Rivellino: ‘Torço para o Brasil não ir pra Copa na Rússia, porque aí a casa cai’

Foto: Sandro Varela/Torcedores

Roberto Rivellino é certamente um dos maiores craques que este mundo viu atuar. Campeão mundial com a Seleção Brasileira no México, em 1970, ídolo de Corinthians e Fluminense e respeitado por demais torcidas, ‘Riva” como é chamado conversou com o Torcedores.com e falou sobre o acordo do Esporte Interativo com os clubes, futebol atual, Seleção e Neymar.

O camisa 10 do selecionado nacional e jogador do Barcelona acabou ganhando um conselho do ex-atleta.

Torcedores: Rivellino, como você avalia este acordo anunciado entre Esporte Interativo e clubes?

Rivellino: Acho muito bonito, muito legal e estou feliz em acompanhar tudo isso, em ver a estrutura do Esporte Interativo, onde estou há quase nove meses e é bom ver estes presidentes querendo mudar a cara do nosso futebol. Não podemos entregar o futebol a apenas um grupo. Sabemos que quem comanda o futebol brasileiro é a Globo, que coloca o futebol nos horários absurdos de 10, 11 horas da noite. Acho que os presidentes estão de parabéns, pois estão dando um pontapé inicial para mudar isso.

É humanamente impossível para um trabalhador ir ver um jogo que começa as 10 da noite, ir para casa e as 5 da manhã já estar em pé para trabalhar, essas coisas que todos sabem. Graças a Deus entrou esse canal forte, que está dando essa abertura aos clubes e os demais tem que repensar, pois será muito bom para eles. Se tiverem peito de abraçar essa proposta como fizeram estes clubes, quem tem a ganhar é o futebol brasileiro. Precisamos ter essa condição de manter e bancar os jogadores aqui.

Torcedores: Qual na sua opinião é o melhor time do atual futebol brasileiro?

Rivellino: Está difícil (apontar um). Eu vejo o Atlético-MG. Acho o Grêmio um time bem equilibrado, no Corinthians o Tite consegue dar uma força naquele time, mas estava conversando com o Galo (Zico) no caminho para cá, ‘não vejo um time que possa dizer que ele é o melhor do país’, daquele que o campeonato começa, mostra que é forte e vai embora. Acho que novamente teremos uma disputa muito grande para ver quem cai (para a Série B).

Torcedores: Como você avalia o momento da Seleção?

Rivellino: Está tudo errado! Desde aquela vez que tomamos 7 (o fatídico 7 a 1 na Copa 2014 contra a Alemanha) era para ter uma mudança radical, fazer reunião e ver o que estava se passando, mas não fizeram e taparam o sol com a peneira novamente. Trouxeram o Dunga e nada tenho contra ele, é até meu amigo, mas quem deveria ter vindo era o Tite. Só que acharam melhor trazer esse, trouxeram o seu Gilmar, que era empresário e deixou de ser, além de ser amigo do Del Nero…

A gente sabe que foram convidar o Tite e ele está certo de não aceitar o convite. Na hora que ele estava esperando ser convidado, que era direito dele ir, não foi, agora que o barco está afundando pergunto: ‘Porque agora?’ Está tudo errado e estou torcendo para o Brasil não se classificar (para a Rússia 2018), porque aí a casa cai por completo. Tem de rever nosso futebol, voltar às nossas raízes e origens, pois estamos fugindo disso. Ver o que tem de errado, corrigir a base, a criação, voltar a maneira de jogar do nosso futebol, que sempre foi criativa e buscar o jogador diferenciado que hoje você não vê mais.

Torcedores: O que dizer do time que não tem apresentado nada consistente nestas eliminatórias?

Rivellino: Temos time? Não temos time! Qual é o time titular da Seleção Brasileira? Você não sabe. De pensar que o próximo jogo (pelas eliminatórias) será daqui a cinco meses. No último jogo ele tirou Fernandinho e Luiz Gustavo e fomos buscar o empate e parecia que tínhamos ganho um título pela forma que comemoramos o empate. Imagina a cabeça do Dunga. Será que se tivéssemos um jogo daqui a três, quatro dias, ele colocaria os dois no time novamente? Até isso ia mudar. Não vemos nessa seleção uma cara de time. O que vemos é o Neymar pegar a bola, driblar três e resolve… Isso é muito pouco.

Torcedores: Digamos que Neymar estivesse passando por aqui agora e você pudesse dar um conselho a ele, qual seria?

Rivellino: Primeiro que o foco dele tem que ser jogar futebol. Deus deu a ele um dom que não pode largar e desprezar. Ele não tem o perfil de ser capitão. Ele é escolhido porque é o melhor jogador, mas capitão tem outro perfil. Ele tinha que chegar no Dunga e dizer: ‘Prefiro jogar, não quero ser capitão. Em vez de reclamar com meu companheiro, reclamar com o juiz, eu quero jogar meu futebol’. Pelé durante sua vida toda nunca foi capitão, porque sua preocupação era jogar futebol e ele o fez como ninguém no mundo. Esse tinha que ser o foco do Neymar. Quando achar que tem que driblar, dribla, quando achar que tem que chutar, chuta e fazer como faz no Barcelona. Tem que ser inteligente. Existe nele essa preocupação de toda hora ter que resolver algum problema e isso aí está atrapalhando ele.