“Não quero mais ser coadjuvante”, diz esgrimista gaúcho sobre Rio-2016

Giordano Toldo/Facebook oficial Guilherme Toldo

Uma das esperanças de medalha do Brasil nos Jogos Olímpicos Rio-2016 pode vir de um dos esportes menos conhecidos no país: a esgrima. Ao menos, é o que deseja Guilherme Toldo. Aos 23 anos, o gaúcho de Porto Alegre vai para a segunda olimpíada da carreira. E, diferentemente dos Jogos de Londres, há quatro anos, ele quer ser o personagem principal da história.

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“Em Londres foi mais divertimento, para pegar o gostinho olímpico, sentir como era uma Olimpíada. Agora estou um pouco mais velho, mais experiente e estou pré-disposta a ter um papel maior, não apenas um coadjuvante”, admitiu o atleta em entrevista por telefone ao Torcedores.com.

De fato, em Londres-2012, Toldo teve participação discreta. O gaúcho estreou com vitória na disputa individual do florete com vitória sobre o marroquino Lauhoussine Ali. Na segunda rodada, no entanto, ele foi derotado pelo norte-americano Race Imboden.

No Rio-2016, a história promete ser bem diferente. A exemplo da competição na Inglaterra, Guilherme Toldo vai participar da disputa individual do florete. E ele também estará na disputa por equipes da arma, ao lado de Ghislaim Perrier, Henrique Gomes e Fernando Scavasin. E os resultados têm sido melhores no ciclo olímpico atual.

Nos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara, no México, em 2011, o atleta conquistou duas medalhas de bronze, na disputa individual e por equipes do florete. No ano passado, no Pan de Toronto, no Canadá, a equipe toda foi medalha de prata. Também em 2015, Toldo foi campeão brasileiro na arma. Já a equipe conquistou a prata no Campeonato Pan-Americano disputado no Panamá em junho deste ano.

Portanto, o que esperar para o Rio-2016?

“Costumo dizer que, quando começou o circuito olímpico, o circuito mundial, das 24 medalhas distribuídas no circuito mundial, foram 24 atletas diferentes. Isso demonstra uma grande competitividade, um nível muito grande no florete masculino. E me sinto muito confiante em dizer que faço parte deste grupo. Vejo como possibilidade de medalha no Rio-2016, sim. Eu acredito muito na medalha, acredito que tenho potencial, mas meu objetivo é me concentrar na prova, jogar a esgrima. A medalha vem por tabela.”

Florete por acaso

À primeira vista, as três armas da esgrima parecem todas iguais. Mas não é bem assim. A começar que, a rigor, somente uma delas pode ser chamada de espada. Há, também, o sabre e o florete, esta última, especialidade de Guilherme Toldo.

A espada é a arma mais pesada. Com 770g, mede 1,10m e rende ponto quando o adversário é tocado em qualquer parte do corpo. O sabre é o menor. Tem 88cm, 500g e tem toque válido da cintura para cima. Já o florete é a arma intermediária, digamos assim. Mede 90cm, pesa 500g e só tem pontuação válida quando o toque acontece na região do tronco.

Tantas diferenças teriam sido levadas em conta por Guilherme, quando ele iniciou no esporte, aos 8 anos? Nada disso. “Foi por extrema coincidência. Quando meus pais foram me inscrever nas aulas, o horário do florete era o único livre. Foi por questão de grade mesmo”, relembrou.

Se foi coincidência encontrar o florete, o acaso também trabalhou para que ele conhecesse o esporte, no Grêmio Náutico União, clube de Porto Alegre em que ele treina até hoje.

“Comecei na esgrima por meio de um projeto do Grêmio Náutico União chamado Projeto Verão, onde associados ou não do clube podiam se inscrever e passar durante o verão por todos os esportes que o clube oferece. E a esgrima foi o esporte que me chamou atenção”, disse Guilherme, que também treinou judô, tênis e futebol ao mesmo tempo da esgrima.

Ele conta que começou a praticar de forma despretensiosa, por diversão. Mas… “Comecei a me motivar por mim e as coisas começaram a acontecer. Depois da experiência dos Jogos de Londres, das medalhas de 2011, vi que tinha a oportunidade de me dedicar somente à esgrima e explorar meu potencial de forma mais legal. E foi aí que fui para a Itália. Poderia me bancar sozinho por causa do incentivo que ia ter até os Jogos do Rio-2016. Não foi algo tomado de uma hora para a outra. Não foi algo programado. Eu me divirto muito com a esgrima, porque vou a lugares que nunca imaginei que iria conhecer.”

Hoje, Guilherme se divide entre períodos de treinos na capital do Rio Grande do Sul e o Frascati Scherma, na Itália.

Canhoto sim, senhor

Torcedor do Grêmio, Guilherme Toldo é canhoto – “canhoto mesmo, faço tudo com a mão esquerda”, como ele ressalta. E a característica, que chama a atenção nos esportes de combate como boxe e no MMA por não ser exatamente comum, não influencia tanto quando o gaúcho empunha o florete. Ao menos quando a luta é para valer.

“Para ser bem sincero, na esgrima a diferença não é tão grande. Nas competições, se vê uma divisão muito democrática entre os atletas destros e canhotos. Há um pouco mais de destros, mas não é tanto. O que acontece é que em certas salas de treinamentos não há muitos canhotos, o que causa dificuldade”, explicou.

Talvez pela escassez de canhotos para treinar, o mais comum é trabalhar contra destros. De acordo com o atleta, na equipe do Grêmio Náutico União, são três canhotos entre aproximadamente 12 esgrimistas. Na Itália, há apenas mais um canhoto para fazer companhia a Toldo. Segundo o gaúcho, esse fenômeno é passageiro.

Seja como for, a mão esquerda está no caminho de Guilherme. Pois foi justamente o canhoto Race Imboden que o tirou dos Jogos de Londres. E, à época, o brasileiro se queixou da falta de canhotos para treinar.

“Isso acontece comigo, quando luto com canhoto sinto um pouco de dificuldade, porque treino mais com destros. Mas não é algo de outro planeta, mas é algo que traz um nível de dificuldade que tem de se levar em conta”, analisou o esgrimista.

Economia no futuro

Aos 23 anos, Guilherme Toldo já mira o próximo toque: a vida acadêmica. Após os Jogos Rio-2016, o gaúcho pretende se dedicar à faculdade. Ele já iniciou os cursos de ciências biológicas e educação física, mas ambos acabaram trancados. A aposta, agora, são as ciências econômicas.

“É um hobby que tinha, surgiu interesse de aprender um pouco mais. E comecei a pensar um pouco mais sobre o assunto. Acho que vai ser essa escolha”, disse.

Quanto à esgrima, Guilherme pretende seguir “até quando continuar curtindo”. “Acho que as coisas vão acontecer como devem. É o que pretendo fazer. E acabo aproveitando também a esgrima para viajar bastante e contribuir com resultados para a esgrima brasileira”, finalizou o atleta.



Jornalista, editor do Torcedores.com. Passagens pelos jornais Metro, O Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde, Marca Brasil, Agora São Paulo, Diário de S. Paulo e Diário do Grande ABC.