De atleta a cartola, João Havelange completa 100 anos cercado por glórias e escândalos

Crédito da foto: José Cruz / Agência Brasil

“Quando eu era presidente da Fifa, choviam telegramas e presentes. Agora todos sumiram”. A frase à Revista Istó É mostrava, já em 2004, os lados antagônicos de Jean-Marie Faustin Goedefroid de Havelange. Da glória ao ostracismo forçado por escândalos de corrupção, os 100 anos de João Havelange misturam sucesso, poder e um nome marcado – para o bem e para o mal – no esporte brasileiro.

Havelange, o atleta

Desde jovem, Havelange foi ligado aos esportes. Em 1936, competiu como nadador nas Olímpiadas de Berlin, participando das provas de 400 e 1500 metros, nado livre, sendo eliminado ainda na primeira fase. Durante os 21 dias da viagem de navio até a capital da Alemanha, foi montada “uma piscina de lona foi improvisada. Isso não facilitava o treinamento, nos prejudicando no aspecto físico”, disse em entrevista à revista Aventuras na História.

Sua segunda Olimpíada também foi dentro d’água, mas em outro esporte: em Helsinque (1952), sentiu de perto os efeitos da Guerra Fria, jogando polo aquático – a seleção perdeu as partidas para Bélgica, Espanha e África do Sul. Ainda no “futebol dentro da água”, conseguiu a medalha de bronze nos Jogos Pan-Americanos da Cidade do México, em 1955.

Havelange, o cartola da CDB, do COI e da FIFA

Com a experiência adquirida em mais de 20 anos como atleta, Havelange tornou-se vice-presidente da Confederação Brasileira de Desportos (CBD), passando, em 1956, ao comando da entidade, que regia 24 esportes, dentre eles o futebol – que em sua gestão se consagraria tricampeão mundial. Quase 10 anos depois, ingressou no Comitê Olímpico Internacional (COI), aumentando sua influência política nos órgãos de maior poder no esporte.

Dessa forma, foi eleito, em 1974, o primeiro presidente não europeu da entidade máxima do futebol, a  Fifa. Sua gestão foi marcada pela estruturação e ampliação dos domínios da associação, que saltou, até 1998, de 146 para 196 nações afiliadas.

Marca maior em sua trajetória como dirigente, profissionalizou a administração do esporte, tornando-o rentável. “A Fifa tem mais filiadas que a ONU tem de nações, o que demonstra a força do futebol, com uma penetração positiva, valiosa e desejada”, avalia, ainda em entrevista a Revista Aventuras na História. A Copa do Mundo cresceu em status e em importância, dobrando o número de seleções (de 16 para 32) e aumentando o número de datas (de 25 para 30). Em entrevista ao site Esporte Essencial, afirmou que “administrar não é jogar futebol. A gente tem que aprender a administrar para poder ocupar os postos”.

Havelange, o acusado de corrupção

Já aposentado da cartolagem, se viu envolvido no maior escândalo de corrupção da Fifa. O relatório divulgado pelo próprio órgão, em 2013, afirma categoricamente que não apenas o decano do COI, mas também seu sucessor na CBD/CBF, Ricardo Teixeira, haviam recebido propinas milionárias da ISL, empresa de marketing esportivo, entre 1992 e 2000.

Especula-se que os dois empresários teriam recebido R$ 45 milhões em subornos para facilitar a assinatura de contratos com a ISL. Alguns dias antes da divulgação do documento, Havelange renunciou ao cargo de Presidente de Honra da Fifa, manchando, para sempre, sua trajetória no esporte.

De herói a vilão. De administrador bem sucedido a acusado de corrupção. De transformador da estrutura do futebol mundial a relegado ao esquecimento. O centenário João Havelange equilibra uma rica história de vida, digna das mais completas biografias, com a sombra daqueles que sucumbiram às tentações do poder.



Mídias Sociais da AS Roma Brasil, MBA em Gestão Estratégica de Negócios, blogueiro desde 2007 e radialista amador. Escreve sobre futebol italiano, automobilismo e o que aparecer, mas gosta mesmo é de contar boas histórias