Novato, líder e odiado: Conheça o RB Leipzig, sensação da Bundesliga

Foto: Divulgação/RB Leipzig/motivio/Florian Eisele

Após vencer o Bayer Leverkusen na última sexta-feira (18) e com a derrota do Bayern para o Borussia Dortmund no dia seguinte, o RB Leipzig garantiu a liderança isolada da Bundesliga. Em sua primeira temporada na elite do futebol alemão, o clube vem concentrando as atenções, não apenas pelo seu desempenho dentro de campo, mas pelo ódio que vem conquistando da galera do “ódio eterno ao futebol moderno”.

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HISTÓRIA

O RB Leipzig tem apenas sete anos de existência. O clube nasceu em 2009, após a Red Bull comprar o SSV Markranstädt, que disputava o equivalente à quinta divisão do futebol alemão. Porém sua importância vem de antes desta data.

Zentralstadion, estádio da cidade de Leipzig, foi reformado para a Copa do Mundo de 2006 e foi o único representante da antiga Alemanha Oriental no Mundial. Os dois clubes tradicionais da cidade, o Chemie Leipzig e o Lokomotiv Leipzig, se encontravam em uma crise sem fim. Para completar, o ano de 2009 marcou, além da fundação do RB Leipzig, a despedida da Alemanha Oriental da Bundesliga. Com o rebaixamento do Energie Cottbus naquele ano, a região oriental do país só voltaria a ter um representante justamente nesta temporada, com o RB Leipzig.

A escolha da cidade de Leipzig, então, foi feita a dedo pela Red Bull. Unia a infra-estrutura necessária, com o Zentralstadion já construído e transformado em uma arena padrão FIFA, à carência da população de um time que pudesse fazer parte da elite do futebol alemão. Assim, o novo time da fabricante de energéticos nasceria carregando o título de representante da Alemanha Oriental. Primeiro, a empresa austríaca tentou comprar o Chemie Leipzig, porém a reação dos torcedores da tradicional equipe fez com que a Red Bull acabasse comprando o SSV Markranstädt, equipe de um distrito de Leipzig localizado, a 11 km do centro da cidade.

A trajetória meteórica sofreu alguns percalços em seu começo. Na primeira temporada, ainda mandando seus jogos em Markranstädt, o clube conquistou o título da Oberliga (equivalente à quinta divisão nacional). No ano seguinte, o RB Leipzig fez sua mudança oficial para o Zentralstadion e terminou o ano em 4° na Regionalliga (quarta divisão), sem conseguir o acesso. Após amargar mais um ano na quarta divisão, o clube finalmente conseguiu o acesso à 3. Liga na temporada 12/13, após conquistar a Regionalliga. Na temporada seguinte, o segundo lugar da 3. Liga garantiu ao clube o acesso à 2. Bundesliga. Em sua primeira temporada na Segundona, o RB Leipzig terminou a competição na quinta posição. Na segunda temporada, ao ficar com o vice-campeonato, o clube chegaria à Bundesliga pela primeira vez em sua história, escalando quatro divisões em apenas sete anos.

A escalada do RB Leipzig rumo à Bundesliga
A escalada do RB Leipzig rumo à Bundesliga

 

RELAÇÃO COM A RED BULL E ÓDIO DOS RIVAIS

Os seguidores do “ódio eterno ao futebol moderno” escolheram o clube como seu principal alvo por causa de sua relação com a Red Bull. A empresa de energéticos tem cinco clubes de futebol espalhados pelo mundo: além da franquia alemã, tem o RB Salzburg, na Áustria, o RB New York, nos EUA, o RB Brasil, em São Paulo, e o RB Ghana. A principal crítica é que o clube tem, como principal objetivo, o lucro e não a paixão dos torcedores.

Das cinco franquias da Red Bull, o Leipzig é a única que não leva o nome da empresa. Na verdade o RB singnifica RasenballSport (em tradução do alemão, esporte com bola sobre a grama), já que o regulamento da Bundesliga não permite que os clubes tenham nomes de empresa, a não ser que a empresa seja investidora do clube há no mínimo 50 anos (por isso que o Bayer Leverkusen pode ter o nome da empresa farmacêutica).

Outro ponto discutido também é em relação aos sócios do clube. Assim como o clube não pode levar o nome de uma empresa, ele também não pode pertencer a uma empresa. Ou seja, a dinâmica deve funcionar como aqui no Brasil: o clube deve ter um presidente eleito pelos sócios, diferente do que acontece na Inglaterra, na Espanha e na Itália, que o clube funciona como uma empresa e o detentor da maioria das ações é o comandante do clube.

Para burlar essa regra, a Red Bull fez uma manobra simples: enquanto em clubes como o Bayern de Munique o plano mais barato de sócio que dá direito a voto custa € 80 por ano, o mesmo plano no RB Leipzig custa € 1.000. Assim, enquanto o Bayern, com 258 mil sócios, é o clube com o maior número de associados do mundo, o RB possui apenas 17 sócios com direito a voto, todos eles ligados à Red Bull.

“O clube é um produto artificial criado pela Red Bull em Leipzig e traz uma nova dimensão de abominação. A lógica tradicional de apoio a um clube é subvertida por essa criação, já que o clube foi fundado com o único propósito de fazer publicidade para uma marca”

A frase acima é parte de um manifesto contra o clube. As primeiras rodadas do Campeonato Alemão desta temporada ficaram marcadas pelos protestos de torcedores contra a equipe. A partida contra o Colônia, teve que ser adiada em 15 minutos, pois torcedores do Colônia bloquearam o ônibus da equipe do touro vermelho e impediram sua chegada ao estádio com antecedência. Antes, em todas as rodadas da competição o clube da parte leste alemã já havia sido alvo de outros protestos. O RB recebeu os dois Borussias em casa. Parte de torcedores do Dortmund se recusou a viajar a Leipzig e convidou outros torcedores a ir assistir ao jogo do Dortmund II pela quarta divisão e, depois, ouvir o duelo da equipe principal pelo rádio. Já torcedores do Mönchengladbach viajaram para apoiar seu time, mas só o fizeram a partir do minuto 19. Isso porque ficaram em completo silêncio até o cronômetro marcar 19:00, em alusão ao ano de fundação do clube, 109 anos mais velho que os debutantes na Bundesliga.

Pela primeira fase da Copa da Alemanha, torcedores do Dynamo Dresden levantaram várias faixas em protesto contra o RB Leipzig, com frases como "Álcool e nicotina em vez de açúcar e taurina" (em alusão à composição do enérgetico), "Cerveja em vez de Red Bull" e "Dynamo nosso amor, Dresden nossa cidade" e chegaram até a arremessar uma cabeça de touro na direção do campo
Pela primeira fase da Copa da Alemanha, torcedores do Dynamo Dresden levantaram várias faixas em protesto contra o RB Leipzig, com frases como “Álcool e nicotina em vez de açúcar e taurina” (em alusão à composição do enérgetico), “Cerveja em vez de Red Bull” e “Dynamo nosso amor, Dresden nossa cidade” e chegaram até a arremessar uma cabeça de touro na direção do campo

 

Até a torcida do Hoffenheim, odiada porque o dono da SAP é torcedor do clube e injeta dinheiro nele, fez faixas bem humoradas pedindo ao RB Leipzig: “Devolvam nosso posto de torcida mais odiada da Alemanha”.

O OUTRO LADO

Por outro lado, apesar de uma certa rejeição dos mais antigos torcedores do Chemie e do Lokomotiv Leipzig, a população da cidade tem total conhecimento que, se não fosse a Red Bull, e especialmente seu dinheiro, a cidade de Leipzig não teria futebol profissional hoje e seu estádio se tornaria um grande elefante branco após a Copa do Mundo.

A média de público na Red Bull Arena vem crescendo ano após ano. Em seu primeiro ano na Segundona, o clube colocou aproximadamente 25 mil torcedores por partida no estádio. No ano seguinte, essa média subiu para 29 mil. Hoje, líder da Bundesliga, cerca de 41 mil pessoas vão ao estádio por jogo, o que dá uma média de ocupação de aproximadamente 93% do estádio, já que a Red Bull Arena tem capacidade para 44 mil pessoas.

De acordo com o jornalista alemão John Hennig, que foi editor da revista do clube durante dois anos, o sucesso meteórico fez com que o clube conquistasse ainda mais torcedores.

“O clube tem cerca de 5 mil a 7 mil torcedores que o acompanham desde os tempos de quarta divisão. Minha teoria é que o RB Leipzig tem um grande percentual do que chamamos de torcedores de sucesso. Um grupo de torcedores que quer sempre vencer e escolhem um time que vence muito”, afirmou o jornalista.

Outro ponto a ser destacado é que há muitos torcedores do RB Leipzig que também torcem para o Bayern de Munique. E por ironia do destino, o novato tem de tudo para desbancar a hegemonia do clube bávaro. Uma prova de fogo para a fidelidade dos touros de Leipzig.