Mulheres no comando: implicações para o futebol feminino

Foto: Divulgação/CBF

No início de novembro, a CBF anunciou uma notícia que gerou grandes expectativas em relação ao futebol feminino no Brasil: Emily Lima, ex-treinadora do time vice-campeão brasileiro, assumiria o comando da seleção. Apesar da grande repercussão nas mídias sociais, as implicações dessa novidade para o treinamento e desempenho da nossa seleção foram pouco discutidas. Alguns sites de jornalismo esportivo chegaram até a justificar a escolha baseados na “compreensão das questões hormonais”. Mas, de fato, por que uma mulher na seleção feminina seria importante para o desenvolvimento da modalidade no país?

Primeiramente, precisamos pensar na estrutura de escolha dos técnicos para os times femininos brasileiros. Em geral, os técnicos escolhidos são aqueles que já construíram uma carreira e certa notoriedade no futebol masculino, mas que vieram pouco a pouco perdendo espaço neste cenário. Nesse momento, eles são importados para o futebol feminino, levando consigo toda a forma de jogar do futebol masculino. Mas, será que esta transposição e adequação de jogo são favoráveis para o desempenho das equipes?

Sabemos que a distância total percorrida em partidas femininas é muito próxima às masculinas, em média 10km. Entretanto, a distância percorrida em alta intensidade corresponde a aproximadamente 60% da masculina. Isso significa que, no futebol feminino, o sistema aeróbio desempenha uma função mais importante do que no masculino, sendo mais determinante para o preparo físico.

Outra diferença importante é em relação ao uso do fundamento passe. As mulheres realizam mais passes que os homens e esses acontecem com mais frequência em médias e longas distâncias, ao contrário das partidas masculinas nas quais ocorrem mais passes de curtas e médias distâncias. Outro fator importante é o uso da falta como estratégia de defesa. Em geral, os jogos femininos são menos faltosos e este elemento é menos utilizado como estratégia tática.

Essas características e diferenças deveriam ser levadas em consideração no planejamento do treinamento. A partir desta análise, vemos que adequar o treino masculino ao feminino não é sinônimo de sucesso. Possivelmente, o desempenho das treinadoras campeãs Olímpicas e ex-jogadoras, Silvia Neid (Alemanha, 2016), Pia Sundhage (Estados Unidos, 2012-2008) e April Heinrichs (Estados Unidos, 2004), refletem um grande conhecimento sobre a dinâmica do jogo feminino.

Obviamente, considerar o sexo dos treinadores como um fator determinante para o sucesso dos times seria um equívoco. Acreditamos que a trajetória destes sujeitos no futebol feminino seja muito mais importante para o desempenho das equipes. É necessário que os treinadores e treinadoras sejam conhecedores da modalidade e das suas particularidades. Além disso, a inserção feminina nas comissões técnicas de diversas modalidades esportivas, como o basquete, handebol ou o vôlei, enquanto conhecedoras e capacitadas para exercer tal função, é tão urgente quanto necessária. Que a FIFA seja o exemplo para outras tantas federações.