Estádio europeu x Sul-Americano: Veja cinco principais diferenças

Crédito da foto: Divulgação/ Site oficial do São Paulo

Sempre gostei de futebol, e durante minha infância o que eu mais gostava de fazer era jogar bola. Eu era sempre um dos piores, escolhido apenas por meus amigos, e na maioria das vezes dava um jeito de “isolar” a pelota na casa de algum vizinho próximo da quadra/campo. Comecei a ver este esporte com outros olhos quando passei a ser torcedor do São Paulo Futebol Clube, após ver o time perder de 7 a 1 (!?) em casa pelo Paulistão. Eu já era do contra mesmo quando criança, e aquela cena do Rogério Ceni chorando, pegando a bola no gol mexeu comigo. Como em quase tudo na minha vida, escolhi torcer para o clube paulista sem me influenciar por ninguém, apenas pelo meu instinto.

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A partir de então, o futebol passou a dominar minha vida, seja na pelada com os amigos, no álbum de figurinhas, videogame ou na TV. A fascinação aumentou quando passei a frequentar os jogos de Remo e Paysandu, em semelhante proporção, na minha cidade (Belém). Lembro um jogo que fui com três amigos para assistir o Remo na Série B (x CRB) no meio da torcida organizada no Baenão, atrás do gol, e a emoção de comemorar um gol aos 47 minutos do meia Chicão, de fora da área, foi demais para mim. Ainda hoje consigo sentir a alegria dos torcedores, de como o futebol conseguia proporcionar momentos tão bonitos e emocionantes como aquele.

Os anos se passaram, e o hobby virou estilo de vida, e até de profissão. Viajei o Brasil de Norte a Sul, acompanhando sempre que possível o máximo de partidas que pudesse, e a partir de 2012 tive a oportunidade de conhecer outros países, e claro, estádios também. Assisti in loco partidas na Argentina, Chile, Bolívia e Paraguai. Ano passado, vim para a Europa fazer meu intercambio, e aproveitei também. Já consegui ir para jogos na Inglaterra, Irlanda, França e Holanda, estando ainda na lista Portugal, Espanha e Alemanha.

Posso dizer com segurança o que se passa nessas arenas por que tive muitas “aventuras”, nem todas proveitosas, e fui literalmente do luxo ao lixo em várias situações, como ir para jogo da Champions League no setor “Hospitality” ou pegar um ônibus cheio de barra-bravas na Argentina. Abaixo, as cinco principais diferenças que pude perceber aqui e acolá:

*Obs: torcida europeia ocidental

#1- Torcida:

Sul-Americano: A principal característica de competições como a Copa Libertadores da América é a torcida. Às vezes até compensa times tão ruins dentro de campo. Torcidas como Corinthians, São Paulo (torcida apoia de verdade apenas na Liberta), Boca Júniors e Atlético Nacional fazem sempre grandes festas, sobretudo em jogos importantes, como nos confrontos mata-mata. Fazem a diferença, são o 12° jogador de fato. Às vezes vale mais a penas olhar para as arquibancadas que para o próprio jogo, considerando o pobre futebol que apresentam. Cantam muito forte, mostram uma paixão genuína pelo clube. A parte ruim é que o Sul-Americano, no geral, apoia de maneira mais ativa apenas quando time está numa fase boa, sobretudo no Brasil. Ninguém quer torcer para um time no meio da tabela ou que não tem mais chances de se classificar. O interessante é notar o apoio da “massa” quando o time está a beira do rebaixamento, lutando para não cair. Nunca entendi bem isso…

Europeu: São super organizados, (quase) não tem confusão nas filas, sentam no lugar marcado e fazem festas bonitas de se ver em jogos importantes, sobretudo em competições europeias. Tive a oportunidade de estar num jogo da Europa League entre Ajax x Fenerbahce na lindíssima Amsterdam ArenA e vi uma bonita festa antes do kick off, com bandeirinhas por todos os lados, parecido com os jogos do Barcelona. Fantástico realmente, só que aquele aparato todo se transformou em vários momentos de um assustador silêncio, que perdurou por vários momentos durante tdo o jogo. Não fossem os turcos (não apenas eles, mas a maioria das torcidas da Europa oriental e leste Europeu ainda tem ligações fortes com hooligans), que não paravam de cantar na torcida adversária, este seria o jogo mais silencioso que já teria visto na vida.

 

O silêncio persistiu em vários estádios que estive aqui, em diferentes países, e percebi que a maioria gosta de grandes apresentações antes das partidas, músicas próprias entoadas na décima escala (como Liverpool ou Manchester City), e até apoiam mais de vez em quando, mas não chegam nem aos pés dos sul-americanos. A exceção é feita aos Alemães, que absurdamente apoiam, pulam nas arquibancadas e tudo mais. Pude presenciar a torcida do Borussia Monchengladbach num jogo de Champions e não acreditei no que vi. O lado bom dos europeus é que apesar de não cantarem tanto quanto nós, eles são mais fiéis. Quase sempre lotam os estádios dos grandes e médios times, seja qual for a situação. Fui a um jogo do Fulham na Segundona Inglesa e me impressionei com o estádio lotado, com o tradicional time muito próximo de ser rebaixado para a Terceirona. Mas é claro que a situação econômica diferente dos países também influencia no público.

#2 – Estádio:

Sul-Americano: Os estádios na América do Sul são um caso à parte, pois o desnível é muito grande. Depois da Copa, o Brasil ganhou vários estádios novos ou reformados, de “primeiro mundo” como dizem, mas continuam com péssimas arenas, com estruturas lastimáveis, como é o caso do Serra Dourada, local em que o Goiás manda seus jogos. Estádio velho, sem conforto para os torcedores, sem modernidade ou reformas recentes efetivas, dentre outros fatores. Mesmo assim, esta Arena sedia jogos de primeira divisão, e inclusive já presenciei um jogo na tv daqui direto do Serra Dourada. Um estrangeiro desavisado vai pensar que é reprise antiga, não vai acreditar num estádio desse no século XXI. Outros estádios que compareci como São Januário e Barradão também não condizem com os novos tempos. O torcedor precisa ser bem tratado, e o mínimo exigido é cobertura em todos os setores e assentos numerados – muitos nem assentos têm! A falta de numeração marcada obriga alguns torcedores a chegar com bastante antecedência no jogo, e a falta de higiene na preparação dos alimentos e limpeza dos banheiros é lastimável.

Nos outros jogos que fui na América vi muito estádio de time grande estar velho e deprimente, como o badalado Monumental de Nunez (River Plate), ou o El Aviador, do Jorge Wilstermann (Bolívia). O Boca fez uma reforma recentemente na La Bombonera e no Chile (Estádio Nacional) e Paraguai (Defensores del Chaco) também repaginaram, mas o resultado para mim não foi satisfatório, e falta muuuito para se igualar a um Maracanã ou Wembley da vida. Esses lugares valem mais pela história, simbolismo e força da torcida nos jogos.

Europeu: As modernas arenas europeias são realmente de outro mundo. Amsterdam ArenA, Parc des Princess, Old Trafford, dentre outros em que estive, impressionam pela arquitetura, organização, estrutura e limpeza. As coisas realmente funcionam lá, assento marcado é coisa sagrada, e não vi qualquer problema nesses lugares em termos de conforto, acústica (perfeita) e tudo o que um torcedor precisa para assistir um bom jogo (telão, cadeira confortável e bom espaço entre as fileiras, banheiro limpo, acesso fácil às arquibancadas, vários funcionários disponíveis para o suporte, visão perfeita da partida etc). A única coisa diferente que presenciei foram brigas DENTRO do estádio. Isso mesmo, muita pancadaria, na maioria dos jogos que fui, principalmente UK.

 

O consumo de bebida alcóolica é liberado, e acredito que isso faça os ânimos ficarem alterados durante o jogo. Vi pancadaria com membros da própria torcida no Goodison Park (Everton), Etihad Stadium (Manchester City) e com membros de torcidas diferentes, no Amsterdam ArenA. Mas a pior de todas sem dúvida foi em Upton Park, aonde eu vi hooligans ingleses se espancando em plena arquibancada. Outro detalhe do estádio europeu são as comidinhas típicas de cada país. Na Inglaterra, tem a famosa pie (torta) de frango, em Amsterdam provei o tradicional waffle holandês e em Paris comi um crepe com Nutella. Todos vendidos dentro das Arenas.

#3 – Jogadores:

 

Sul-Americano: Historicamente, os melhores jogadores sempre vieram da América do Sul, com destaque para Brasil e Argentina. Ronaldos, Rivaldo, Pelé, Romário, Zico, Maradona, Kemps, Cannigia… A lista é enorme, e envolve nomes de outros centros como Zamorano (Chile), Chilavert (Paraguai) e Recoba (Uruguai), só para citar alguns, que no passado distante ou recente faziam a diferença em clubes locais ou na Europa. Os tempos mudaram, e atualmente as ligas sul-americanas podem encantar pela torcida, pela paixão, mas dentro de campo o nível técnico baixa a cada ano. Assistir ao campeonato chileno, brasileiro ou argentino dá “calo” no olho de tão ruim. A maioria das equipes não possuem esquema tático definido, os jogadores não se cuidam fisicamente e a safra de talentos parece ter misteriosamente secado.

Alguns fatores influenciaram isso, como categorias de base mega estruturadas, mas ineficientes, principalmente por badalarem precocemente jogadores promissores, que acabam chegando no time de cima sem render nem um décimo do esperado, ganhando salários altos com 16 anos. Em 2015, tive a oportunidade de ver um jogo do Inter no Beira-Rio, um jogo do Vasco em São Januário, e um São Paulo x Corinthians no Morumbi, e todos difíceis de assistir de tão ruim. O Corinthians só foi campeão por ter um time um pouco mais organizado, mas longe de ser bom. Esses torneios são interessantes apenas para quem torce pelo clube, não para admiradores de futebol em geral. Não por acaso esses campeonatos só servem para compor a grade de canais de esporte em outros países.

 

Europeu: Sem comparação. Assistia sempre que dava jogos da Champions e campeonato inglês na Espn, mas nem na melhor tv em HD você consegue ter uma visão tão boa e perceber com clareza os detalhes do que acontece em campo do que dentro de um estádio europeu. Meu primeiro jogo foi em setembro do ano passado, Everton x Chelsea, em Goodison Park e eu não conseguia parar de olhar para cada detalhe, a começar por José Mourinho, extremamente impaciente no banco de reservas. Hazard, Courtouis, Diego Costa, Terry, Oscar… Não existe nem comparação em ver as estrelas ao vivo, com ótima visão do Goodison. Em Paris me impressionei com a forma que o PSG jogava:  sem posição fixas, toques rápidos e máximo de 3 segundos com a bola no pé. Outro nível. E olha que ainda falta ver o Barça. O trio MSN está arrebentando. No Camp Nou, a experiência deve ser inesquecível.

#4 – Transporte/segurança:

Sul-Americano: É uma das maiores dificuldades, que em partes justifica, ao lado da falta de segurança e valor dos ingressos, a reduzida média de público em comparação com os europeus. Em 2008, fui assistir com um amigo São Paulo x Nacional (URU) no Morumbi, saindo de Higiênópolis, e demorei três horas para chegar ao destino final. Uma verdadeira odisseia envolvendo ônibus, van, metrô e uma caminhada de 20 minutos. Como a maioria das pessoas tem baixo poder aquisitivo no Brasil, o transporte público acaba sendo a alternativa mais procurada, e menos eficiente, para se chegar a uma partida. Na argentina, peguei um ônibus errado e acabei indo parar no meio dos barra-bravas do Lanus, no caminho de “La Fortaleza”. Momentos de verdadeiro terror, mas contei com a sorte, pois ninguém mexeu comigo. Esses caras querem apenas um pé para arranjar confusão, e membros dessas torcidas possuem forte ligação com o nazismo, e não são muito chegados a brasileiros, mas deu tudo certo e eu cheguei bem ao estádio.

 

No Chile, Bolívia e Paraguai achei o trajeto bem tranquilo, mas acredito que em grandes jogos a desorganização também deve imperar. Poucos ônibus/trens, metros super lotados, horários não compatíveis e paradas distantes são problemas evidente nos transportes da América do Sul. Uma vez fui inventar de ver um jogo do Remo numa terça-feira à noite, e como ainda não tinha carro, fui de ônibus, sozinho, e na volta para casa, às 23 horas da noite, esperei por mais de 30 minutos chegar um ônibus que não estivesse tão lotado e que fosse para minha casa. Poderia ser assaltado ou coisa pior na rua escura. A maioria dos motoristas nem parou quando eu e outros torcedores chamamos. Simplesmente passaram direto. Um absurdo.

 

Europeu: Outra coisa que funciona na Europa são os transportes. Na Holanda achei tudo de primeira linha, porém na Inglaterra e França é meio confuso para quem chega na cidade pela primeira vez, e também achei alguns vagões velhos e sujos, com algumas estações desertas e aparentemente perigosas. O que não muda em nada o fato de funcionarem super bem, cumprirem horários, e em dias de jogos aumentarem as frotas para determinadas regiões. As filas sempre vão existir, principalmente em jogos nos horários de pico, mas é diferente. Você confia no serviço. Você sabe que o vagão vai chegar tal hora e que você tem que sair de casa com antecedência, tendo a certeza de chegar no local antes da partida, o que é bem mais difícil de acontecer na América do Sul. A segurança da cidade e o clima permite você ir andando, às vezes mais do que uma hora, para chegar no local da partida. Muitos torcedores fazem isso como uma espécie de tradição. É possível ver torcedores caminhando há quilômetros de distância do estádio. Cena bonita de se ver.

#5 – Atmosfera

Sul-Americano: todos os tópicos anteriores são subjetivos, e este também não deixa de ser. A “magia” de um estádio de futebol depende dos olhos de quem as vê. É a mesma coisa de me convidarem para ver uma luta do UFC em Las Vegas. Eu iria achar o máximo, curtiria, mas para quem acompanha a fundo esse esporte (não é o meu caso), é totalmente diferente. Ver o Belfort ganhar do cara tal, depois do fulano bater no outro no card preliminar seria uma ótima experiência, mas um aficionado vai reparar em cada detalhe. Alguns iriam falar que tiveram a melhor noite das suas vidas. Para mim iria ser só uma grande noite, nada mais. É assim que eu me sinto a cada grande jogo, a cada nova aventura, e tudo começou em Belém, partindo para Fortaleza, Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Porto Alegre, Floripa etc, até chegar em Buenos Aires, Santiago, Assunção, Cochabamba..

Sempre aproveito as viagens que faço, seja a trabalho ou lazer, para conhecer um estádio novo, seja ele qual for, e algumas vezes vou para as cidades só para ver um jogo, como na Libertadores 2010 no Beira Rio (Inter x São Paulo) e na final da Copa do Brasil 2011 no Couto Pereira (Curitiba e Vasco). A atmosfera, ou seja, tudo o que envolve os jogos, é ótima na América do Sul. Ela representa o real sentido do futebol, e por conta disso eu aprendi a amar tanto esse esporte. A magia para mim acontece em cada partida, pois não envolve apenas 22 jogadores em campo com torcedores nos seus assentos.

Representa também a união de amigos, parentes, conhecidos e desconhecidos que se unem por conta de uma causa, e mesmo que alguns deturpem o verdadeiro espírito esportivo descontando seus problemas pessoais com violência e ódio, o sentido original do futebol como um todo é a união. E foi isso que eu sempre vi nos latinos, esse amor genuíno por seu clube, o calor humano. Para alguns, é a única diversão de suas vidas. Poucas prazeres nessa vida são tão intensos como ver seu time ganhar um torneio importante após anos acompanhando, após várias decepções. O esporte imita a vida com suas quedas, decepções, reestruturações e vitórias, e para mim nenhum lugar representa melhor esse espírito que Brasil e Argentina.

 

Europeu: A sensação de permanecer parte de algo grandioso, como acontece nos clubes latinos, também acontece na Europa, em especial UK. Bairros inteiros torcendo para times de quarta divisão como vi na Argentina também acontecem lá. A segurança e organização tornam o clima menos pesado, e mesmo as grandes confusõess que vi são resolvidas em segundos. A parte ruim disso, para mim, são os turistas. Sim, contraditoriamente eu próprio incluído neste bolo, e você e todos os outros estrangeiros que vão ou já foram para os jogos na Europa também. Mesmo em partidas “sold out”, com ingressos esgotados, o contingente de não-torcedores dentro do estádio é muito grande. Quebra toda a atmosfera do ambiente.

Por isso disse, no começo do texto, sobre os “silêncios” em vários momentos das partidas, e isso acontece em quase todos os grandes clubes. No Camp Nou ou em Anfield, por exemplo, você vai ouvir respectivamente antes das partidas os espanhóis cantarem o hino e os ingleses entoarem a plenos pulmões (I’ll never walk alone”- você nunca andará sozinho), mas depois disso, a empolgação não é a mesma. Não que eles fiquem calados todo o jogo. Eles cantam em vários momentos, mas de primeira você vai sentir muita diferença nesse sentido dos estádios do Brasil.

O preço dos ingressos também afastam os torcedores mais fanáticos e, se por um lado isso tira os hooligans e baderneiros do estádio, a parte ruim fica por conta da falta de vibração nas arquibancadas. Em Amsterdam me assustei com a apatia da torcida do Ajax, conhecida como uma das mais atuantes do mundo. A “platéia” nesses locais é composta predominantemente de pessoas com alto poder aquisitivo e turistas. Vários torcedores foram realocados das arquibancadas para os pubs. Dia desses assisti a uma partida do Manchester City e me assustei com a vibração da torcida na TV. Menos de uma semana atrás estava no Etihad Stadium e presenciei uma torcida que não tinha nem 10% daquela vibração. Isso acontece por que a TV supervaloriza os sons vindos do público, o que torna o jogo mais interessante de ser acompanhado na tela.