Eurocopa e Copa América: precisamos conversar sobre o nosso futebol!

Por Bazílio Amaral, passagens por Corinthians, Palmeiras, Ponte Preta e outras equipes como auxiliar técnico e observador tático. Atualmente exerce a função de treinador.

Os meses de junho e julho reservou para os amantes do futebol um prato cheio com a Copa América Centenário e Eurocopa sendo disputadas. O que ficou evidente foi o abismo que existe entre a maioria dos jogos do Brasileiro Série A com relação as principais Seleções do mundo. As vezes parece outro esporte.

Muita diferença entre os princípios táticos como controle da partida e mudança de faixa de ataque. A organização defensiva é constante nas seleções europeias e em algumas equipes que disputaram a Copa América Centenário.

A nossa atuação no Brasileirão ainda, nas equipes mais bem treinadas, a utilizar melhor a definição de um modelo de jogo, a compactação defensiva, o que ainda é muito rudimentar. Muita ligação direta, bolas paradas e desorganização coletiva dominam nosso futebol. O reflexo acaba sendo nossa Seleção que, com Dunga, foi bem organizada taticamente, mas com jogadores engessados ofensivamente. Como vimos, o Brasil foi eliminado na primeira fase e Dunga deu lugar a Tite. Agora esperamos que o trabalho de reencontrar um Modelo de Jogo Brasileiro, e não o corintiano, seja acelerado.

Mas gostaria de traçar um paralelo rápido entre o futebol disputado nos EUA e o que vimos na França. Começando pela Eurocopa onde vimos o controle de jogo, a organização e intensidade física e mental como características principais. Jogos disputados, é verdade, mas que também vários jogos deixaram o torcedor entediado isto foi um fato.

Na minha análise isto ocorre porque na Europa se trabalha muito o ataque posicional e esta organização deixa o ataque com pouca mobilidade. Porém, esta postura deixa os números de passes certos e as assistências para finalizações com números altos com relação aos da Copa América, segundo o Footstats.

Ao meu ver, apenas quatro seleções tentaram ter mais mobilidade ofensiva: Bélgica, Croácia, Portugal (com a movimentação de Renato Sanchez) e França. Essas equipes mostraram momentos de caos organizado. Já a campeã do mundo Alemanha mostrou um jogo controlado com variação de jogadas, hora pelo meio, pelo corredor e com um jogo de posição com muita infiltração e troca de posições, mas fugindo de suas características deu brecha ao acaso com dois pênaltis cometidos contra a Itália e França.

Já na Copa América, com exceção do Haiti, todas as seleções mostraram uma organização defensiva com marcação zonal bem definidas. Mas o que me chamou a atenção foi a seleção chilena que muitos pensavam ter dificuldades depois da saída do Sampaoli, mas que com Juan Pizzi manteve o padrão de intensidade e organização. Achei a recomposição defensiva fantástica, assim como a organização ofensiva (ops) desorganização. Como assim? A mobilidade, intensidade e imprevisibilidade chilena no campo de ataque foram marcantes e refletiram no domínio dos scouts ofensivos da competição junto com a Argentina.
Segundo dados do Footsats, o Chile foi o segundo melhor ataque, segundo melhor passador, maior número de finalizações certas, de assistências de finalização, de cruzamentos, dribles, viradas de jogo e lançamentos certos o que embasa o caos que o time proporciona na fase ofensiva. Dois dados estatísticos mostram a importância de dois princípios defensivos que sustentam o modelo de jogo chileno. Foi a equipe que mais fez faltas e que mais desarmou.
E o Brasil nisto? Será que o Chile não está fazendo o que nossa Seleção deveria? Criar um modelo de jogo próprio e não copiar totalmente o que acontece na Europa. O Chile marca como europeu e ataca como nenhum europeu faz, assim como a Seleção Brasileira fez no fim da década de 50 até início dos anos 70 e inspirou várias escolas europeias de futebol.
Será que precisamos praticar o futebol burocrático europeu na fase ofensiva como a seleção de Dunga fez, como o Corinthians de Tite fez em vários momentos, ou como vários times grandes e médios do nosso futebol com treinadores que são reconhecidos pelo estudo no futebol? Ou pior, como algumas equipes grandes do nosso futebol tem feito na categoria sub 20 ou sub 17 engessando desde cedo jogadores com boa qualidade individual?
Enfim, talvez tenhamos paradigmas para discutir com mais tempo, mas que esta discussão aconteça para o bem do nosso futebol.