Opinião: Somos jornalistas, somos humanos

Não há nada no mundo que justifique o linchamento virtual promovido por alguns torcedores do Palmeiras contra a repórter Ana Thaís Matos, da Rádio Globo, setorista do clube nos últimos tempos. Falo como um jornalista formado desde 2012, falo como um torcedor declarado do Palmeiras, frequentador do Allianz Parque e apaixonado pelo meu time e pela minha profissão. 

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Resgatar com más intenções mensagens escritas antes do exercício da profissão, como fizeram com a jornalista, é mais um passo no sentido de prejudicar profissionalmente alguém apenas pelo time que torce. A torcida do Palmeiras já é tradicionalmente contra a imprensa, entoando no estádio o famoso coro “não importa o que diga essa imprensa de gambá”.

Sabendo disso, uma pessoa que promove esse tipo de exposição sabe a quais riscos está expondo uma profissional. “Ah, mas quem mandou escrever isso?”. O Twitter não é um site com destaques evidenciados o tempo todo. Todos nós evoluímos com o tempo e deixamos marcas ruins para trás. É o processo de evolução, natural ao ser humano. Ignorar isso é ser mau caráter.

A mania de perseguição de alguns palmeirenses contra a imprensa se deve muito ao maior espaço dado ao Corinthians em programas de televisão, que sobrevivem de audiência e anunciantes, em uma relação de dependência entre um e outro fator. Mas também se tornou uma forma de aliviar ou desviar as frustrações com os péssimos times que desfilaram no Palestra Itália desde o fim da Era Parmalat.

Em nada tem culpa nisso o Palmeiras, clube que é muito maior que essa minoria de torcedores que prefere cobrar uma jornalista, fazer uma perseguição pública contra ela, do que contestar o péssimo trabalho de um departamento médico que recupera poucos jogadores, de uma preparação física falha, que não evita lesões em sequência. Ou será que a culpa é da imprensa? Azar? Que tal cobrar as pessoas certas?

Há sete anos, a internet ferveu com a publicação criminosa de vídeos de jornalistas do SporTV em momentos de relaxamento FORA DO AR. Comentários ali foram emitidos em tom de torcedor, como eu, você e milhões de brasileiros somos. Aquilo virou motivo para perseguição aos profissionais que ali acabaram expostos por um criminoso. Repito, criminoso. Porque não se faz algo desse tipo conhecendo a mentalidade de uma minoria disposta a fazer muita bobagem em nome de causas idiotas.

Todos nós, jornalistas de esportes, entramos nesse meio porque nos apaixonamos em algum momento das nossas vidas por algum time. E todos nós, antes disso, fomos apenas torcedores. Invadir essa privacidade do passado da forma como foi feito com Ana Thaís é, acima de tudo, demonstrar que o cérebro perde para o fígado na hora de discutir futebol.

“Não tem mais clima para ser setorista”, dizem. Realmente, acho não tem. Graças a gente que escolhe o caminho do ódio ao da compreensão em um meio marcado por tanta gente irracional.



Editor do Torcedores.com, está no site desde julho de 2014. Formado pela Universidade Metodista de São Paulo, já passou por UOL, Editora Abril e Rede Record. Participou da cobertura da Copa do Mundo de 2014, de dois Pans, dos Jogos Olímpicos de Londres 2012 e do Rio 2016. Também colabora com o ONDDA, site "irmão" do Torcedores.com.