OPINIÃO: O que é que a China tem que nós não temos?

O ex-vascaíno Alex Teixeira se transferiu do Shakhtar Donetsky para o Jiangsu Suning, da China, por 50 milhões de euros

A minha geração de torcedores (trinta e poucos anos) se acostumou a ver jogadores de destaque do futebol brasileiro deixando os clubes daqui e partindo para a Europa. Barcelona, Real Madrid, Bayern de Munique, Manchester United e outros gigantes do Velho Continente eram os principais alvos. Com o passar do tempo, nos acostumamos a ver nossos atletas se transferindo para França, Holanda e países do Leste Europeu. No entanto, os últimos meses nos mostraram que a China é quem tem dado as cartas (e o dinheiro) no mundo do futebol. Mas, aqui entre nós, o que eles têm que nós não temos?

Para responder essa e outras perguntas, vamos a alguns fatos. Todos nós acompanhamos o desmanche da base do time do Corinthians campeão brasileiro de 2015. Jadson, Renato Augusto, Gil e Ralf, todos eles nomes que poderiam tranquilamente fazer parte de qualquer lista de convocados para a Seleção Brasileira e ainda fazer bonito na Europa, acabaram seduzidos pela fábula de dinheiro oferecida pelos chineses e, consequentemente, pela estabilidade financeira que todos passarão a ter depois dessa passagem pela Ásia.

Ao mesmo tempo, vimos ontem que o técnico do Shakhtar Donetsky, Mircea Lucescu, confirmou a venda do meia-atacante Alex Teixeira por 50 milhões de euros (aproximadamente 280 milhões de reais). O jogador, que era pretendido pelo Liverpool, acertou com o Jiangsu Suning, mesmo clube que tirou Ramires do Chelsea. Com 26 anos de idade e jogando um bom futebol, Alex Teixeira foi mais um a preferir a estabilidade financeira a continuar tentando a sorte na Europa.

Bom, como se pode perceber facilmente, uma das coisas que a China tem e que nós não temos é aquilo que move o mundo há séculos e séculos: dinheiro, muito dinheiro.

O consultor de gestão esportiva e colunista do Jornal Lance!, Amir Somoggi, nos explica que o governo chinês decidiu que quer ver o país no centro do futebol mundial. O esporte se transformou em política de estado, sendo praticado nas escolas primárias tanto por meninos como por meninas (lembramos que a China tem muita tradição no futebol feminino). Além disso, o esporte recebe incentivo financeiro desde as equipes amadoras até as profissionais, essas comandadas por grandes magnatas. Não é difícil descobrir de onde vem tanta grana.

Em janeiro de 2016, a Liga Chinesa já havia ultrapassado a média de vinte e dois mil torcedores por jogo. Número bastante superior à média brasileira: dezessete mil torcedores por partida, apenas a décima-terceira no ranking do futebol mundial. Ainda que o futebol chinês esteja bem abaixo daquilo que se pode ser chamado de um futebol de alto nível alguns jogadores de renome internacional como o colombiano Jackson Martínez preferem a estabilidade financeira a tentar a sorte numa carreira em que o atleta já é considerado “velho” com 35 anos de idade.

Como julgar o atleta profissional que faz uma escolha dessas? Será que faríamos o mesmo se estivéssemos no lugar deles? Será que resistiríamos aos milhões de dólares oferecidos pelos clubes chineses? Alguns conseguiram (caso do santista Lucas Lima). Mas o assédio asiático vai continuar por muito mais tempo.

Por outro lado, e já falando do Brasil, é impossível não notar que essa invasão chinesa só evidencia a enorme crise institucional do nosso futebol… Confusões nos bastidores, calendário deficitário e a qualidade dos nossos campeonatos estaduais são apenas alguns exemplos do nosso atraso no quesito organização.

Quem são os responsáveis por isso? Sim, caro leitor, você adivinhou. Os nossos dirigentes é que são os principais culpados. Competições desorganizadas e esvaziadas (os míseros 537 pagantes de Fluminense X Bonsucesso, pelo Campeonato Carioca, é um exemplo clássico disso), as enormes dívidas dos nossos clubes, a violência das “torcidas” organizadas e os desmandos da CBF são alguns dos motivos que levam o jogador brasileiro a buscar outros ares. Enquanto os principais times europeus ainda têm condições de segurar os seus atletas, nossos clubes ainda se encontram totalmente reféns das equipes chinesas.

Vamos lá, amigo leitor… O que você escolheria se fosse um jogador profissional? Aturar a estrutura do nosso futebol em busca, talvez, de uma convocação para a Seleção Brasileira (que nem tem mais o respeito que já teve), ou um salário faraônico no obscuro e distante futebol chinês? Bom, a grande (e dura) verdade é que nossos jogadores têm preferido a segunda opção…

E o que fazer? Como vencer o mercado chinês? A única saída dos clubes brasileiros está no trabalho de reestruturação a longo prazo e no investimento nas categorias de base. Ou se organiza a casa, ou qualquer um vai entrar aqui e levar o que quiser. Ou nossos dirigentes param de olhar para o próprio umbigo (e o próprio bolso) ou as coisas vão ficar complicadas.

Se Chelsea, Shakhtar Donetsky e Atletico de Madrid já perderam alguns dos seus jogadores para o futebol chinês, imagina só como está situação dos clubes brasileiros…

Um grande abraço e até a próxima.

Crédito da foto: Reprodução / Facebook



Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.