Paysandu na terra do Robin Hood: um dia em Nottingham (Forest)

Joinville x Paysandu
Crédito da foto: Reprodução/ Facebook oficial do Paysandu

Robin Hood, aquele que roubava dos ricos e dava para os pobres, vivia, reza a lenda, em Nottingham (ING) no tempo das cruzadas, e na floresta de Sherwood fazia suas estripulias contra os poderosos, e ate hoje é celebrado pelos ingleses como um herói. Quase todo o turismo e atrações dessa cidade remetem a ele, mas não foi isso que me levou a pegar um ônibus de mais de três horas partindo de Manchester, e sim o Nottigham Forest FC, um dos clubes mais tradicionais da Inglaterra.

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Com 150 anos de existência, a equipe tem muitas histórias para contar, muitos títulos e, assim como os bicolores, também disputam atualmente a segunda divisão. Na década de 70 e 80, a equipe tornou-se mundialmente conhecida por, sob o domínio do treinador Brian Clough, conquistar, dentre outros títulos, duas ligas dos campeões (79 e 80), um mundial (80), uma supercopa europeia (79) e um campeonato inglês (78).

No lado do Paysandu também existem grandes conquistas, principalmente no inicio dos anos 2000, como uma Copa dos Campeões, duas Serie B, primeiro lugar na chave da Libertadores e, claro, a vitória sobre o Boca em La Bombonera. Isso sem falar nas “peias” que dava em cima de várias grandes equipes no período de 2002 a 2005, quando disputou a Serie A pela ultima vez. Evidente que a comparação não pode ser levada ao pé da letra, pois são realidades completamente diferentes as de um time brasileiro e equipe inglesa, mas as semelhanças devem ser ressaltadas. Como ambos os times possuírem sedes longe dos grandes centros, e lutarem “contra tudo e contra todos” nos períodos de grandes conquistas, com a grande mídia quase sempre favorecendo outros clubes.

O memorável time composto por Robgol, Ronaldo, Vandick e muitos outros que passaram pela Curuzú há pouco mais de uma década fez historia, com a fiel bicolor lotando quase todos os jogos numa festa inesquecível para seus torcedores. Lembro quando fui assistir ao jogo contra o São Paulo pelo Brasileirão 2003 e ate hoje me lembro da magnifica atuação do time, que fez 5 a 2 com uma autoridade impressionante. Robgol deixou Rogerio Ceni no chão por 3 oportunidades naquela noite, só para citar um dos muitos jogos marcantes.

E isso tudo sendo da região Norte, ha muitos km de distancia de RJ e SP, fazendo o restante das equipes da Serie A serem obrigadas a realizarem longos deslocamentos só para enfrentar os paraenses em Belém. Claro que esse sucesso todo de um time nortista não agradava aos “poderosos”, e cansei de ver nesse período o time sofrer com erros absurdos da arbitragem em vários jogos, que dão margem a diversas especulações, e mesmo assim mantendo-se entre os melhores. “Vi em vários jogos da Serie A que ‘metiam a mão’ em nos (PSC), mas aquele elenco era fantástico, praticamente imbatível no Mangueirão”, relembra o torcedor Caio Nogueira.

Com o Forest a situação é parecida. Ouvi vários relatos de torcedores afirmando que “eles (grandes clubes, dirigentes da FA) sempre foram contra nós”, como disse (o ainda) indignado torcedor Michael Shrol, fan do Forest por mais de quatro décadas. “Fomos para o céu (Champions League), depois fomos para o inferno (divisões menores) e agora estamos no purgatório (período atual)”, exagera Shrol. Dentro de campo, no bonito City Ground praticamente lotado (30.000), vi um time muito ruim jogando, no assento mais próximo possível do gramado. A torcida aflita viu o modesto Bristol City, que luta contra o rebaixamento, fazer dois a um, e praticamente sepultar as chances do time da casa na classificação para os playoffs da Premier League.

 Mas a equipe vem com um plano de reestruturação para a temporada seguinte, quando planejam de fato voltar a primeira divisão. Em 2013, o clube foi comprado por Fawaz Al-Hasawi, que começou a investir pesado no clube. “Acreditamos (torcedores) num futuro melhor, com investimentos, para a volta das grandes conquistas em breve”, acredita Deny Long, torcedor que não acompanhou o período glorioso da Champions League. “Não tinha nem nascido naquela época, mas espero ver isso o quanto antes novamente!”, acredita. Logo que chegou a Nottingham, Fawaz prometeu “um Forest grande para as novas gerações”, e mesmo com os resultados não vindo, conta com o apoio da maioria da torcida.

Confiantes no futuro também estão os bicolores, principalmente com a administração “pé no chão” do presidente Alberto Maia, que investe pesado no marketing e na captação de recursos para o clube. Ano passado a equipe bateu na trave na Série B, não se classificando para a primeirona com uma diferença mínima de pontos para o quarto colocado.  “Estamos dando continuidade a um trabalho muito difícil, que é de forma responsável conduzir o Paysandu Sport Club, cumprindo com as obrigações que são inerentes a uma gestão responsável, e que ressalto, são poucos clubes no futebol brasileiro que estão cumprindo com essas obrigações” disse Maia ao site oficial do clube.

Voltando ao City Ground, a impaciente torcida, que frequentemente gritava “the team plays like a shit (o time está uma m*)”, saiu indiferente do estádio, e até aplaudiu os jogadores, estes tão criticados durante os 90 minutos. O Forest está literalmente no meio da tabela, com 13 pontos do sexto colocado e hoje classificado para os playoffs da Championship Sheffield Wednesday, e 13 pontos acima do primeiro time da zona de rebaixamento, Roterham. Sempre que perguntava qual o melhor jogador do elenco para os torcedores, a reposta demorava a sair, por que de fato a atual equipe é bem limitada, e conta com o goleiro De Vries e do zagueiro Matt Mills como maiores expoentes.

 Enquanto a temporada inglesa chega perto do fim, o calendário dos bicolores só está começando, com Parazão, Copa Verde, Copa do Brasil e Série B. Dado Cavalcante e seus comandados terão muito trabalho para dar conta de tantos jogos, com o objetivo principal de ficar entre os quatro da segundona ainda este ano.

Saindo do estádio do Nottingham Forest, tive a entrada gentilmente cedida na área de imprensa do clube, e consegui bater fotos com os jogadores Hills e Cohen com a camisa do Paysandu, e ainda achei o atacante Charles, do Bristol City, que tentou dizer em bom “gringuês”, “Paysandu Campeão dos Campeões (no final do vídeo completo abaixo, após a matéria)”. Bati também fotos com um grupo de torcedores mirins que ficaram encantados com a beleza da vestimenta alvi-celeste.

No caminho do hotel, admirei o City Ground de longe, na ponte que corta o rio Trent, e me perguntei como este clube, que fica literalmente “no meio do nada” (cidade tem apenas 160 mil habitantes), longe dos grandes polos industriais e econômicos do país, conseguiu tantos feitos importantes, e até hoje consegue levar mais de 25 mil torcedores por partida, faça chuva ou faça chuva (São Pedro não perdoa a Inglaterra nesse sentido).

Me lembrei do Paysandu, em como fui privilegiado de acompanhar dentro do estádio vários jogos no Mangueirão e Curuzú, no talvez melhor período da história da agremiação. O Mangueirão tremendo, parecendo que ia desabar, ainda permanece vivo na minha memória, com a Fiel frequentemente apoiando time mesmo em situações não tão gloriosas. Quando fui na Argentina, me espantei com o numero de “hermanos” que conheciam os bicolores, e o mesmo se repete com os brasileiros aqui na europa.

Dificil mesmo não reconhecer um time com tantos bons jogadores em sua história, capaz de até hoje ser lembrado por Milton Neves quase todos os domingos no Terceiro Tempo da Band, e os jogos do clube ser parada obrigatória para quase todo turista, que gosta de futebol, ao visitar a capital paraense. Assim como o Nottigham Forest é um dos ícones da cultura local ao lado de Robin Hood, o Paysandu também pode ser considerado um dos patrimônios da cidade de Belém, ao lado das comidas típicas e da rica cultura Papa-xibé. PSC e o rival local possuem as torcidas mais apaixonadas e fieis do Brasil, e posso dizer por experiência própria, por ter acompanhado várias partidas pelo Brasil e exterior, que até hoje vi poucas mais fanáticas dentro de um estádio.

Mas é claro que equipes como Forest e Paysandu, que foram para o ponto máximo de suas forças, os períodos de baixa ou “purgatório”, como disse o torcedor inglês, podem ser muito mais dolorosos do que para aficionados de equipes que nunca sentiram esse gostinho antes. E no imaginário de bretões e paraenses, a esperança da volta para o topo nunca vai cessar, até ser concretizada de fato. E se depender da “fome” da atual diretoria bicolor, essa espera não será de mais de 30 anos, como em Notingham.