Opinião: Demissão de Argel é a prova de que a intolerância afunda o futebol brasileiro

Inter
Ricardo Duarte / Internacional

Argel não é mais técnico do Internacional. Após uma série de seis jogos sem vitórias, aliada as derrotas ao vice-lanterna do Brasileirão Santa Cruz e no Gre-Nal 410, o treinador deixa o clube com 60,6% de aproveitamento dos pontos conquistados. No currículo, levará dois títulos: Gauchão de 2016 e Recopa Gaúcha 2016. Mas por que Argel caiu?

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A justificativa é que o time não correspondia aos seus comandos em campo. De que a equipe não mostrava poder de reação as instruções do técnico nos momentos adversos. Que o time precisa de chacoalhão para reagir no Brasileirão e, ao menos, conquistar uma vaga na Copa Libertadores de 2017. No entanto, cerca de um e meio atrás, o então treinador colocarado era elogiado pela boa campanha no início do Brasileirão. Será que o cara não pode errar? Não, no futebol brasileiro não pode. Existe um pensamento de futebol é resultado. Que o cara chegue ao clube e resolva o problema de imediato. Fato engraçado, que se olharmos o retrospecto dos últimos campeões, as equipes ganharam com longevidade de trabalho de seus técnico.

Há cerca de 10 anos atrás, Muricy Ramalho comandou o São Paulo na conquista de três brasileiros, mesmo após três quedas em Libertadores. Sim, ele balançou no cargo, mas foi bancado e deu resultado. Em 2013 e 2014, Marcelo Oliveira faturou o bi do Brasileiro pelo Cruzeiro após quedas no campeonato mineiro para o rival Atlético-MG. E o exemplo mais vitorioso é Tite — que já treinou o Internacional: o cara faturou tudo que era possível no futebol brasileiro com o Corinthians, mas tudo poderia ter sido diferente se tivesse caído diante do Tolima, na pré-Libertadores de 2011. Você que está lendo acha que estou viajando?

Quem está viajando é esse pensamento retrogrado do torcedor brasileiro de que o técnico precisa fazer o time vencer tudo. Não é possível e os jogadores também são responsáveis. Uma conquista é reflexo de bom trabalho, empenho de todos do clube e luta até o fim. Argel chegou ao Inter, em agosto de 2015, após boa campanha no Figueirense. Muito critido na época, a direção colorada dizia que era uma aposta. E parece que após 61 jogos (com 32 vitórias, 15 empates e 14 derrotas) a investida foi errada.

Argel está num processo de crescimento como profissional, mesmo que ainda apresente características de montagem de time pequeno: em que se trabalha uma defesa forte, com muitos homens protegendo a cabeça da área e apostando em bolas longas. A pressão pelo resultado fez o técnico colocar o colorado para atuar assim, mas não surtiu efeito. Viu sua batata assando a cada rodada e não teve respaldo para seguir seu planejamento.

O futebol brasileiro não é o melhor do mundo por falta de projetos. Amanhã, Argel assume outra equipe, fica um ano, conquista títulos, perde dois jogos e é demitido de novo. E essa bola de neve nunca acada.



Jornalista com passagens pelo Portal R7, Jornal do Trem, Impacto Comunicação, Dialoog Comunicação e Comunicale.