Essa história vivida por Tinga fará você voltar a acreditar na humanidade

Tinga
Foto: Reprodução/ESPN Brasil

Ao lado da irmã mais velha, o menino Paulo César esperava acordado sua mãe voltar para casa já além de 4h30 ou 5h da manhã. Moravam em um apartamento pequeno no bairro da Restinga, zona pobre de Porto Alegre, e os pupilos da família Fonseca do Nascimento não dormiam enquanto a mãe não voltasse do trabalho. Faxineira de festas em clubes da capital gaúcha, Nadir retornava somente após o término dos bailes e levava consigo refrigerantes e doces que sobravam para os seus filhos.

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“Vendo minha mãe sair para trabalhar e voltar com coisa boa para casa, aprendi que trabalhar faz bem”, disse Tinga, o entrevistado dessa semana no programa Bola da Vez, da ESPN Brasil. Só que a rotina pesada, sofrida e repleta de dificuldades para dona Nadir, incumbida, sabe-se lá como, de sustentar quatro filhos com um salário de faxineira, tinha uma explicação de se cortar o coração: seu marido, o pai de Tinga, a abandonou.

“Para ela era muito complicado, porque ela tinha que nos sustentar. O meu pai nos abandonou quando eu tinha 9 anos e foi viver com uma outra mulher e uma outra família. Ele tinha uma vida boa, na época trabalhava na CRT (empresa antiga de telefonia no Rio Grande do Sul). Ficou tudo nas costas da mãe”, revelou Tinga.

Início no Grêmio

Talentoso desde pequeno, Tinga decidiu apostar no futebol e não desistiu mesmo quando o Inter, clube do seu coração, disse “não” em três peneiras. Foi para o rival com o mesmo objetivo e enfim logrou êxito: entrou para as categorias de base do Grêmio. Antes de ir morar na concentração, ele bateu o pé com os diretores da base gremista para que pudesse levar mais lanche para casa. Com a mesma insistência que tinha em campo, conseguiu.

O fim do período das vacas magras veio logo quando subiu para o profissional do Grêmio, fechou o seu primeiro contrato mais lucrativo e ajudou efetivamente sua mãe, ao comprar uma casa mais espaçosa. No tricolor gaúcho, Tinga foi um dos grandes nomes na conquista da Copa do Brasil de 2001 e da grande campanha na Libertadores de 2002, em que o clube parou na semifinal. Mas foi no ano seguinte que Tinga vivenciou um verdadeiro gol de placa, feito por dona Nadir.

O exemplo vindo de casa

“Era 2003 e uma vez eu estava treinando no Olímpico quando me chamaram e disseram que o meu pai estava me esperando. Fui ver e era ele mesmo. Ele tinha ido de carro, andou na contramão, fez a maior confusão. Estava mal da cabeça e precisava de ajuda, tinha se separado da outra família. Botei para morar na minha casa e ele ficava com a minha mulher enquanto eu ia treinar ou jogar, só que minha esposa estava grávida e aquela situação ficou terrível”, revelou o ex-jogador.

“A coisa estava tão ruim que me ligarem de um banco dizendo que o meu pai esteve lá querendo comprar uma vaca. Totalmente fora da casinha. E eu pensando: “O que vou fazer?”. Em campo tudo péssimo, o Grêmio brigando para não cair. Liguei para mãe, porque eu tinha comprado uma casa maior para ela. Ela disse: “Meu filho, não tem problema, pode trazer ele para cá que eu cuido dele, você vai jogar bola”. Aquilo me emocionou muito, porque 20 anos depois de ser abandonada, minha mãe tava recebendo de novo o meu pai e mostrando que pagando na mesma moeda a gente não vai a lugar algum”, emocionou-se Tinga.

Orgulhoso, Tinga conta que o seu pai se recuperou e voltou a ter sua rotina. Após sair do Grêmio, o ex-volante jogou no Sporting, de Portugal, antes de brilhar no Inter de 2005 a 2006 – clube que voltaria entre 2010 e 2012 depois de um período no Dortmund, da Alemanha. Encerrou sua carreira em 2015 tendo participado do bicampeonato brasileiro do Cruzeiro, nos dois anos anteriores. Tinga, em nenhum desses momentos, esqueceu-se dos ensinamentos de dona Nadir e, por isso, hoje é um homem feliz.



Jornalista formado pela PUCRS em agosto de 2014. Fã de esportes, sobretudo tênis. Colorado por paixão, jornalista por vocação e tenista por opção.