PAPO TÁTICO ESPECIAL: Dez anos sem Telê Santana

Crédito da foto: Divulgação / saopaulofc.net

Há exatamente dez anos atrás, o mundo do futebol se despedia de um dos seus maiores expoentes. Telê Santana da Silva, o Fio de Esperança, falecia em Belo Horizonte devido a complicações de uma infecção intestinal. É considerado até hoje um dos melhores treinadores da história do futebol brasileiro, com passagens vitoriosas pelo Atlético-MG, pelo São Paulo e pelo Palmeiras. Foi técnico da Seleção em duas Copas do Mundo. Em 1982, onde montou uma equipe que, mesmo não tendo conquistado o título, é apontada como uma das melhores de todos os tempos, e em 1986, quando foi eliminado sem sofrer uma única derrota. A coluna Papo Tático do TORCEDORES.COM presta uma singela homenagem ao Mestre Telê neste dia 21 de abril.

Telê Santana nasceu no dia 26 de julho de 1931 e começou a sua carreira atuando em clubes pequenos de Minas Gerais, mas conseguiu uma transferência para o Fluminense ainda jovem, participando da equipe juvenil do clube. Seria promovido aos profissionais em 1951 onde receberia o apelido de “Fio de Esperança” num concurso promovido por ninguém menos que o jornalista Mário Filho no Jornal dos Sports. Apesar do físico franzino, Telê mostrava uma disposição fora do comum dentro das quatro linhas, se transformando num dos primeiros pontas do mundo a recuar para ajudar o meio-campo na marcação do adversário e na criação das jogadas de ataque.

De todas as conquistas pelo Fluminense, a mais significativa delas foi, sem dúvida, a Copa Rio Internacional de 1952, um embrião da Copa Intercontinental e da Copa do Mundo de Clubes da FIFA. O Tricolor das Laranjeiras se classificou para as semifinais em primeiro lugar num grupo que tinha Sporting Lisboa, Grasshoppers da Suíça e o Peñarol do Uruguai. Após superar o Áustria Viena nas semifinais, o Fluzão conquistou o título em cima do Corinthians de Gilmar, Luizinho Cláudio e Carbone. Telê fez apenas um gol na competição, mas já mostrava a dedicação tática para ajudar o time na defesa e permitir que nomes como Orlando Pingo de Ouro, Didi e Marinho brilhassem na decisão no Maracanã.

Time do Fluminense que conquistou a Copa Rio Internacional em 1952 jogava já moribundo 2-3-5, mas já contava com a polivalência de Telê Santana voltando pela direita para armar o jogo e ajudar na defesa. Campinho feito no Tactical Pad.
Time do Fluminense que conquistou a Copa Rio Internacional em 1952 jogava já moribundo 2-3-5, mas já contava com a polivalência de Telê Santana voltando pela direita para armar o jogo e ajudar na defesa. Campinho feito no Tactical Pad.

Telê Santana permaneceu nas Laranjeiras até 1960, passando por Madureira e Guarani antes de encerrar a carreira no Vasco da Gama. O episódio em que Telê chorou após marcar o único gol do Tricolor Suburbano na derrota para o Fluminense por cinco a um ficou famoso pelo seu amor ao Fluminense. E foi lá mesmo que o “Fio de Esperança” inciou a sua carreira como treinador, conquistando o campeonato carioca de juvenis (atual categoria de juniores) em 1968. No ano seguinte, Telê Santana mostrava seu talento no banco de reservas ao formar o time do Fluminense campeão carioca de 1969 (com Félix, Flávio Minuano, Lula e Samarone) e a base da equipe que seria campeã da Taça de Prata no ano seguinte.

Apesar do sucesso com o Fluminense, ainda faltava o título nacional. E ele veio em 1971, quando Telê Santana comandou o ótimo time do Atlético-MG no Campeonato Brasileiro daquele ano, superando os favoritos São Paulo, Botafogo, Palmeiras e Santos. Um ano depois de acabar com a supremacia do Cruzeiro no Campeonato Mineiro, Telê montou uma equipe sólida na defesa (com destaque para o goleiro Renato e para a dupla de zaga formada por Vantuir e Grapete) e com grande mobilidade no ataque. O 4-2-4 daquela época se transformava facilmente num 4-3-3 com Lola se juntando a Humberto Ramos na armação das jogadas. E isso sem mencionar um certo Dadá Maravilha comandando o quarteto ofensivo em excelente fase.

O histórico Atlético-MG campeão brasileiro em 1971 era composto por uma defesa sólida e por um quarteto ofensivo mortal. Foram 39 gols em 27 partidas. Telê Santana apostou num 4-2-4 que se transformava num 4-3-3 com o recuo de Lola para junto de Humberto Ramos e levantou seu primeiro título nacional. Campinho feito através do Tactical Pad.
O histórico Atlético-MG campeão brasileiro em 1971 era composto por uma defesa sólida e por um quarteto ofensivo mortal. Foram 39 gols em 27 partidas. Telê Santana apostou num 4-2-4 que se transformava num 4-3-3 com o recuo de Lola para junto de Humberto Ramos e levantou seu primeiro título nacional. Campinho feito através do Tactical Pad.

Aquele histórico Atlético-MG teve o melhor ataque da competição (39 gols) com doze vitórias, dez empates e cinco derrotas em vinte e sete partidas, além ver o seu camisa nove (o impagável Dario “Peito de Aço”) se tornar o artilheiro do certame com 15 gols. Depois de passar por São Paulo (onde teve problemas com Toninho Guerreiro e Paraná), Botafogo e Grêmio (conquistando o título gaúcho em 1978), Telê Santana desembarcou em São Paulo, para assumir o comando técnico de um Palmeiras já órfão de Ademir da Guia e Dudu. Com muitos treinamentos táticos e jogadores de bastante qualidade, Telê promoveria uma verdadeira revolução no Parque Antártica e chegaria longe no inchado Campeonato Brasileiro de 1979.

A ideia era bastante simples. Os pontas Baroninho e Jorginho jogariam mais alinhados a Jorge Mendonça, meia-armador de origem que passaria a jogar mais próximo da área para aproveitar os chutes de loga distância. Mais atrás, Pires e Mococa faziam a proteção da zaga formada por Beto Fuscão e Polozzi e fazendo a cobertura dos ótimos Rosemiro e Pedrinho nas laterais. Foi nesse 4-3-3 (que mais lembrava um 4-2-3-1) que o Palmeiras venceu o Flamengo de Zico e Carpegiani por quatro a um em pleno Maracanã num dia 2 de dezembro de 1979. Telê Santana mostrava que já havia adquirido experiência e maturidade suficiente para vôos mais altos na sua carreira.

A goleada do Palmeiras sobre o Flamengo em 1979 é lembrada até hoje pelos torcedores alviverdes. Jorge Mendonça jogava mais avançado, se alinhando aos pontas e formando um dos primeiros 4-2-3-1 da história do futebol. O Verdão só seria superado pelo ótimo Internacional de Falcão nas semifinais do Brasileirão de 1979. Campinho feito através do Tactical Pad.
A goleada do Palmeiras sobre o Flamengo em 1979 é lembrada até hoje pelos torcedores alviverdes. Jorge Mendonça jogava mais avançado, se alinhando aos pontas e formando um dos primeiros 4-2-3-1 da história do futebol. O Verdão só seria superado pelo ótimo Internacional de Falcão nas semifinais do Brasileirão de 1979. Campinho feito através do Tactical Pad.

A vitória sobre o Flamengo de Cláudio Coutinho foi determinante para a sua chegada à Seleção Brasileira. No dia 12 de fevereiro de 1980, Telê Santana era anunciado pelo então presidente da CBF, Giulitte Coutinho, como o novo treinador do escrete canarinho. E não fez feio. Implantou um esquema de jogo baseado no toque de bola e num futebol bonito e envolvente que marcou época. Os resultados falavam por si só. Até a Copa do Mundo de 1982, na Espanha, o Brasil sofrera apenas duas derrotas: uma contra a União Soviética, no Maracanã, e outra contra o Uruguai, na final do Mundialito de 1980. Tomando o Flamengo e o Atlético-MG como base, aquela Seleção Brasileira encantaria o mundo pela maneira com a qual tratava a bola.

Telê Santana conseguiu juntar talentos como Júnior, Leandro, Falcão, Sócrates, Zico e Toninho Cerezo numa equipe que privilegiava o ataque. Até demais, na visão de alguns. Apesar do belíssimo futebol e do encantamento de boa parte da imprensa esportiva, havia quem enxergasse problemas. João Saldanha via a defesa exposta e o personagem “Zé da Galera”, criado por Jô Soares, entoava o bordão: “BOTA PONTA, TELÊ”. Realmente faltava quem ocupasse o lado direito, setor explorado pela Itália na fatídica Tragédia do Sarriá, quando aquela histórica Seleção Brasileira era superada pela não menos competente Itália de Paolo Rossi, Bruno Conti, Gaetano Scirea e vários outros excelentes jogadores.

Aquela histórica Seleção Brasileira jogava numa espécie de 4-2-2-2, com Toninho Cerezo, Falcão, Zico e Sócrates formando o "quadrado mágico". Faltva alguém pela direita e a equipe sucumbiu diante da Itália na Tragédia do Sarriá. Campinho feito através do Tactical Pad.
Aquela histórica Seleção Brasileira jogava numa espécie de 4-2-2-2, com Toninho Cerezo, Falcão, Zico e Sócrates formando o “quadrado mágico”. Faltva alguém pela direita e a equipe sucumbiu diante da Itália na Tragédia do Sarriá. Campinho feito através do Tactical Pad.

Depois de uma passagem pelo futebol da Arábia Saudita, Telê Santana ainda voltaria para a Seleção Brasileira, comandando um time um tanto mais pragmático na Copa do Mundo de 1986, no México, com nomes como Elzo, Alemão, Josimar e Careca. A eliminação viria apenas nos pênaltis, contra a França, junto com a fama de “pé frio”. Ainda passaria por Flamengo, Atlético-MG e Fluminense antes de chegar ao São Paulo, em 1990. E foi no Morumbi que Telê Santana mostrou todo o seu talento como treinador, comandando o Tricolor Paulista nas campanhas históricas do título brasileiro de 1991 e do bicampeonato da Copa Libertadores da América e do Mundial Interclubes em 1992 e 1993.

Mesmo com as históricas vitórias em cima do Barcelona e do Milan, a atuação perfeita aquele histórico São Paulo veio na decisão da Libertadores de 1993, diante da Universidad Católica. Telê Santana armou o São Paulo num 4-2-3-1 sem centroavante fixo. Müller saía do meio para a esquerda e abria espaços para as chegadas de Raí (no auge da sua forma física) e Palhinha. Cafu (ainda jogando no meio-campo) voava pela direita. Assim como os laterais Vítor e Ronaldo Luiz. Até mesmo os zagueiros Válber e Gilmar atacavam, já que contavam com a cobertura precisa dos volantes Pintado e Dinho. A goleada por cinco a um no primeiro jogo da final (o placar mais elástico de uma final de Libertadores em toda a história da competição) é uma das provas da superioridade daquele São Paulo.

O São Paulo atropelou a Universidad Católica no Morumbi atuando num 4-2-3-1 que liberava laterais e zagueiros para o ataque e contava com a polivalência de Müller, Raí e Palhinha. Uma das melhores equipes de Telê Santana. Campinho feito no Tactical Pad.
O São Paulo atropelou a Universidad Católica no Morumbi atuando num 4-2-3-1 que liberava laterais e zagueiros para o ataque e contava com a polivalência de Müller, Raí e Palhinha. Uma das melhores equipes de Telê Santana. Campinho feito no Tactical Pad.

Telê Santana ainda permaneceria no Morumbi por mais três anos, antes de se afastar dos gramados e do banco de reservas por causa de uma isquemia cerebral que o deixou bastante debilitado. Tentou voltar aos trabalhos em 1997, no Palmeiras, mas a saúde não permitiu. Telê Santana da Silva viria a falecer no dia 21 de abril de 2006, por complicações de uma infecção intestinal, deixando um enorme legado para o futebol brasileiro. Chegou a ser considerado o melhor treinador do mundo por duas vezes seguidas (1992 e 1993) em eleição promovida pelo jornal uruguaio El País. Não por acaso, o “Fio de Esperança” é apontado por muitos como um dos melhores técnicos da história do futebol brasileiro.

Em tempos de 7 a 1, das chuteiras coloridas, dos penteados esquisitos, dos treinadores engomadinhos à beira do gramado e das “selfies” na concentração, uma figura como Telê Santana da Silva faz muita falta por aqui. O “Fio de Esperança” mostrou que o “velho e rude esporte bretão” deve sim ser jogado com alegria e com descontração, mas sem perder o foco principal, que é o gol. A história do “Fio de Esperança” fala por si só. Vale lembrar o episódio em que disse que o time do São Paulo campeão mundial em 2005 era tão bom quanto a equipe dos anos 1990, num gesto de desprendimento e humildade.

Precisamos de mais pessoas como Telê Santana no futebol… #ObrigadoTelê



Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.