PAPO TÁTICO: As lembranças afetivas envolvidas no retorno de Oswaldo de Oliveira ao Corinthians

Crédito da foto: Williams Aguiar / Sport Club do Recife

Todos aqueles que acompanham o futebol brasileiro há algum tempo já sabem que alguns dirigentes tendem a agir como torcedores apaixonados. Não é raro ver contratações baseadas muito mais na emoção e numa lembrança de um passado vitorioso do que em critérios técnicos. E o retorno de Oswaldo de Oliveira ao Corinthians possui esses contornos. Essa será a sua terceira passagem pelo Parque São Jorge, onde foi campeão paulista e brasileiro em 1999 e ainda conquistou o Mundial de Clubes em 2000, superando o Vasco da Gama na final. Ao todo, foram 114 partidas no comando do Timão. Oswaldo de Oliveira volta com a difícil missão de recuperar a equipe no Campeonato Brasileiro e chegar o mais longe possível na Copa do Brasil. Mesmo com a qualidade já demostrada pelo treinador em outros tempos, essa tarefa não será nada fácil.

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O retorno de Oswaldo de Oliveira ao Corinthians é escolha pessoal do presidente Roberto de Andrade, amigo pessoal do treinador. Para uma torcida que estava acostumada com a firmeza, a diplomacia e os títulos da “Era Tite” (hoje na Seleção Brasileira), a volta de Oswaldo é vista com certa desconfiança. Mesmo assim, as tais lembranças afetivas remetem a dezesseis anos atrás, quando o treinador comandou o Timão na conquista da Copa do Mundo de Clubes depois de jogar de igual para igual com o Real Madrid de Raúl, Sávio, Hierro e Anelka. Naquele dia 14 de janeiro de 2000, o Timão entrava em campo com uma equipe formada por grandes nomes do futebol mundial e superava um Vasco repleto de craques. O 4-3-1-2 de Oswaldo de Oliveira variava para o 4-2-2-2 conforme a movimentação de Ricardinho no meio-campo e já mostrava a preferência do treinador por estilos mais ofensivos e dinâmicos de jogo.

Oswaldo de Oliveira foi campeão mundial interclubes no ano 2000 armando o Corinthians num 4-3-1-2 que variava para o 4-2-2-2 conforme a movimentação de Ricardinho. Apesar das chances perdidas diante do excelente time do Vasco, o título só veio na decisão por pênaltis.

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Oswaldo de Oliveira deixou o Corinthians em junho do ano 2000 e passou pelo próprio Vasco da Gama, pelo Fluminense, São Paulo, Flamengo, Santos e Vitória da Bahia, além da sua segunda passagem pelo Parque São Jorge em 2004. Os títulos só voltariam três anos depois, no futebol japonês, no comando do Kashima Antlers (com indicação do próprio Zico). O retorno ao Brasil (em 2013) marcaria também o último grande trabalho de Oswaldo de Oliveira como treinador. O Botafogo de Seedorf, Lodeiro, Vitinho e Jefferson conquistou o Campeonato Carioca daquele ano e chegou a liderar o Campeonato Brasileiro brigando de igual para igual com o Cruzeiro. O 4-2-3-1 liberava o veterano holandês para armar o jogo e tinha em Rafael Marques um jogador de muita movimentação ofensiva. Além disso, as boas fases de Bolívar e Marcelo Mattos garantiam a qualidade daquele Botafogo que mesclava experiência e juventude.

Oswaldo de Oliveira conseguiu armar um Botafogo com bastante movimentação ofensiva e solidez na defesa. Seedorf tinha liberdade para armar o jogo e ainda orientava os mais jovens dentro de campo. Foi com essa formação que o Glorioso chegou a liderar o Brasileirão em 2013.

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Depois do quarto lugar no Brasileirão de 2013 (e da vaga na Libertadores de 2014), Oswaldo de Oliveira deixou o Botafogo e passou (sem muito sucesso) por Santos, Palmeiras, Flamengo e Sport Recife. E o treinador chega ao Corinthians com o clube passando por um momento conturbado. Depois de desmontar o time campeão brasileiro no ano passado e de apostas que não deram certo, Oswaldo tem a dura missão de recuperar a moral de uma equipe que está no meio da tabela da competição e com poucas chances de chegar à zona de classificação para a Libertadores. E isso sem falar no caos político vivido nos bastidores. Há como o treinador organizar o time no seu preferido 4-2-3-1 utilizando a qualidade de jogadores como Marquinhos Gabriel, Ángel Romero, Camacho, Rodriguinho e Giovanni Augusto sem perder a solidez defensiva. Há como se fazer o Corinthians jogar mais e melhor. Mas é preciso trabalho e paciência.

Marquinhos Gabriel, Marlone e Giovanni Augusto podem formar um trio de meias de bastante qualidade atrás de Ángel Romero no 4-2-3-1 preferido de Oswaldo de Oliveira. Além deles, Guilherme, Lucca e Gustavo pintam como boas opções para o novo treinador armar a equipe.

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Ao contrário do que alguns torcedores corintianos conhecidos meus afirmam, não acho o elenco fraco. Oswaldo de Oliveira vai chegar no Parque São Jorge e vai perceber que possui boas alternativas para montar a equipe. Além da nossa sugestão acima, nomes como Lucca, Gustavo, Guilherme, Léo Príncipe, além dos experientes Willians e Cristian também podem ser úteis nessa reta final de temporada. Vale lembrar ainda que, apesar da posição ruim na tabela do Brasileirão, o Corinthians está nas quartas de final da Copa do Brasil e segue com chances de título. Como falamos anteriormente, há como o Timão jogar mais e melhor do que vem jogando. Mas, ao mesmo tempo, é preciso analisar o cenário como um todo e aceitar que a tarefa não será das mais fáceis. A abertura de mais vagas para a Libertadores da América de 2017 pode ser o trunfo para dias mais calmos no ano que virá.

É bem verdade que Oswaldo de Oliveira corre o risco de passar por situação semelhante a que passou no Flamengo, no ano passado. O treinador assumiu o time num momento conturbado do clube (dentro e fora de campo) e viu as chances de classificação para a Libertadores sucumbirem aos poucos. Além disso, o próprio presidente Roberto de Andrade já afirmou que a classificação para o torneio internacional é “obrigação” e que o elenco corintiano tem qualidade para brigar na parte de cima da tabela (ver link acima). Ou seja, as cobranças vão chegar de todos os lados. Oswaldo de Oliveira pode ser fruto de uma “lembrança afetiva” do presidente Roberto de Andrade, mas a tendência é que ele acabe “pagando o pato” caso o time não consiga atingir os objetivos traçados pelo mandatário. Quem viver, verá.



Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.