Opinião: agora é a vez da garotada da base

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Nesses tempos de crise e falta de dinheiro nos grandes clubes de São Paulo, são obrigados a prestarem mais atenção nas divisões de base. No dia 08.11, o Globo Esporte em um dos segmentos, mostrou quatro candidatos a futuros craques. Precoces, idades entre 16 e 17 anos, já com status de acima da média e com preços de direitos federativos de gente grande entre R$ 72 a R$ 180 milhões, são tratados como verdadeiras joias.

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Muito já se falou a respeito de como pouquíssimos times trabalham bem sua base, tanto formando jogadores desde o sub-9 como trazendo meninos de outros clubes e terminam de lapida-los, em suas divisões menores.

Era comum a alguns anos atrás, nos clubes de São Paulo, principalmente do interior, serem um prospero celeiro de bons jogadores, sempre havia um ou dois jogadores que se destacavam em TODOS os clubes e ao termino do campeonato regional os clubes grandes buscavam os destaques dos times pequenos. Comprando ou como era mais comum de ser feito, emprestando para a disputa do Brasileiro, com isso avaliava-se com mais precisão, se o espirito era de clube grande e comprando seu “passe” ao sinal do empréstimo.

Atualmente isso pouco ocorre, pois o descaso das Federações (Paulista e CBF) praticamente acabou com agremiações tradicionais, obrigados a fecharem seus departamentos de futebol pelo autocusto ou estão perdidas nas séries Z do Campeonato Paulista e Brasileiro. Só para ter-se um parâmetro da situação, dos 11 clubes fundadores da Federação Paulista, um dele não existe mais como times de futebol e o outro foi extinto (*) outros estão nas divisões de baixo do Paulista e Brasileiro (**).

Todos já produziram grandes jogadores, mas o pouco investimento e rendas deficitárias, péssimas administrações, o autocusto para manter um time profissional e o desinteresse da Federação em ajudar seus afiliados, os condenaram a essas situações.

O que sobra para os clubes grandes hoje? Investir em si mesmo, em seu futuro, através das divisões de base. É inadmissível para um clube sério não tentar revelar jogadores para abastecer seu time profissional. O jornal “O Lance”, colocou em sua chamada de primeira pagina no dia 11.11 – “Ano dos garotos no Timão”.

Com as varias crises administrativas, estruturais e falta de qualidade do atual elenco profissional e principalmente de dinheiro, parece que os dirigentes por força desses problemas todos, iram dar chance aos destaques da base. Tardia, essa atitude? Sim, sem sombra de duvidas, para um time que é NOVE vezes campeão da Copa São Paulo. E essa atitude só trás benefícios ao clube, quando o garoto vislumbra essa possibilidade dará o máximo pelo time, chegara ao profissional com garra e determinação muito maior que aquele que vem de fora, pois ele é “cria” da instituição, foi preparado para ser jogador profissional do clube.

Mas por “N” situações, normalmente financeiras que obrigam o Corinthians a vender o jogador muito jovem e por preços baixos, para não dizer a preço de banana, mesmo com patrocínios milionários isso ocorre constantemente. Exemplo: Willian.

Outras situações que prejudicam o aproveitamento desse garoto, ele “treme” ou não faz uma sequência de jogos consistente, logo a torcida começa a cobra-lo em demasia, não tem paciência com o garoto formado no “Terrão” e com isso é o primeiro passo para sair do clube. Não existe a confiança que o garoto necessita, ele vai errar sim e muito, paga pela inexperiência. Logo aparece um empresário e oferece um jogador mais experiente e em muitos casos, com menos qualidade, e o garoto passa a ser reserva do time reserva, é vem o fim. Sai do clube e vai fazer sucesso em outra agremiação. Ocorre a necessidade para uma posição e o Corinthians paga peso de ouro o retorno desse jogador, que esteve ali à disposição só querendo uma chance de mostrar serviço – exemplo: Fagner.

O Corinthians mantém uma parceria com o Flamengo de Guarulhos, para dar experiência aos jogadores do sub-20, que disputam os torneios da categoria pelo time de Guarulhos e os com até 23 anos, disputam o campeonato profissional da série A-3. A outra parceria com o time Salvador FC, de Salvador-BA, que prioriza suas revelações ao Corinthians. Para conseguir produzir mais jogadores o Corinthians tem a franquia “Chute Inicial”, escolinha de futebol espalhadas pela grande SP e interior, para ajudar a revelar novos valores para o Timão.

Tem aquele clube que tem fama de formador e investe uma verdadeira fortuna em um CT exclusivo para a base, que muito time profissional do País não tem essa estrutura, mas produz muito pouco em qualidade, parece que perdeu o jeito para a coisa. Inaugurado em 2005 em Cotia, esse centro de excelência de formação de jogadores, em 11 anos produziu 4 ou 5 jogadores de real qualidade que jogaram no time profissional, e com passagens curtas pelo time. O São Paulo fez esse investimento enorme e o retorno foi pequeno quase nenhum, podemos dizer que apenas Lucas saiu por um valor compensador, mas como a maioria, sem estar pronto.

No atual time do São Paulo, temos apenas Rodrigo Caio como realidade, jogador com gabarito de seleção brasileira e um punhado de promessas no elenco que pouca ou nenhuma chance esse ano, só agora nas ultimas rodadas do brasileiro tiveram espaço para mostrar seus talentos. Podemos destacar o atacante David Neres, veloz e de boa técnica, se tiver chances será uma boa opção para o futuro do São Paulo.

O São Paulo criou a franquia “Escola de Futebol”, com o intuito de captar mais garotos para seus times de base, para meninos e meninas de 04 a 15 anos.

O Palmeiras sempre foi comprador, seus principais jogadores sempre vieram de outros clubes, citando três ícones de sua historia, Ademir da Guia veio do Bangu, Luiz Pereira São Bento Sorocaba e Leão Comercial Ribeirão Preto. Da década de 90 para cá, mostrou-se um formador de goleiros de Seleção Brasileira, Veloso, Zetti, Marcos e Cavalieri. Ano passado, despontou Gabriel Jesus, para muitos um craque. Acho cedo para cravar isso, por enquanto um jogador um pouco acima da média. Existem alguns jogadores formados no clube no plantel profissional, mas são pouco aproveitados em virtude da obsessão de ”comprar”, do seu presidente e do gestor de futebol.

O Palmeiras nesses últimos dois anos contratou mais ou menos 50 jogadores, boa parte já saiu do clube outros chegaram, gerando uma rotatividade enorme. Alguns com qualidade duvidosa para vestir a camisa verde, mas parece que isso não importa muito para a dupla, diminuindo as chances dos meninos.

O Palmeiras fechou um patrocínio forte, já rendeu alguns frutos em termos de títulos e algumas rusgas; com planos de investimentos apenas no profissional, deixando os investimentos nas divisões inferiores para o clube. Acredito que o Palmeiras, continuará com sua fama de comprador. O Palmeiras também possui uma franquia a “Palmeiras Academia”, de pouca divulgação só é mencionada sem muito destaque no site do clube, também tenta investir nesse item.

O Santos é o oposto de seus coirmãos, aprendeu a usar seus times menores para formar bons times profissionais, esse aprendizado foi feito a duras penas. Após o fim da Era Pelé o Santos entrou em queda livre, com dividas astronômicas, times medíocres e sem dinheiro para comprar jogadores. Em 77 a primeira geração de “Meninos da Vila”, subiram o treinador e um time quase inteiro para o profissional. Com a mescla de alguns jogadores experientes que já estavam na Vila, montou-se um time Campeão Paulista daquele ano.

Após essa safra criou-se o embrião do que seria a futura fabrica de meninos bons de bola. Produziu-se um ou outro bom jogador, que rendeu algum dinheiro ao clube. Mas é na crise que acontecem as superações, a segunda geração já se anunciava quatro anos antes, com bons times nos sub-15 e sub-17, com destaques para alguns garotos que confirmariam em 2002 essas previsões.

A principal proposta dos que garimpam pelo Brasil garotos para os times de base do Santos é bem simples: tem que jogar bola, não importa se não tem tamanho, se é magro demais, tem que saber jogar. E muitos que foram reprovados em outros times, por não terem físicos e não técnicos, foram sendo trazidos para a Vila. O Muricy comentou a algumas semanas, no programa Cartão Verde:

“Acompanhei algumas vezes, o processo de como era feita a seleção dos meninos e o primeiro critério para ser escolhido era técnico, “o garoto tinha que ser bom de bola”. Se não tinha o biótipo adequado, ele seria preparado para desenvolver-se fisicamente, o clube investiria nesse quesito e por isso a procura de teste na base é grande. Possui uma rede de olheiros espalhadas pelo País, sem contar os muitos contatos que recomendam garotos ou mesmo jogadores com qualidade para jogar no sub-20” ou mesmo no profissional.

Criou-se ano passado o sub-23, o antigo aspirantes, para não perder jogadores que “estouram” a idade e com esse time dão condição a esses meninos de se aprimorarem mais ainda e poderem almejar jogar no time principal. Exemplo: Vitor Bueno.

Além disso, foi feita uma parceria com a Portuguesa Santista, onde foram emprestados jogadores do sub-23 e um dos auxiliares técnicos da categoria (Marcelo Passos) que acompanhava de perto o trabalho que era feito e a evolução deles. Essa parceria já deu frutos nesse primeiro ano, os jogadores Carlos Alberto e Willian (artilheiro isolado da A-3) que já retornaram a Vila Belmiro, com chances de serem aproveitados pelo Dorival Jr. Em 2017. Nem sempre se acerta, a maior decepção foi Jean Chera, que por varias contusões, não conseguiu ficar em forma resolveu abandonar o futebol. A parceria será mantida em 2017, com ajustes e mais cooperação entre os clubes.

Além desses empreendimentos todos, ainda existe a franquia “Meninos da Vila”, espalhadas pelo estado de São Paulo, e em vários locais do Brasil, com a instalação de uma unidade para o ano que vem na China em parceria com o governo.

Vemos com isso que os grandes clubes do Brasil, estão começando a olhar com muito carinho para esses projetos de revelações de novos valores, mas ainda é refém de empresários e empresas esportivas, que por muitas vezes leva os garotos para os clubes, que os lapidam e ficam apenas com uma comissão simbólica quando vendido para o exterior. Alguns clubes tem a política de manter em seus times de base, apenas jogadores em que os direitos pertencentes ao clube seja de 70%, evitando ser apenas vitrine para empresários.

Mas o trabalho é duro por que os grandes times Europeus, também assediam na base, levando jogadores de 15 a 17 anos para seus “canteiros”, lesando o futebol brasileiro de seus jovens antes que estejam prontos, transformando esses garotos em híbridos, brasileiros de origem, mas formados na Europa, com poucas características do jogo brasileiro. Um exemplo recente de mudança de estilo e para pior, foi o Robinho. Saiu do Brasil um atacante habilidoso e definidor, tornou-se um jogador robótico, nem sombra daquele atacante que encantou o mundo, vitima da camisa de força dos técnicos que querem um jogador “tático”.

Esperemos que esses garotos que são apontados como futuros craques vinguem e mostrem todo o seu potencial futuramente, e não sejam seduzidos (os pais ou empresários) pelos euros, e promessas de vitoria em campos Europeu jogando por grandes times. Sabemos que nem sempre é assim, mas ficamos na esperança de velos por nossos times daqui a alguns anos.

Nicolas atacante do Santos, dos quatro com mais probabilidades de chegar ao profissional, baseado na metodologia do clube; Alan Guimarães meia, terá mais possibilidades se mudar a política do Palmeiras; Marquinhos Cypriano atacante do São Paulo, tem grandes chances de chegar ao profissional; Fabrício Oya meia do Corinthians, mesma situação do meia do Palmeiras, se houver mudanças na política do clube. Se tudo correr bem, são nomes para o futuro e só nos resta esperar e torcer para que vinguem.

(*)C.A. Ypiranga desativou seu departamento profissional em 1959 e o Comercial F.C. de São Paulo foi extinto em 1961.

(**)Jabaquara A.C. hoje esta na A-3, A.A. Portuguesa de Santos disputará a A-2 em 2017, Nacional A.C. está na A-3, A. Portuguesa de Desportos na A-2, C.A. e o Juventus na A-2.

Os outros fundadores são: Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo.



Formado em Desenho Industrial, na Unisanta turma de 84, mas apaixonado por futebol, aquele bem jogado. Saudosista dos grandes jogos e jogadores.