Opinião: Hockey é a paixão que mais aproxima o canadense do brasileiro

Crédito da foto: Reprodução/ Facebook oficial NHL

Estive em Vancouver no Canadá em 2015 e presenciei o espírito pacífico e racional do povo canadense. Um povo que, na média, não é muito nacionalista e aceita muito bem seus imigrantes. Poucas coisas despertam paixões exacerbadas. Uma delas, sem sombra de dúvidas, é o hockey.

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Piadas, desconhecimento por parte dos vizinhos dos Estados Unidos, nada disso mexe com o ânimo dos moradores da cidade, considerada a melhor da América pela Mercer em 2015. Nada, exceto uma final de Stanley Cup. Em 2011, uma violenta manifestação após a derrota do Vancouver Canucks no Jogo 7 da Final da Stanley Cup, em casa, deixou ao menos 140 feridos segundo a Rede de TV, CTV. Houve ainda a queima de 17 veículos e a quebra de janelas e o roubo de diversos estabelecimentos. A polícia de Vancouver prendeu 101 pessoas naquela noite e, em julho de 2015, foram abertos 887 processos criminais contra 301 pessoas. Uma situação parecida já havia se passado na final de 1994.

Favorecido pelo clima, o país consegue rivalizar a nível de clube com os EUA como raramente se vê em outras modalidades. Enquanto na NBA atualmente, apenas o Toronto Raptors representa o Canadá e a CFL, Canadian Football League, tem um orçamento substancialmente inferior ao da NFL, National Football League, no hockey as equipes canadenses se mostram muito mais presentes.  

A NHL, National Hockey League, conta na atual temporada com 7 equipes canadenses e 23 estadunidense. Mas, apesar da predominância estadunidense, o campeão de títulos é o Montreal Canadiens, seguido pelo Toronto Maple Leafs com 13 conquistas.

De acordo com o site oficial da NHL, ainda, na temporada 2010-2011, 53,3% dos jogadores eram nascidos no Canadá, contra 23,9% nos EUA e 6,4% na Suécia. Playoffs entre clubes canadenses pegam fogo com cenas impressionantes de brigas entre os jogadores. Pubs lotam com antecedência e o interesse é tão grande que os estabelecimentos até deixam de checar identificações para verificar a idade dos consumidores (+19), uma prática levada 100% a sério em dias normais, tamanha a concentração no evento.

Na média, no entanto, as rivalidades não impedem a convivência entre os torcedores adversários. Não há divisões dentro das arenas e torcedores extremamente minoritários não se sentem intimidados de vestirem o uniforme de sua equipe. Num dos momentos mais delicados para os canadenses após um atentado que matou um militar em Ottawa em Outubro de 2014, torcedores de clubes rivais canadenses e estadunidenses entoaram junto o hino canadense como grandes amigos e vizinhos. A qualidade técnica do espetáculo é invejável.

E existe a coragem para aderir a causas que um clube de futebol no Brasil nem chegaria perto, como a defesa de direitos igualitários para a comunidade LGBT, realizada pelo Vancouver Canucks anualmente na semana da Parada Gay de Vancouver. Tumultos de década em década são insuficientes para mudar este panorama geral. O hockey é onde o espírito canadense mais se aproxima do brasileiro para o bem e para o mal, ainda assim, temos muitas lições para aprender com os irmãos do Norte.