Os Gaviões da Fiel levaram ao Vale do Anhangabaú a festa que não podem fazer nas arquibancadas

Crédito da foto: Guilherme Santana/VICE

Rojões, bandeirões, bateria, sinalizadores de fumaça (não o sinalizador naval que matou um estudante boliviano como insistem em comparar) e outras pirotecnias encheram o Vale do Anhangabaú no início da noite desta sexta-feira (15). No que seria uma reedição de um protesto de 11 de novembro de 1997, período também conturbado para as organizadas, os Gaviões da Fiel levaram, além da enorme bandeira no formato da camisa da torcida, pelo menos cinco mil pessoas ao centro de São Paulo. Enquanto o chão tremia, cervejas eram vendidas por quatro reais e dois latões por 10 reais mediante leve xaveco no vendedor ambulante.

O protesto convocado pelo Facebook da maior torcida do Corinthians levantou pautas já frequentes nos gritos e faixas da organizada dentro e fora de campo. A lista de reivindicações pede a transparência da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e da Federação Paulista de Futebol (FPF), questiona o preço dos ingressos, pede o fim das partidas às 22h, exige prestação das contas do estádio do corintiano e o já clássico pedido pela CPI da merenda, investigação em que o nome de Fernando Capez, presidente da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo e antigo inimigo das organizadas, é citado.


Muita pirotecnia no protesto do Anhangabaú. Foto: Guilherme Santana/VICE

Além de todas essas pautas, um novo item entrou na lista de protestos dos Gaviões. O “repúdio à medida autoritária de torcida única, pelo diálogo e medidas preventivas efetivas para acabar com a violência”. Tal ação aconteceu depois das brigas entre torcedores de Corinthians e Palmeiras no dia 3 de outubro. Não dá para falar pelos promotores do Ministério Público de São Paulo, mas colocar apenas uma das torcidas no estádio, convenhamos, não parece uma medida eficiente para coibir a violência que acontece nas periferias da cidade e em horários distantes do jogo.

O assunto mais comentado no carro de som, porém, não estava anunciado com antecedência. O fechamento da sede da torcida, no bairro do Bom Retiro, e a prisão de membros dos Gaviões da Fiel na manhã da sexta-feira. A Operação Cartão Vermelho cumpriu 68 ordens judiciais, 37 mandados de prisão e 31 de busca e apreensão, que fechou também a sede de outra torcida do Corinthians, a Pavilhão 9. Vinte membros de uniformizadas palmeirenses e corintianas foram apreendidos. Segundo Alexandre de Moraes, secretário de segurança pública do Estado de São Paulo, as sedes dos Gaviões da Fiel e da Pavilhão 9 não tinham O Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros. Na noite da sexta a sede dos Gaviões já tinha sido reaberta. “É chato, é covarde o que acusam a gente pela falta de base jurídica. Quando a gente erra e dá base é uma coisa, mas hoje pra nós foi covardia”, explica Wildner Rocha, o Pulguinha, liderança histórica dos Gaviões e espécie de Lula da Fiel em cima do caminhão de som.


Foto: Guilherme Santana/VICE

Ao microfone, fundadores, ex-presidentes e a atual diretoria se revezavam em discursos inflamados e puxando cantos como “eu não roubo merenda, eu não sou deputado. Trabalho todo dia, não roubo meu Estado”. Chico Malfitani, um dos fundadores da organizada em 1969, falou sobre o início dos Gaviões da Fiel e a semelhança com os acontecimentos recentes.”Parece que eu tô voltando na época da Ditadura quando nós fundamos em 69. A repressão voltou?”. (Clique e veja fotos e história completa)