OPINIÃO: Afinal de contas, qual é a do Bandeira de Mello?

Crédito da foto: Reprodução / CBF TV

Todos nós acompanhamos a divulgação da lista de convocados da Seleção Brasileira para a disputa da Copa América Centenário, nos Estados Unidos. No entanto, a presença de uma pessoa em especial chamou a atenção (e dividiu as opiniões) de todos os presentes na sede da Confederação Brasileira de Futebol, no Rio de Janeiro. Eduardo Bandeira de Mello, presidente do Flamengo, um dos mais ferrenhos adversários da CBF e das Federações Estaduais nos últimos meses, sentava-se entre o técnico Dunga e o Coordenador Geral de Seleções, Gilmar Rinaldi, durante a entrevista coletiva. O dirigente havia aceito o convite da entidade para ser o chefe da delegação brasileira nos Estados Unidos. A atitude gerou controvérsias e desconforto entre os aliados, dentro e fora do Flamengo. Afinal, será que alguém pode explicar qual é a do Bandeira de Mello???

Leia mais ~> Bandeira explica motivo de ter aceitado convite da CBF e garante Muricy no Flamengo

Bom, vamos organizar as coisas. É preciso reconhecer que, mais do que qualquer nome da lista de Dunga, a nomeação de Bandeira de Mello foi a surpresa da convocação da Seleção Brasileira. Os aliados na direção do Flamengo e na Primeira Liga estranharam a postura do dirigente que, por sua vez, não viu nenhuma contradição no fato de ter aceitado a chefia da delegação brasileira nos Estados Unidos durante a Copa América Centenário e a sua postura mais combativa nos últimos meses.

“Não vejo conflito com o que penso. Entendi como uma premiação. O presidente Marco Polo Del Nero mesmo citou isso. Ele disse que era um reconhecimento à minha atuação como dirigente e pelo que o Flamengo defende em termos de melhorias, modernidade e transparência. O que o Flamengo vem empreendendo de mudanças é um exemplo para todos. E o convite não vai mudar minha posição. As nossas posições são conhecidas e imutáveis. Seguirei defendendo o que acredito e combatendo o que não concordo aqui (na CBF). O que o Flamengo faz não tem volta. A gente já vinha trabalhando junto à CBF na agenda de mudanças, tentando trazer nossa contribuição. Existe o movimento na CBF neste sentido também, com grupos de trabalho, esforço pela transparência e boa governança. Entendemos que a CBF sofra pressão do outro lado também, de pessoas e entidades que não comungam das nossas ideias. Entendi o convite como uma sinalização de que o Flamengo está no caminho certo.”

Ao mesmo tempo, a tal “Bandeira Branca” hasteada pelo presidente do Flamengo surpreendeu até mesmo os seus correligionários. De acordo com matéria publicada no GloboEsporte.com, o “sim” de Bandeira de Mello à CBF gerou um certo desconforto na diretoria rubro-negra que entende que o clube pode sair perdendo na discussão com a entidade e a Federação do Rio com essa aproximação. Sócios e conselheiros do Fla evitam falar do assunto, mas esperam que o presidente rubro-negro explique a sua decisão nas próximas reuniões do clube. De qualquer maneira, a confusão já está formada…

Leia mais ~> OPINIÃO: Procura-se o Flamengo

Antes de mais nada, é preciso reconhecer e aplaudir qualquer tentativa de reaproximação e diálogo. Ainda mais num ambiente tão desgastado (usando um termo mais “leve”) como o futebol brasileiro. As instituições passam por uma séria crise de credibilidade com acusações de corrupção e armações das mais variadas. Ao mesmo tempo, os clubes (sempre os que mais sofrem com o “sistema”) acabam se vendo reféns das Federações Estaduais e da CBF, já que são quase sempre sufocados pelos extensos e confusos regulamentos e pelos interesses de quem dá as ordens no futebol brasileiro. Entretanto, ainda não consigo ver essa “aproximação” de Bandeira de Mello com a CBF como algo que possa ser considerado “benéfico”. Tanto para o Flamengo como para o movimento de clubes iniciado pelo próprio dirigente ainda no ano passado contra os desmandos de quem “comanda” o futebol brasileiro. Que os torcedores rubro-negros me perdoem. Mas ainda existe muita coisa mal explicada nessa história…

Vamos relembrar os fatos… No início de 2016, eu e você vimos Eduardo Bandeira de Mello bater de frente com a Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro e a CBF por causa da criação da Primeira Liga. Houve a ameaça de jogar o Campeonato Carioca com uma equipe alternativa, ameaça de abandono do Brasileirão e protestos nas redes sociais. Do outro lado, a retaliação foi forte, com a FFERJ baixando normas e regulamentos e com a TV Globo relembrando o contrato assinado pelo próprio Flamengo que garantia a escalação da equipe titular. A briga seguiu (inclusive com envolvimento do Ministério do Esporte) até que as entidades cederam e a Copa da Primeira Liga pôde ser disputada pelos clubes “revoltosos”.

Por outro lado, a impressão de “vitória” acabou em pouco tempo. Ao mesmo tempo em que o Flamengo ia disputando as partidas do Campeonato Carioca com quase todos os titulares à disposição, a tão sonhada Copa da Primeira Liga ia perdendo importância. Datas espaçadas, planejamento deficitário e escolhas questionáveis foram a marca da competição vencida pelo Fluminense dentro de campo com todos os méritos. E para a surpresa de todos nós, Bandeira de Mello e Rubens Lopes (presidente da FFERJ) de repente pararam com as brigas públicas. E o dirigente rubro-negro, que antes cobrava uma “modernização” do futebol brasileiro, aceitou o convite da CBF, um dos grandes alvos das suas críticas.

Leia mais ~> Torcida do Fortaleza usou foto de Eurico Miranda contra o Flamengo

Vale lembrar que o posto de chefe de delegação é um cargo meramente político. O dirigente funciona muito mais como uma espécie de ASPONE do que propriamente como alguém que tem algum poder de decisão dentro da Seleção Brasileira. E é aí que está o X da questão. Por que Bandeira de Mello aceitou o convite? Existe uma reaproximação com a CBF? Já aconteceram tentativas de diálogo? E se elas já aconteceram, por que conselheiros e torcedores não foram comunicados previamente? E será mesmo que o convite da CBF é uma “homenagem” a tudo que o Flamengo representa? O que mudou no Corinthians depois que Andrés Sanchez chefiou a delegação na Copa do Mundo de 2010? Qual é a verdadeira intenção da CBF em convidar Eduardo Bandeira de Mello para chefiar a delegação brasileira na Copa América Centenário?

São muitas perguntas sem resposta. E mesmo com todos os acertos à frente do Mais Querido (e não foram poucos não), Bandeira de Mello coloca um ponto de interrogação na sua gestão ao se “reaproximar” da CBF sem ao menos consultar seus aliados no clube. Por melhor presidente que seja, ele não governa sozinho. E precisa sim dar satisfação aos milhões de torcedores rubro-negros que enxergam nesse convite tudo menos a “sinalização por parte da CBF de que o Flamengo está no caminho certo”.

Espero sinceramente que Bandeira de Mello mantenha a mesma postura depois da Copa América Centenário e siga com a sua coerência na cobrança por mudanças na maneira como o futebol brasileiro é comandado. Por outro lado, diante de tudo o que eu já vi na minha vida (dentre Marins, Ricardos e Marco Pólos), não vou me surpreender nem um pouco se o presidente rubro-negro repentinamente mudar de opinião sobre a CBF depois do seu retorno dos Estados Unidos. A conferir.

Enquanto isso, a torcida rubro-negra segue esperando pelo tal “ano mágico” do Flamengo…



Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.