Opinião: o rebaixamento do Aston Villa começou em 2010

A temporada do Aston Villa foi para esquecer
Crédito da foto: Reprodução/Twitter oficial da Premier League

Dia 9 de agosto de 2010. A data pode não dizer nada agora, mas foi nesse dia em que o Aston Villa deu o primeiro passo rumo ao rebaixamento, consumado neste sábado (16) com a derrota por 1 a 0 frente ao Manchester United.

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Nesse dia, o técnico Martin O’Neill pediu demissão do comando do Aston Villa, cinco dias antes do início da temporada 2010/2011. O anúncio foi uma surpresa, principalmente levando em consideração o desempenho do clube nas temporadas desde que o treinador norte-irlandês chegou vindo do Celtic em 2006 para substituir David O’Leary.

A chegada de Randy Lerner
A ida de O’Neill para o Villa ocorreu após Randy Lerner, estadunidense que na ocasião era dono dos Cleveland Browns, equipe de futebol americano da NFL, comprar o clube de Birmingham por 95 milhões de dólares em 2006. Lerner também assumiu uma dívida do clube no valor de 24 milhões de dólares. Além disso, o novo dono também investiu na modernização de Bodymoor Heath, centro de treinamentos do Aston Villa.

Até então, os Villans permaneciam entre a parte de baixo e o meio da tabela. O Villa ficou na 11ª colocação na primeira temporada de Martin O’Neill, mas alcançou o sexto lugar e duas classificações para a Liga Europa nas três seguintes. Com jogadores como James Milner, Ashley Young, Stewart Downing e Gareth Barry no elenco, parecia faltar pouco para o Aston Villa começar a lutar por voos mais altos, que o poderiam levar à Champions League. E o que faltava era investimento.

No entanto, Randy Lerner não pensava dessa maneira e começou a apertar os cordões à bolsa. A mudança de mentalidade já havia causado atritos entre Lerner e O’Neill no final da temporada 2009/2010, quando apareceram rumores da saída do técnico. Além disso, o Manchester City parecia determinado a contratar James Milner, mas Lerner não parecia incomodado com a situação. “Não estou preocupado em perder James Milner e acredito que ele jogará pelo Aston Villa. Ele é querido no clube e faremos todos os possíveis para mantê-lo”, disse Lerner à BBC em maio de 2010. Na mesma entrevista, também foi garantida a permanência de Martin O’Neill. “Martin estará aqui no próximo ano. Falei com ele pessoalmente e por telefone. Nos sentimos bem porque representa continuidade para os jogadores e em outras maneiras”.

Declínio
Chegou o dia 9 de agosto. Martin O’Neill pediu demissão do cargo de treinador com a temporada prestes a começar. Oito dias depois, o Manchester City anunciou a contratação de James Milner por 22 milhões de euros. O clube, que já havia perdido o capitão Gareth Barry para o City na temporada anterior, ficava sem a referência técnica do centro do campo. A medida de vender para comprar de Randy Lerner não trouxe resultados. Ashley Young e Stewart Downing foram vendidos no ano seguinte para Manchester United e Liverpool, respectivamente. O primeiro por 18 milhões de euros e o segundo por 22,8.

Veio o declínio. Apesar da nona posição da temporada 2010/2011, que teve entre setembro e julho o técnico Gérard Houllier no comando até ele ter que se afastar devido a motivos de saúde, o Aston Villa entrou em uma espiral descendente e passou a lutar para não cair. 16º, 15º duas vezes e 17º colocado na temporada passada. O flerte com o rebaixamento era um presságio do que aconteceu neste ano.

Em maio de 2014, Randy Lerner anunciou que pretendia vender o clube. De acordo com a Forbes, Randy Lerner gastou 356 milhões de dólares desde que comprou o Aston Villa e o estadunidense tinha em mente reaver parte desse investimento. Os rumores da imprensa inglesa diziam que Lerner pedia 250 milhões de libras pelo clube, mas a dificuldade em encontrar compradores o obrigou a baixar a pedida para 150 milhões de libras. Até hoje só houve rumores sobre possíveis interessados.

A temporada do rebaixamento
Chegou a atual temporada e apesar de Randy Lerner ter investido bem mais em relação às demais temporadas (66,45 milhões de euros, segundo o site Transfermerkt), os jogadores contratados, apesar de não serem ruins, não conseguiram deixar em campo o resultado pretendido. Não foi possível suprir a ausência do atacante belga Christian Benteke e de Fabian Delph, dínamo do meio campo e capitão que renovou contrato em janeiro de 2015 jurando amor ao clube, recusou publicamente uma proposta do City em agosto e se transferiu para o emblema de Manchester na semana seguinte.

Tim Sherwood, que havia salvado o time do rebaixamento nas derradeiras rodadas da campanha anterior, foi mandado embora no dia 25 de outubro e substituído por Rémi Garde, francês que havia feito um bom trabalho com o Lyon. No entanto, o técnico não conseguiu impor a sua filosofia de jogo. Garde disse em coletiva de imprensa após uma derrota por 4 a 0 contra o Manchester City que a equipe estava “ficando cada vez mais frágil devido à situação da temporada”. Em outra coletiva, após derrota por 2 a 0 contra o Norwich, o francês foi perguntado se já havia trabalhado com um grupo sem confiança como este e respondeu da seguinte forma: “Para ser franco, nunca”. Garde foi demitido no dia 29 de março após 147 dias no comando do Aston Villa.

Hendrik Almstadt, diretor esportivo, deixou o clube no dia 15 de março e Tom Fox, CEO do Aston Villa desde 21 de agosto de 2014, deixou o clube doze dias antes de Garde. Fox era bastante contestado pelos torcedores, principalmente devido ao insucesso dos jogadores contratados.

Com 24 derrotas, sete empates e somente três vitórias, a campanha do Aston Villa nesta temporada é a terceira pior da história da Premier League, atrás apenas do Derby County (11 pontos em 2007/2008) e do Sunderland (15 pontos em 2005/2006).

História orgulhosa. Qual futuro?
Protestos contra Randy Lerner tornaram-se frequentes no Villa Park. Cartazes com a frase “Proud History. What Future?” (História orgulhosa. Qual futuro?) espalharam-se pelas arquibancadas, mas o dono do clube não tem estado presente para vê-los pessoalmente. E essa é outra das reclamações que não vem só da torcida. No dia 3 de abril, Jægerfeld Juric, empresário do zagueiro Jores Okore, concedeu entrevista ao jornal Daily Mirror criticando a ausência de Lerner. “Nunca vi nada assim. Parece que o dono jogou a toalha. É simplesmente irresponsável alguém que está no comando não estar contatável. Tento há 14 dias criar um diálogo. Neste momento, não sabemos quem está à frente do clube”, afirmou.

Impacto financeiro
Ser rebaixado nunca é positivo, mas nesta temporada há um fator agravante. A partir de 2016/2017 entrará em vigor o novo contrato televisivo da Premier League, no valor de 5,1 bilhões de libras (cerca de R$ 25,5 bilhões). Apesar de a Premier League pagar uma quantia decrescente ao longo de três anos aos clubes que caem ao Championship – pagamento cessa se o clube subir à Premier League antes desse período -, esse valor não chega perto do que as equipes da Premier League receberão até 2019.
Segundo o jornal Birmingham Mail, o valor a ser pago ao Aston Villa pode chegar a 87 milhões de libras caso os Villans fiquem no segundo escalão por três anos (40 milhões no primeiro ano, 33 no segundo e 14 no último). Já o novo contrato televisivo renderá aos clubes da Premier League cerca de 100 milhões de libras (aproximadamente R$ 500 milhões) por temporada.

A próxima temporada
A campanha no Championship começa já a partir da próxima rodada. Depois de Steve Hollis assumir a presidência do clube em janeiro, o Aston Villa anunciou na passada segunda-feira (11) que passará por uma reestruturação que incluirá cortes de funcionários e mudanças nos cargos. Para o comando técnico, David Moyes, antigo treinador do Manchester United e mais recentemente da Real Sociedad, Nigel Pearson, que levou o Leicester à Premier League na temporada 2013/14, e Mick McCarthy, técnico do Ipswich, atual oitavo colocado do Championship, aparecem como os mais bem cotados tanto pela imprensa como pelas bolsas de apostas.

O Aston Villa possui um currículo invejável, do qual os seus torcedores se podem orgulhar. Quanto ao futuro, o clube poderá se espelhar na organização de Southampton e Leicester. O desafio é voltar o quanto antes à Premier League não só pelo status de um clube com 142 anos de história, sete vezes campeão inglês e com um título de campeão europeu, mas também para aproveitar o novo contrato televisivo, de forma a não se distanciar financeiramente das demais equipes.

Crédito da foto: Reprodução/Twitter oficial da Premier League