Opinião: AD(eus) São Caetano, a situação do time mais carismático do Brasil

Divulgação/Fernando Antonioli

Assim que desembarquei na plataforma da estação São Caetano, já senti que ali tinha algo diferente. Fui ao Atende Fácil para buscar – FINALMENTE – meu passaporte e dar sequência no meu processo de reconhecimento da cidadania italiana. Em São Paulo, a data mais próxima para agendar um atendimento na Polícia Federal é em janeiro. Teve que ser em São Caetano mesmo.

Na saída, já com o documento em mãos, calculei no Google Maps quantos quilômetros dali até o estádio Anacleto Campanella. Três quilômetros. Era muita coisa. Mas em casa não tinha nada para fazer. Mesmo assim: é muita coisa. Mas eu gosto de caminhar, e quero conhecer a cidade, e sabe-se lá Deus quando terei a chance de voltar aqui. Mas ainda é muita coisa. E está garoando. Ah, não tem problema! A garoa está tão fininha que mal posso senti-la. Mais refresca do que molha.

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O Maps ia mostrando o caminho. Ladeira, aclive, plano. Direita, esquerda, reto. A cidade é bem sinalizada, até. Acho que conseguiria chegar sem o Maps. Então, desligo o aplicativo. Peraí? Que rua é essa? Ahh tá chegando. É logo ali. Ahh olha os refletores. Devo estar perto. Estou curtindo essa São Caetano. As casas são bonitas. Mas como assim o estádio fica mais próximo da estação Utinga do que da estação São Caetano? Deve ser pelo mesmo motivo que o estádio do Morumbi fica longe da estação Morumbi. Eu me perguntava e eu mesmo me respondia.

Chegando à Avenida Walter Thomé, 64, no bairro Olímpico, cidade de São Caetano do Sul, eu sabia que aquele sentimento que me irrompeu ainda na plataforma da estação de trem tinha a ver com aquelas pacatas ruas. Começava ali uma jornada pela história recente do futebol brasileiro. Movido mais pela curiosidade e amor ao futebol do que pelo jornalismo, investiguei cada canto daquele local que 15 anos atrás era um dos templos do futebol nacional. Estádio pequeno. Capacidade para pouco mais de 16 mil pessoas. Anexo ao estádio, o Ginásio Poliesportivo Milton Feijão. De frente para o ginásio, a padaria Nova York.

Uma autoescola que promove aulas para formação de condutores quebra um pouco da monotonia, o que não disfarça o ar mais interiorano do que metropolitano. Andei, andei, andei até encontrar um boteco. Dei uma olhada, gostei do que vi e fui logo entrando.

-Aceita débito?
-Sim.
-Então pode me ver uma cerveja, por favor?

Sentei mirando o estádio e tomei vagarosamente minha cerveja. Uma bebida mais forte que uma Pilsen. Como se a Pilsen fosse um danone e a Puro Malte fosse um iogurte grego. E como se contemplasse um Partenon de deuses efêmeros, me pus a lembrar de todos os nomes possíveis que eu já vira trajando aquele fardamento azul. Adhemar, Silvio Luis, Anaílson, Dininho, Serginho, Esquerdinha, Magrão, Japinha, Claudecir, Somália, César, Mineiro, Marcelo Mattos, Daniel, Ânderson Lima, Gilberto, Marcinho, Thiago Martinelli, Fabrício Carvalho, etc.

Divulgação/Fernando Antonioli
Divulgação/Fernando Antonioli

Na televisão passava um daqueles programas futebolísticos da hora do almoço. E foi no gancho do programa que alguns senhores embalaram a falar sobre futebol.

-Ahh esse título aí já é do Palmeiras. Agora tem só que pensar em montar um elenco melhor ainda para ganhar a Libertadores.
-Que Palmeiras que nada. O Santos está chegando. Basta uma, duas derrotas do Palmeiras que já era. Você vai ver.
Acanhado, escuto que o assunto é futebol e aproveito para dar as cartas:
-Escuta, e quando vamos ver o São Caetano na Libertadores de novo?, pergunto.
-Ahh, filho! Vai demorar. Pode esperar sentado que eu acho que nunca mais esse time aí vê a cara de uma Libertadores, responde o senhor Henrique, morador da cidade e torcedor do Corinthians.

Aproveito para perguntar mais sobre o São Caetano, sobre o estádio, sobre a reforma, sobre a cidade. A resposta para todos os problemas do Azulão, na opinião dos velhinhos, é o governo Dilma.

Após terminar minha garrafa de cerveja, me retiro sem saber ao certo o que deu errado com o pequeno gigante. Acho que faltou dinheiro. Pelo menos acho que foi isso que o senhor Edgar tentou me explicar. E mesmo assim, nas calhas de roda, eu sou obrigado a concordar com ele. Torcida pequena, cidade pequena, tudo isso acabou pesando. E por muito tempo o São Caetano sofreu calado e passou por cima de tudo isso. Até esbarrar no mais temível dos adversários: as cifras. Quando estas entram em campo, envaidecem o espetáculo. Quando elas saem, é o fim do espetáculo. E assim a cortina azul foi se fechando.

Pode ter faltado dinheiro, patrocínio, investimento, incentivo. Mas a realidade é que o São Caetano consegue realizar a proeza de estar aí e, ao mesmo tempo, deixar saudade. Como pode um lugar tão pequeno guardar tantas histórias? E como pode um lugar que guarda tantas histórias estar fadado ao esquecimento? A Chapecoense está mais uma vez se entrosando na América, flertando, inclusive, com uma final de Copa Sulamericana. A ascensão da Chape me lembra o São Caetano. Talvez o fenômeno Chape Terror não seja tão apoteótico quanto o do Azulão, mas que seja longevo e vitorioso.

Ao deixar o bairro Olímpico eu sabia que estava pisando em solo sagrado, de alguma forma. E eu precisava deixar minha marca por ali também. Desci a rua, encontrei uma construção e não pensei duas vezes antes de cravar uma pisada no cimento fresco que irá secar e também deixar a minha pegada naquele reduto de bravos.



Um homem de muitas paixões. A primeira é a vida. A segunda é o Futebol. A terceira é o Jornalismo. Portanto, decidi estudar Jornalismo para ficar perto do Futebol e me sentir realizado na vida. Leitor assíduo de livros, revistas e jornais. Um dos meus passatempos é pesquisar a carreira daquele cara que passou pelo meu time em 2001 e saber onde ele está jogando.