Brasileiro ídolo na Dinamarca chamou atenção dos chineses e hoje brilha ao lado de Zizao

24 de maio de 2015. Nessa data, há pouco menos de um ano, um brasileiro brilhava em territórios escandinavos com dois dribles fantásticos. Fintas tipicas de um brasileiro nato e que cresceu jogando futebol nas ruas de Porto Alegre. No dia seguinte seu nome estava nos principais jornais europeus com grandes índices de compartilhamentos. Bruno Anderson Sabino da Silva, mais conhecido como Bruninho foi revelado pelo Lajeadense-RS e passou por alguns clubes do Brasil, mas precisou sair do país para mostrar que aquele jeito ousado de jogar futebol era encantador.

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Bruninho atualmente joga no Guangzhou R&F e já passou por Caxias-RS, Nacional-AM, Passo Fundo-RS e Ponte Preta. Na Europa, jogou no Vitória de Setúbal-POR, mas mal sabia ele que seria em países que não tinham a língua portuguesa que ele iria crescer no futebol. Em Portugal, o atacante recebeu uma proposta para jogar pelo Koge, da Dinamarca, em 2014, e ali trilharia o verdadeiro sonho que todo garoto tem de brilhar no continente europeu.

Na época, o Koge disputava a segundona do país, mas isso não foi problema para Bruninho. Foi com duas canetas fantásticas que o brasileiro foi destaque na Inglaterra, Itália, Espanha, França, Áustria entre outros países. Com dois movimentos de futsal, o atacante conseguiu passar a bola por baixo da perna de dois jogadores do Vendyssel (veja o vídeo abaixo), onde não só a imprensa, mas seus companheiros ficaram maravilhados com o lance.

Depois desse lance muita coisa mudou. Lembro que chegava para treinar e meus companheiros mostravam onde apareceu o lance. Isso é muito gratificante, não esperava tanta repercussão. Alguns meios de comunicação também me ligaram para marcar entrevistas, foi bem legal“, conta Bruninho ao Torcedores.com. 

Se hoje Bruninho desfila sua habilidade no país mais brasileiro dos últimos meses, a China, não é só por causa do Koge, clube no qual jogou 33 jogos e marcou 12 gols. Após seu belo trabalho na modesta equipe, o jogador foi para o Nordsjaelland, também da Dinamarca, e deu continuidade em sua boa fase, só que agora na elite do país. Por lá se tornou ídolo, onde já foi o melhor jogador do mês, liderou artilharia do campeonato e a consequência disso é que ele poderia ter saído e desfilado seus dribles em outros países, mas sua alta multa impediu que isso acontecesse.

Tive algumas propostas sim, não dos grandes europeus, mas de times com tradição. Por conta da multa rescisória, os negócios não fecharam“, lamenta.

Em seus últimos dias como jogador do Nordsjaelland, Bruninho veio para o Brasil passar as festividades de fim de ano. O que era para ser um momento de alegria em rever seus familiares e amigos, se tornou em clima desesperador ao passar por dois sequestros-relâmpagos em menos de 15 dias, sendo um deles na presença de sua esposa e filho.

“Esse foi um fato muito triste que aconteceu na minha vida e espero nunca mais passar por isso. Na verdade não gosto nem de lembrar, mexeu muito comigo, pensei em voltar para Dinamarca no outro dia”, relembra.

Em janeiro de 2016 a China tirou cinco dos principais jogadores do Brasil (Jadson, Renato Augusto, Ralf, Luis Fabiano e Geuvânio) e por pouco não levou Elias. Mas engana-se quem pensa que os chineses estavam com os olhos apenas no país tropical. O Guangzhou R&F comprou o brasileiro por 2,5 milhões de euros, proposta que foi irrecusável para o atacante e para o Nordsjaelland.

Bruninho e zizao
Bruninho (primeiro do lado direito) e Zizao (primeiro do lado esquerdo)

A diretoria (do Guangzhou) acompanhava o futebol dinamarquês e pediram a ajuda de um empresário chinês (para contratá-lo). Fizeram a proposta pro clube, deu tudo certo e hoje estou aqui… Porque o negócio foi bom para todas as partes envolvidas e isso foi o que mais pesou na hora da decisão“, explica Bruninho.

Ao chegar no Guangzhou R&F, Bruninho encontrou seu compatriota Renatinho, ex-Ponte Preta. Mas ele não sabia que seria companheiro era de um chinês bem famoso no Brasil, o ex-corintiano Chen Zizao (Chen Zhi Zhao – nome correto). O camisa 10 destaca que o ex-xodó da torcida corintiana tem um bom relacionamento e mostra que não esqueceu da língua portuguesa.

O Chen Zhi Zhao é um cara tranquilo. Conversamos sempre, sobre muitas coisas. Ele ainda consegue falar um pouco de português. Não sei dizer como ele é visto pelo grupo, porque a grande maioria não fala inglês, então fica difícil de saber qualquer coisa do que eles pensam“, revela.

Foto: Getty Images – Paulinho sendo marcado por Bruninho no clássico de Guangzhou

No primeiro dia de abril, Bruninho disputou o clássico da cidade. O Guangzhou R&F enfrentou o time de Felipão, Paulinho e Ricardo Goulart e perdeu por 2 a 0.

Clássico é sempre um jogo diferente, mexe com a cabeça das pessoas, os torcedores lotam os estádios, aqui não é diferente… É sempre bom jogar contra grandes jogadores, a inspiração sempre é maior, infelizmente não saímos com a vitória, mas isso faz parte“, contou, antes de completar que se impressionou com respeito da torcida mandante.

Curioso acho que foi ver a torcida do Guangzhou Evergrande nos aplaudindo na saída do estádio depois do jogo. Alguns torcedores pediram pra tirar fotos e autógrafos“, revelou.

Veja a entrevista completa de Bruninho: 

– Você foi pra China esse ano. Como surgiu essa proposta pra você? Realmente os chineses sabem mexer, financeiramente falando, com a cabeça do jogador e o que te levou a deixar a Europa onde você era ídolo para ir para China?

Bruninho: A diretoria (do Guangzhou) acompanhava o futebol dinamarquês e pediram a ajuda de um empresário chinês (para contratá-lo). Fizeram a proposta pro clube, deu tudo certo e hoje estou aqui… Porque o negócio foi bom para todas as partes envolvidas e isso foi o que mais pesou na hora da decisão.

– Você joga no mesmo time do Zhizhao, ou Zizao, como ele é conhecido no Brasil por ter jogado no Corinthians. Como que é sua relação com ele, ele ainda tenta falar português, vocês brincam. Como ele é visto pelo elenco do Guangzhou? 

Bruninho: O Chen Zhi Zhao é um cara tranquilo. Conversamos sempre, sobre muitas coisas. Ele ainda consegue falar um pouco de português. Não sei dizer como ele é visto pelo grupo, porque a grande maioria não fala inglês, então fica difícil de saber qualquer coisa do que eles pensam

– A China também tem um cardápio exótico pela cultura. Como que você tem feito para se virar com a comida por aí?

Bruninho: A comida não é problema. O condomínio onde eu moro ele é conhecido aqui na China como o condomínio dos estrangeiros, muitos estrangeiros moram aqui, por ter tudo: restaurantes, supermercado, salão de beleza e etc… Facilita muito na hora de comprar coisas para cozinhar ou até mesmo almoçar ou jantar fora.

– As diferenças de costumes são muito grandes da Dinamarca para a China? Tem algo que você fazia na Europa que talvez não possa ai na China, por exemplo, que é um país rigoroso com leis? 

Bruninho:  Sim, muita diferença. A China é um país totalmente diferente de qualquer outro… Na Dinamarca eu podia dirigir, aqui na China eu não posso. Precisaria fazer a prova em chinês, o que é praticamente impossível.

– O principal rival do Guangzhou R&F é o time de Felipão e vocês jogaram no início do março. Conta como foi os bastidores do clássico. Questão de torcida, o clima do jogo. Como foi jogar contra o Paulinho, Ricardo Goulart, Felipão…

Bruninho: Clássico é sempre um jogo diferente, mexe com a cabeça das pessoas, os torcedores lotam os estádios, aqui não é diferente… É sempre bom jogar contra grandes jogadores, a inspiração sempre é maior, infelizmente não saímos com a vitória, mas isso faz parte.

– Nesses pouco mais de quatro meses na China, tem algum momento curioso que você viu ou passou?

Bruninho: Acho que foi ver a torcida do Guangzhou Evergrande nos aplaudindo na saída do estádio depois do jogo. Alguns torcedores até pediram pra tirar fotos e autógrafos.

– Você já havia passado por alguns clubes do Brasil e não se firmado. Passou também por Portugal. Mas foi para Dinamarca, virou ídolo e chamou atenção por seus dribles. Você viu que era uma oportunidade de ouro a sua ida para a Europa?

capas dribles
Capas do Marca-ESP, Mirror-ING, Football-FRA, FootMarcato-FRA, Kleine Zeitung-AUS

Bruninho: Sim, sempre encaro como uma oportunidade de ouro, ainda mais sendo para Europa. Eu sabia que fazendo um bom campeonato lá, minha vida poderia mudar.

– Como foram seus dias seguintes após aquelas duas canetas seguidas? Você foi muito procurado por causa da repercussão desses dribles quando jogava no Koge?

Bruninho: Depois desse lance muita coisa mudou. Lembro que chegava para treinar e meus companheiros mostravam onde apareceu o lance. Isso é muito gratificante, não esperava tanta repercussão. Alguns meios de comunicação também me ligaram para marcar entrevistas, foi bem legal.

– Você atuou muito bem na Dinamarca. Chegou a liderar a artilharia e ser o melhor jogador do mês. Nenhum grande clube europeu se interessou pelo seu futebol?

Bruninho: Tive algumas propostas sim, não dos grandes europeus, mas de times com tradição. Por conta da multa rescisória, os negócios não fecharam.

– No fim do ano passado, você passou por um fato triste. Em menos de 15 dias, você passou por dois sequestros- relâmpago e um deles com sua família. O quanto isso mexeu e o que passou pela sua cabeça?

Bruninho:  Esse foi um fato muito triste que aconteceu na minha vida e espero nunca mais passar por isso. Na verdade não gosto nem de lembrar, mexeu muito comigo, pensei em voltar para Dinamarca no outro dia.

– Ainda quer jogar no Brasil ou prefere fazer sua carreira fora? Se sim (quer voltar) e se pudesse escolher você teria um clube de preferência?

Bruninho: Não tenho vontade de voltar agora, quero ficar mais uns anos fora do país para depois voltar. Tenho o sonho de jogar no meu time do coração, mas não posso falar qual é o time (risos).

– Jogar em um grande clube europeu, seleção brasileira… isso ainda passa pela sua cabeça?

Bruninho: Não, essas coisas nem passam pela minha cabeça.



Jornalista. Como todo torcedor também gosto de dar meus pitacos. Fã da seleção italiana, do Milan e do Arsenal.