. Não me interessa o Campeonato Francês, Português. Eu assisto por profissão, para ter noção. Acho uma bobagem do caralho a imprensa brasileira ficar vendendo essa merda para os torcedores daqui e perderem mercado com o que interessa, que é o nosso futebol! Eu não assisto muito não. E o clube que mais me agradou na vida foi o São Paulo, que é o meu clube. Já o time foi o Palmeiras de 96. Hoje, o que mais me agrada ver jogar é o Barcelona. Mas, como não me importa muito, me agrada ver o Atlético Mineiro. Pelos jogadores que tem. Pelo futebol apresentado, não.

Torcedores: Dando continuidade ao assunto ‘futebol’, Rica é um critico ferrenho do sistema de pontos corridos. Por que você prefere o mata-mata? E o que tem nos pontos corridos que te incomoda tanto?
Rica Perrone: Os pontos corridos e o mata-mata, eles resultam uma questão muito, muito simples, cara: Se eu parte do principio de que o futebol é show e de que é um evento de entretenimento, nenhum evento no planeta pode ter um final melancólico. Todo evento no mundo, o final é o grande momento. Nos pontos corridos, você corre riscos e no final, normalmente ele é bobo, ele é entregue, feito na má vontade alheia. Você tem justiça? Não, não tem. Desculpa, você não tem. O Inter e o Vitória vão decidir um rebaixamento, agora, nas últimas três rodadas. Um deles vão jogar com dois times de férias, e o outro vai jogar contra nenhum. Qual é a justiça disso? Não eram 38 rodadas para todo mundo e igualdade de condições? Pera ai. Não é justo. No mata-mata, como tem ‘N’ circunstancias durante o campeonato, quando você chega no final, não custa você colocar um de frente para o outro e dizer: “É você contra você, não tem caô e poréns”. Ai tem o jogo marcante, tem o herói marcante. Isso que marca o futebol. Nos pontos corridos não marca em nada, e meu time é tricampeão. Você não tem herói, não tem jogo, não tem nada. É uma coisa com o final anunciado. Acho absolutamente ante-futebol. É uma coisa que não é latina, que é europeia, fria e sem graça. Odeio!

Torcedores: Em muitas oportunidades você foi taxado de polêmico, por dizer o que pensa e expor suas opiniões. Esse rótulo te incomoda ou você nunca se preocupou com a opinião das pessoas? Já teve algum problema em função disso?
Rica Perrone: Polêmico? Já me chamaram de polêmico e de puxa saco. Quando me chamam das duas coisas, eu vejo que estou em um meio termo legal. Quando eu elogio um time, sou puxa saco. Quando eu falo, por exemplo, que o Fluminense não tem nada haver com o ‘tapetão’, sou polêmico. O polêmico ou puxa saco, depende do que eu escrevi. É assim que funciona. Eu já fui torcedor e sei como funciona. Não me incomoda em nada. Hoje é em dia tudo é polêmico, hoje em dia tudo incomoda e ninguém pode falar porra nenhuma. É uma geração de retardados que não aceita nada que esteja fora do padrãozinho da sociedade. Não tenho a menor, a mínima vontade, de agradar a esta geração e a esta parte que tudo gera um chilique.

Torcedores: O que mais te irrita no universo do jornalismo esportivo? Os próprios torcedores, outros jornalistas, dirigentes de clubes, o que?
Rica Perrone: O que mais me irrita é a falta de noção comercial do jornalismo. É um momento em que o jornalismo esportivo não entende, porque ele é formado por professores antigos, que ainda se preocupam com os furos de reportagens. É uma coisa que não existe mais hoje. E você é formado por professores que acham que o jornalismo é o ideal. Você vê uma palestra do Juca Kfouri e ele fala que jornalista é uma profissão solitária, ele não tem amigos, ele tem fontes. Po, desculpa, mas o Juca não tem amigos porque ele é chato, não porque é jornalista. O jornalista tem tudo que os outros tem, inclusive ele faz aquilo por dinheiro, nem por amor, nem por ideal. Ninguém pode ganhar dinheiro com seu ideal. Se é pra ganhar dinheiro, você tem que perceber que, quando você tá fazendo futebol, você tá vendendo um entretenimento que dá prazer as pessoas. Se você transformar aquilo em uma coisa que você só bate, critica, reclama e vê o lado ruim, você estimula a consumirem menos aquele produto, e vai vender menos. E eu não sou burro. Eu gosto de ganhar dinheiro, das coisas boas da vida. Portanto, falta ao jornalismo esportivo noção comercial. Ele tem um produto a venda. Pode criticar? Claro que pode. A critica tem um espaço, mas o evento tem um espaço muito maior do que a critica. E no Brasil a gente inverte isso.

Torcedores: Para finalizar, o que pretende fazer daqui pra frente? Quais seus planos?
Rica Perrone: Eu não sei o que vou fazer daqui para frente. A minha grande vontade é largar o jornalismo esportivo. Eu não tenho mais paciência para fazer isso. Eu já fiz diversos cursos de técnico, estou fazendo marketing, e tudo o que imaginar de gestão esportiva, para passar para o lado de lá, eu vou fazer isso. Só não sei quando e em que função. Mas eu vou trocar de lado. O meu grande plano para não parar o jornalismo é o programa ‘Cara a Tapa’, que eu adoro fazer e queria mantê-lo. Agora, em relação ao que fazer quando ao trabalho, pode ser que eu siga sendo um comunicador. No momento não é o que eu gostaria de fazer. No momento, gostaria de estar dentro do futebol ou fazer entretenimento com outras coisas. Ser jornalismo esportivo e viver nesse mundinho medíocre, de gente que não enxerga um palmo na frente do nariz e que destrói tudo, eu não consigo mais. Se vai dar certo ou não, são outros 500.

Torcedores: Obrigado pela entrevista, Rica. O Torcedores.com lhe agradece e deseja sucesso em sua caminhada. Valeu!
Rica Perrone: Obrigado você. Sempre que precisar, tamo junto! E vamo que vamo!



Apaixonado por esportes, Gabriel Lanza cursa Jornalismo na Unoeste (Universidade do Oeste Paulista). Aos 21 anos, soma passagens por veículos como 98 FM, Web Rádio Facopp, Portal Facopp, Coordenadoria Municipal da Juventude e PCI Concursos. Após o termino de sua Graduação, no fim de 2017, o prudentino dará início a sua Pós-Graduação.