PAPO TÁTICO: Apatia do Flamengo e organização do Coritiba marcam o fim do “cheirinho do hepta”

Crédito da foto: Gilvan de Souza / Flamengo

O sonho acabou. Pelo menos em 2016. A mesma frase proferida por Paul McCartney em 1970 para anunciar o fim dos Beatles pode ser utilizada para falar do fim do “cheirinho de hepta” no Flamengo. Novamente com muitas falhas dentro e fora de campo, o Mais Querido do Brasil ficou no empate em dois a dois com o Coritiba (depois de estar vencendo por dois a zero) e viu o sonho do título brasileiro cair por terra. A tarefa já era bem complicada antes da bola rolar: o Fla vencer seus três jogos seguintes e torcer por tropeços de Santos e Palmeiras nas últimas rodadas. Some-se a isso a pressão pelo resultado positivo no Maracanã e as decisões equivocadas de Zé Ricardo durante a partida e você terá alguns dos motivos do fim do sonho rubro-negro. Resta ao Flamengo confirmar a vaga direta na Libertadores da América de 2017 contra o Santos, no próximo domingo.

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Assim que a bola rolou no Maracanã, eu e você vimos um Flamengo decidido a conquistar os três pontos e se manter na briga pelo título brasileiro. Explorando bem os lados do campo com Gabriel e Everton, os dois “ponteiros” do 4-2-3-1 de Zé Ricardo, o rubro-negro da Gávea chegou aos dois gols utilizando bastante o lado esquerdo de ataque, onde o Wallison Maia e Raphael Veiga sofriam na marcação naquele setor e para manter as linhas do 4-4-2 de Paulo César Carpegiani. O Coritiba só entrou no jogo quando o volante Amaral foi marcar Diego de perto e quando o time avançou a marcação e começou a pressionar a saída de bola do Flamengo. O gol marcado no final do primeiro tempo era a prova de que o Coxa já havia entendido quais eram os pontos fracos do seu adversário (apesar das chances perdidas pelo Fla ainda nos primeiros quarenta e cinco minutos). Faltava apenas encaixar a marcação e acertar o último passe.

O Flamengo conseguiu impor seu estilo de jogo explorando os lados do campo no 4-2-3-1 de Zé Ricardo. O Coritiba de Carpegiani só conseguiu equilibrar o jogo quando o adversário cansou e as falhas defensivas apareceram. Destaque para Raphael Veiga, o “ponta-armador” do 4-4-2 da equipe paranaense.

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O “cheirinho de hepta” começou a se dissipar quando Zé Ricardo teve que substituir Gabriel, lesionado. Ao invés de mandar um outro jogador de velocidade para o jogo, o treinador rubro-negro optou pela entrada de Mancuello e na mudança de esquema para o 4-3-1-2, numa tentativa de se povoar o meio-campo e diminuir os espaços no setor. Só que o tiro acabou saindo pela culatra. Carpegiani sacou de cara a estratégia e orientou o time do Coxa a explorar ainda mais os lados do campo, de modo a abrir o time rubro-negro. Zé Ricardo poderia ter corrigido o problema com a entrada de Fernandinho no lugar de um dos volantes, mas preferiu sacar Everton, mantendo o losango no meio. O Fla criava jogadas de ataque, mas não aproveitava as chances e cedia espaços generosos na defesa. A pá de cal veio com Kleber Gladiador aproveitando vacilo de Rafael Vaz. Os gritos de incentivos deram lugar às vaias no fim da partida. E o tal “cheirinho de hepta” se dissipou no ar pesado do Maracanã e no semblante pesado dos jogadores ao final do jogo…

O losango de Zé Ricardo acabou se tornando uma péssima escolha para se administrar o resultado no Maracanã. Carpegiani manteve o desenho tático e fez alterações pontuais na equipe e explorou o lado esquerdo de ataque para chegar ao segundo gol.

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Difícil não colocar boa parte da culpa pelo resultado na conta de Zé Ricardo. Apesar de todo o excelente trabalho feito em 2016, o treinador acabou errando a mão em jogos de extrema importância para o Flamengo, como os empates contra o Atlético-MG e o Corinthians. Mas vale destacar também os méritos de Paulo César Carpegiani na mudança de postura do Coritiba. O treinador do Coxa (e do histórico Flamengo de 1981) armou bem o time e foi o grande responsável pela recuperação da equipe no Campeonato Brasileiro. As entradas de Carlinhos e Yago deram outra cara ao Coxa, que passou a jogar no erro e no nervosismo do seu adversário. Não será exagero nenhum dizer que Carpegiani pode levar a equipe muito mais longe em 2017 se tiver jogadores com mais qualidade à sua disposição. O criativo Raphael Veiga já foi embora. Mas Kleber, Kazim, César Benítez e Leandro ainda podem ser úteis na próxima temporada.

A frustração do torcedor rubro-negro depois da partida é bem compreensível. Com mais uma atuação abaixo da média (e evidenciando a queda de rendimento de todo o time na reta final do Brasileirão), o sonho do hepta foi adiado mais uma vez. Sim, o Fla teve chances reais de superar o Palmeiras nessa briga, mas acabou tropeçando nas próprias pernas e sucumbindo aos próprios erros. Embora Zé Ricardo seja apontado como o principal culpado pelo resultado deste domingo, o treinador ainda merece o crédito por ter recuperado uma equipe desacreditada e sem confiança depois da saída de Muricy Ramalho da equipe. Fazer um time que tem Rafael Vaz, Pará, Márcio Araújo e outras peças jogar o fino não é mole. E fazer a torcida do Flamengo sonhar com mais um título é pra poucos. Zé Ricardo ainda tem crédito.

E o “cheirinho de hepta” vai ficar para 2017. Que os deuses do futebol sorriam para o Flamengo.



Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.