Ex–jogador Hergos retrata as desigualdades presentes nos gramados brasileiros

Crédito da foto: Divulgação

Hergos Couto, professor de Educação física e Doutor em educação na Universidade Federal do Oeste do Pará, preferiu seguir um rumo de se profissionalizar e se especializar na educação, mesmo tendo em sua vida a oportunidade que poucos meninos brasileiros têm em sua realidade – a de ser jogador de futebol.

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Sobre a questão de encerrar a carreira profissional de futebol aos 28 anos, sem lesão alguma, o ex–jogador descreve em seu livro Esporte do Oprimido as razões que o fizeram decidir pelo encerramento da carreira precocemente.

Ele revela que o nome da obra é exatamente o nome de sua tese de doutorado. Esporte do Oprimido, inspirado na teoria de Paulo Freire que trabalha as questões das relações de opressão. O conteúdo tem em seu foco atingir as pessoas em geral,

“Esporte do Oprimido não é apenas para os amantes do futebol, até porque as relações de opressão descritas no livro não acontecem apenas no ambiente futebolístico. Gostaria que o público tomasse conhecimento dos arrolamentos que se desenvolvem na formação do jogador de futebol nas categorias de base e que estão relacionadas com o contexto que caracteriza o opressor/oprimido”, afirmou Hergos.

O ex–jogador do Corinthians nos anos 90 comentou sobre a diferença de alguns fatos existentes nos gramados – da sua época aos atuais. “O futebol se fortaleceu como indústria e atualmente gera muitas riquezas por meio da comercialização dos produtos dos clubes e exploração de imagem. A mídia compra e vende a indústria futebolística e os aficionados continuam a consumir o que é produzido, porém numa escala maior. Entretanto, estamos falando da realidade dos clubes de elite, os clubes que fogem desta esfera, dependem de outros recursos e quase sempre são escassos”.

Hergos reflete a questão da desigualdade social presente no futebol e o modo como a modalidade mudou seu perfil tanto a visão de produto como seu público. “Este contexto interfere no âmbito social, pois os jogadores, dependendo da esfera em que se localizam, se diferem economicamente, e aí se enquadra a desigualdade social em todos os quadros. Devido ao crescimento econômico da indústria do futebol, politicamente os arrolamentos se tornaram maiores também. Por conta disso, atualmente, os escândalos tem proporções gigantescas, basta citarmos, por exemplo, as falcatruas da Fifa que vieram a público e resultados de jogos que interferem em qual equipe será a vencedora de determinado campeonato”.

Ele menciona as arenas vazias – clubes que pertencem a Estados com menor poder financeiro e com menos visibilidade no cenário nacional futebolístico sofrem com calendários vazios, pois aqueles que não têm opções para competir, fecham suas portas e encerram suas atividades naquele ano corrente, por consequência os jogadores perdem o vínculo empregatício e voltam às “prateleiras do mercado” esperando ansiosamente por alguma migalha no cenário futebolístico.“Outro fato que se percebe, se refere a estrutura do futebol como espetáculo. Muitos estádios pelo mundo, tornaram-se arenas, por conta disso, os gramados se tornaram melhores, assim como o conforto aos seus espectadores. Todavia, me parece que isso segmentou o tipo de torcedor destes ambientes, pois o acesso ficou limitado aquele que dispõe de menos recursos financeiros”.

Estatísticas do futebol

O Bom Senso F.C. divulgou nos últimos três anos números que revelam a diferença enorme no âmbito social e financeiro presente entre os atletas de futebol, com o apontamento em pesquisas que apenas 12% dos profissionais da bola recebem mais de R$ 10 mil, além de sua vivência e números atuais apresentados. Hergos Couto compreende que esse quadro não melhorará apenas com a gestão e organização atual do futebol brasileiro. “Um exemplo disso é a desvalorização dos campeonatos estaduais. Devido ao sistema de competição, eles se tornaram cada vez mais curtos e isso interfere no calendário dos clubes, já que tal calendário atende somente uma parte dos clubes brasileiros, portanto muitos jogadores ficam cinco meses empregados e sete desempregados”, mencionou o professor.

Couto também comenta números mencionados pela revista Época, revela que a realidade transmitida na televisão não equivale a realidade apontada nos gramados brasileiros.

“Um levantamento da Revista Época, a partir de dados levantados pela CBF informa que dos 28.203 jogadores que iniciaram o ano de 2015 empregados, somente 11.571 chegaram a 2016 com contrato assinado, ou seja, 60% perderam emprego durante a temporada. Cabe ressaltar que neste âmbito, a CBF informou ainda que 226 jogadores no Brasil recebem salários acima de R$ 50 mil. Isso equivale a 0,8% da quantidade de jogadores profissionais brasileiros. Outro dado importante informado pela CBF levantado pela Revista Época e que está diretamente relacionado às questões da desigualdade social mostra que quatro entre cinco jogadores brasileiros ganham até R$ 1.000,00. Muito abaixo da riqueza dos jogadores que estão em evidência nas mídias”, definiu o ex – atleta.

Protesto – Arroz e feijão

Couto menciona sobre os protestos no interior paulista – Campeonato Paulista A3, com seus conhecimentos em educação de formação universitária, comenta que atualmente se dedica a estudos de conciliação desportiva com a formação escolar com foco nas categorias de base.