Opinião: Primeira Liga fracassa em sua própria ideologia

Foto: Divulgação/ Twitter da Primeira Liga

Quando foi anunciada, a Primeira Liga tinha como proposta inicial modernizar e criar uma nova maneira de se conduzir o futebol no Brasil.

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Para isso, teve como carros chefes as equipes do Flamengo, Fluminense e Atlético Mineiro, que adotaram discursos semelhantes que tinha como alvo instaurar uma mentalidade progressista.

Teve o apoio de mais nove equipes (Atlético Paranaense, Curitiba, Cruzeiro, América-MG, Internacional, Grêmio, Criciúma, Avaí e Figueirense), boas médias de público, mas afinal de contas, o que de novo e revolucionário ela trouxe?

Uma das suas intenções até que surtiu efeito. Fazer com que as federações estaduais e a CBF se incomodassem com o surgimento de um novo torneio, que pode em um futuro próximo, ameaçar as competições já existentes. Fora isso, não causou mais nada de barulho, muito pelo contrário. Ela fracassa a cada rodada em sua própria ideologia.

Em primeiro lugar, mesmo que muitos duvidem, não se faz uma liga com credibilidade para público, investidores e televisão sem os maiores clubes do Brasil. Tanto que, entre os cinco maiores times do futebol nacional, apenas o Flamengo ingressou na Primeira Liga, acreditando muito mais na força de sua torcida do que na modernidade do futebol. Os outros quatro, Corinthians, São Paulo, Vasco e Palmeiras não apoiaram a iniciativa, cada um com seu motivo que não cabe aqui entrar em detalhes, pois a análise de cada um teriam que ser realizadas em muitos textos.

Outro fator que comprova a fraqueza com que a Primeira Liga surgiu é que os direitos de transmissão foram adquiridos pela Rede Globo por apenas R$ 5,2 milhões, um valor infinitamente menor do que a proposta inicial que era de 60 até 100 milhões. Para termos de comparação, se a Primeira Liga for dividir esse valor por igual entre os clubes participantes, cada um receberia cerca de R$ 433.333,00. Valor irrisório pela grandeza dos envolvidos.

Contudo, o mais agravante é que a própria ideologia da Primeira Liga não é seguida pelos seus participantes e já nasce combalida, para não dizer morta, pois uma vez que os clubes querem independência, mas ainda disputam competições ligadas as suas federações que tanto são criticadas, eles simplesmente sedem as pressões e tentam se ajeitar do jeito que podem. Um exemplo é que o Flamengo, time de maior torcida do Brasil, corre o risco de ter que jogar dois jogos no mesmo dia, no caso nove de março, um pela segunda fase do Carioca e a outra contra o Figueirense em Brasília.

Na verdade, todos os clubes sonham em ter uma liga independente, mas nenhum clube do futebol brasileiro vai ter coragem de peitar a CBF e as suas federações, pois quando as contas começam a bater a porta, são essas entidades que vão lá e emprestam valores absurdos, em troca de uma fidelidade quase que eterna.

Se a Primeira Liga quisesse mesmo abalar todas as estruturas, os clubes deveriam pedir desfiliação das federações e da CBF e partirem para uma ação conjunta para a criação de um campeonato brasileiro independente, que poderia se valer muito pela força das camisas dos times e pelo poder de negociação que teriam em mãos.

Já pensou na hipótese de jogos serem transmitidos por outros canais que não seja a Rede Globo e com horários mais humanos a todos, mas principalmente para os torcedores? Seria um sucesso e faria com que outros clubes aderissem a fórmula e assim, fortalecessem mais a liga, enfraquecendo a CBF em contrapartida. Porém, dificilmente isso acontecerá, pois ninguém vai abrir mão de receber a sua grana, de participar de competições internacionais como a Libertadores e Copa Sulamericana.

Para que isso um dia possa sair do papel, os nossos clubes teriam que ser organizados financeiramente, administrados de uma maneira profissional, com planos de sócios bem elaborados, que lhe permitissem ter totais poderes de decisão na hora de negociações com possíveis investidores, sejam eles como patrocinadores ou direitos de transmissão. Mas, infelizmente o que vemos e teremos ainda por um bom tempo, são clubes grandes, mendigando com um chapéu na mão dinheiro a todo custo para poder pagar a folha de pagamento do mês e segurar um ou outro jogador. Além disso, não existe pensamento em um bem comum para todos, mas sim, no que é melhor para cada um.

Lamentável é ver a cada dia que estamos em um cenário em que os clubes possuem força para lutar por algo melhor, mas se curvam a receber migalhas apenas suficientes para sobreviver.