OPINIÃO: Esse é o nosso “legado olímpico”?

Crédito da foto: Fernando Frazão / Agência Brasil

Nesta quinta-feira, feriado de Tiradentes, a cidade do Rio de Janeiro teve que lidar com mais uma tragédia a quase cem dias para o início dos Jogos Olímpicos. Um trecho de cerca de vinte metros da ciclovia Tim Maia, na Avenida Niemeyer, em São Conrado, desabou matando pelo menos duas pessoas (uma terceira vítima ainda está sendo procurada pelos Bombeiros). A obra, apontada pelas autoridades brasileiras como mais uma prova do “legado olímpico” da Cidade Maravilhosa, havia sido inaugurada no mês de janeiro desse ano. O custo total da obra foi orçado em cerca de 12,5 milhões de dólares (mais ou menos 45 milhões de reais), fato lembrado constantemente por jornais como o inglês “The Guardian”, o norte-americano “The New York Times” e o espanhol “Marca”. O dia 21 de abril de 2016 se transformou numa data trágica para os cariocas…

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O prefeito Eduardo Paes, qua estava na Grécia para a cerimônia da tocha olímpica, classificou o desabamento da ciclovia como “imperdoável” e pediu a apuração dos responsáveis e das causas do acidente. E o secretário executivo de Coordenação de Governo, Pedro Paulo Carvalho, afirmou em alto e bom som que “No momento, é claro que há a suspeição se a ciclovia é segura ou não (…) A princípio, não há risco de novos desabamentos. A gente pede paciência dos moradores que moram nos acessos e pedimos que eles não venham para a ciclovia neste momento.”

As perguntas que ficam são as seguintes: o que será de nós durante a realização das Olimpíadas e Paralimpíadas? Será que vamos ter que nos preocupar com a possibilidade das arquibancadas dos estádios desabarem na nossa cabeça? E depois dos Jogos? Quanto tempo para tudo desmoronar?

O que eu e você estamos vendo já tem um bom tempo é uma total falta de responsabilidade das nossas autoridades para com um evento do tamanho dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos. Durante a Copa do Mundo de 2014 já vimos vários operários morrendo com as obras (estupidamente superfaturadas e totalmente questionáveis) nas arenas para o Mundial. Poderíamos ter aprendido um pouco com esses e muitos outros erros do passado, mas não. Seguimos rezando a cartilha das obras de fachada “para inglês ver”. Infelizmente, a falta de planejamento e de transparência além dos “jeitinhos” e “gambiarras” para entregar tudo no prazo mostram que ainda estamos bem atrasados quando o assunto é ética, responsabilidade social e cidadania. Digo isso porque a prática desportiva (seja ela de alto rendimento ou não) está intimamente ligada ao nosso bem estar. Andar de bicicleta numa ciclovia, ir para o Maracanã ver um Vasco X Flamengo ou ver as competições das Olimpíadas e Paralimpíadas depende da disponibilidade de bons serviços, de estrutura e de conforto. Depende de uma cidade limpa, bem cuidada e acolhedora.

O que temos ao invés disso? As negociações por baixo dos panos, as propinas, a utlização de material segunda linha (porque é preciso deixar dinheiro para o “cafézinho” para o rapaz que vai autorizar a obra), as remoções irregulares e uma senhora fachada para encobrir tudo isso…

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Não me entendam mal, amigos. Comemorei muito quando o Rio de Janeiro foi escolhido para sediar os Jogos Olímpicos e a oportunidade de poder estar perto dos maiores atletas do mundo. Quem não quer ver nomes como o velocista Usain Bolt, a tenista Serena Williams, os astros da NBA, as nossas meninas do vôlei, as judocas Sarah Menezes e Rafaela Silva, o ginasta Arthur Zanetti e jogadores de futebol como o português Cristiano Ronaldo e o sueco Zlatan Ibrahimovic? Quem não quer torcer pelo Time Brasil? Quem não quer vibrar com Daniel Dias, Alan Fonteles, Terezinha Guilhermina e Clodoaldo Silva? Os Jogos Olímpicos e Paralímpicos são a realização do sonho de todo e qualquer amante dos esportes, seja ele atleta ou não. Mas é preciso ser coerente com os fatos. O que acontece na Cidade Maravilhosa é uma verdadeira tentativa de assassinato com os atletas e com os torcedores.

Esse é o nosso “legado olímpico”, amigos… Obras superfaturadas e sem função nenhuma, negociações feitas por baixo dos panos, total falta de responsabilidade com o bem público e “fachadas” das mais variadas. Vale lembrar que a preocupação com as obras para os Jogos Olímpicos Rio 2016 já havia sido tema de debate (e motivo de preocupação) de várias federações esportivas reunidas nesta terça-feira, em reunião na Suíça. As falhas durante o evento-teste de ginástica artística, na Arena Olímpica da Barra, foi uma das (inúmeras) questões levantadas no encontro.

E como estamos recebendo isso? Me perdoem pela franqueza, mas estamos nos comportando como o grupo de banhistas que seguiam aproveitando a praia sem se importar com os corpos das duas vítimas do desabamento da ciclovia estendidos na areia. Estamos totalmente inertes e indiferentes. Falou-se tanto em “golpe” nesses últimos dias. Mas o verdadeiro golpe é dado por nós, todos os dias, ao nos calarmos diante de tantas injustiças. Se as coisas estão assim nas obras para os Jogos Rio 2016, imaginem a situação de áreas mais carentes como a Baixada Fluminense e a Zona Oeste…

Como eu disse lá em cima, o dia 21 de abril de 2016 ficará marcado como o dia em que mais uma prova da “competência” das nossas autoridades. Mas a Lei de Murphy é implacável. De acordo com matéria publicada no site do Estadão, a Concremat (guardem bem este nome), empresa responsável pela construção da ciclovia, pertence à família do secretário de Turismo da cidade do Rio de Janeiro, Antônio Pedro Viegas Figueira de Mello.

Durmam com esse barulho. E com mais um 7 a 1…



Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.