PAPO TÁTICO: Ricardo Gomes e Levir Culpi provam que técnico ganha jogo sim (e perde também)

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Crédito da foto: Nelson Perez / Fluminense FC

Acredito que todo mundo que acompanha o TORCEDORES.COM já deve ter ouvido falar daquela velha expressão que diz que técnico também ganha jogo. Bom, a vitória do São Paulo (de virada) sobre o Fluminense no Guilite Coutinho, em Edson Passos, pelo Campeonato Brasileiro, é uma das provas dessa que é (na humilde opinião deste que vos escreve) uma das maiores verdades do futebol. Por outro lado, o partida também mostrou que as decisões de um treinador também podem ser determinantes para que um time saia de campo derrotado. Ricardo Gomes e Levir Culpi acabaram se transformando nos protagonistas desse jogo movimentado, apesar do baixo nível técnico apresentado pelas duas equipes. Melhor para o São Paulo (que se afastou da zona do rebaixamento) e pior para o Fluminense (que viu o G6 ficar mais longe com a derrota diante da sua torcida).

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O Fluminense entrou em campo armado no 4-2-3-1 preferido de Levir Culpi, com Richarlison no comando do ataque e Wellington e Gustavo Scarpa pelos lados do campo. Mesmo tendo perdido Marcos Júnior no meio do primeiro tempo, o Tricolor das Laranjeiras era superior e impunha seu estilo de jogo, aproveitando os espaços entre os volantes e zagueiros adversários. Já o São Paulo de Ricardo Gomes (que chegou ao Rio de Janeiro com a corda no pescoço) jogou numa espécie de 4-4-1-1 que só conseguiu ameaçar o gol defendido por Júlio César no final do primeiro tempo, quando Gum deu um presentaço para Robson na saída de bola. O camisa 29 deixou Cueva em plenas condições de empatar a partida, mas o chute do peruano acertou a trave direita. O único gol nos primeiros quarenta e cinco minutos saiu em bela jogada de Wellington pela esquerda. O atacante fez fila até ser derrubado dentro da área por Dênis e converter a penalidade que ele mesmo sofreu.

Mesmo com a saída de Marcos Júnior na metade do primeiro tempo, o Fluminense foi muito superior ao São Paulo durante os primeiros quarenta e cinco minutos da partida em Edson Passos. Faltou prender mais a bola no setor ofensivo e explorar mais o lado direito, onde Gustavo Scarpa e Wellington Silva levavam grande vantagem sobre Mena e Thiago Mendes.

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O fato do Fluminense ter jogado melhor do que o São Paulo no primeiro tempo não quer dizer que a atuação do time de Levir Culpi merece aplausos. Muito pelo contrário. A saída de Marcos Júnior deixou a equipe “torta”. Não era raro ver Wellington, Richarlison, Marquinho, Cícero e Gustavo Scarpa embolando o jogo pelo lado esquerdo de ataque. Assim como também não era difícil notar que Wellington Silva jogava quase isolado na direita e quase não tinha com quem jogar quando o Flu atacava o São Paulo. Talvez fosse o caso de se inverter o posicionamento de Wellington e Gustavo Scarpa, mas Levir se viu obrigado a sacar o camisa 25 (que acabou passando mal no intervalo) para a entrada de Igor Julião, que entrou completamente perdido. Outro ponto que prejudicou o Fluminense foi a atuação de Richarlison. O atacante não conseguiu dar sequência a nenhuma jogada de ataque e desperdiçou chance cristalina ao preferir o passe ao invés do chute a gol.

O espaço destacado na foto (o lado direito de ataque) foi pouquíssimo utilizado pelo Fluminense na partida. Não era raro ver cinco ou seis jogadores embolando pelo outro lado. Tanto o Flu como São Paulo pecaram na distribuição dos seus atletas pelo campo.

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Tantos equívocos na estratégia de jogo do Fluminense permitiram que Ricardo Gomes agisse. Buffarini deixou o campo para a entrada de Kelvin e o treinador são-paulino rearrumou a sua equipe num 4-2-3-1 que dava total liberdade para Cueva organizar as jogadas de ataque. Mas o xeque-mate foi dado com a entrada de David Neres no lugar de Robson. Com o camisa 14 em campo, o Tricolor Paulista ocupou melhor os espaços e imprimi mais velocidade nas tramas ofensivas. A saída forçada de Pierre para a entrada de Douglas (mais um que entrou perdido) colaborou ainda mais com a estratégia de Ricardo Gomes. Bastaram cinco minutos para Thiago Mendes aproveitar uma bobeira incrível de Gum e Marquinho para empatar o jogo e acabar com os nervos do Fluminense. A pá de cal viria aos trinta e seis minutos do segundo tempo, com uma bela cabeçada de Rodrigo Caio. O Flu ainda tentou o empate na base do abafa, mas já era tarde para se tentar alguma coisa.

As entradas de David Neres e Kelvin mudaram a cara do São Paulo na segunda etapa. O time ficou mais organizado, atacou com muito mais eficiência e se aproveitou as mexidas equivocadas de Levir Culpi para virar o jogo e conquistar uma vitória importantíssima fora de casa.

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Ao contrário do que alguns costumam dizer, o técnico faz toda a diferença numa partida de futebol. Enquanto faltava ousadia e uma leitura de jogo mais clara a Levir Culpi, Ricardo Gomes (pressionado pela ameaça de demissão em caso de derrota) preferiu soltar a sua equipe na segunda etapa. Aliás, já faz tempo que o treinador do Fluminense vem errando a mão. Além disso, a terceira derrota seguida no Brasileirão liga o sinal de alerta nas Laranjeiras e coloca Levir na mira da torcida, que já mostrou que perdeu a paciência com os resultados ruins. De todos os reforços contratados no meio do ano, apenas o atacante Wellington vem correspondendo às expectativas. Some isso às decisões erradas da comissão técnica e teremos aí uma verdadeira panela de pressão prestes a explodir. O jogo contra o Coritiba (no próximo final de semana) será determinante para as pretensões do Fluminense nesse restante de temporada.

Ricardo Gomes sabe que ainda precisa fazer muito mais se quiser se manter no comando do São Paulo até o final da temporada. O resultado de hoje, no entanto, mostrou que o time vem conseguindo assimilar as propostas do treinador. E diante do que se viu no Estádio Giulite Coutinho nesta segunda-feira, Ricardo Gomes pode ter encontrado a formação ideal da sua equipe no segundo tempo do jogo contra o Fluminense. Vale a pena apostar num quarteto ofensivo formado por Kelvin, Cueva, Robson (ou David Neres) e Chávez nos próximos jogos. Vale a pena apostar numa dupla de volantes formada por João Schmidt (ou Hudson) e Thiago Mendes. E vale a pena apostar num esquema de jogo mais ofensivo. A vitória fora de casa é sim um grande alívio para comissão técnica e jogadores. Mas a tranquilidade só vai voltar com o time saindo da parte de baixo da tabela do Brasileirão.

Nesse duelo de treinadores, Ricardo Gomes mostrou que técnico pode sim ganhar um jogo de futebol. E Levir Culpi mostrou que um treinador pode ser responsável por uma derrota. E siga la pelota…



Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.