Opinião: como a China vem pasteurizando o esporte mais popular do planeta

Crédito da foto: website South China Morning Post

Que os empresários e clubes chineses vêm ocupando diariamente os noticiários esportivos, você já sabe. Que as fortunas que eles têm jogado na mesa de negociação são proporcionais à Grande Muralha, isso também não é mais novidade para ninguém

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O que poucos parecem perceber ou dispostos a comentar é a ameaça que esse fenômeno pode trazer ao desenvolvimento do esporte no mundo todo e, particularmente no Brasil, habitual celeiro de talentos. Não se trata mais de levar jogadores em final de carreira, ou em transição de fase: a mira chinesa também está de olho em jovens talentos e revelações, que ainda sequer amadureceram seus estilos de jogo. E que ainda nem estariam prontos técnica e pessoalmente para um salto dessa imponência.

Obviamente, quando se fala em dinheiro tão alto, é muito difícil um jogador recusar ou, ao menos, deixar de considerar seriamente a possibilidade. O que dizer então dos empresários e camelôs de talentos, que não pensam no futuro desses jogadores?

Volto à fatídica Copa do Mundo de 2014. Mais: volto às Copas de 2006 e 2010 também, em que começou a ficar evidente que o Brasil não era mais a bola da vez, não era mais a toda poderosa Seleção Canarinho, temida nos quatro cantos do globo. E uma das hipóteses que se considerou, ao vermos o jogo de equipe, entrosado, com a tática coletiva priorizada em detrimento do talento individual, foi justamente essa diáspora do futebol nacional: cada vez mais, os nossos jogadores projetavam suas carreiras lá fora, obviamente pelos salários, visibilidade e condições mais atraentes. E claro que isso faz toda a diferença na hora de montar uma equipe nacional para disputar um torneio de um mês de duração. A começar, quase ninguém se conhece no dia a dia, salvo as exceções que eventualmente se encontram nas mesmas equipes europeias.

Mas ali estávamos falando de Europa, um panorama de disputa acirrada e muito aprendizado. A prova disso são as potências montadas nos últimos anos, como Barcelona, Bayer, Real Madrid e PSG. Outra evidência? Desde a Copa de 2006, somente seleções europeias ganharam a competição, com folga. Então, considerando isso, ficamos num contexto de, dos males, o menor.

É preciso ser muito encantado com a parte financeira para não reconhecer que isso não acontecerá no cenário chinês para o bem dos nossos craques. Outros descobridores tardios do futebol já tentaram essa fórmula do cacife monetário, como os países árabes, os magnatas russos e ucranianos e os coreanos – mas você não percebeu nenhum grande desenvolvimento nessas searas, certo? O máximo que se viu foi uma Coreia do Sul um pouco mais competitiva em Copas do Mundo e competições asiáticas, assim como o Japão, que começou esse aprendizado um bocado antes, e de outro modo: importando conhecimento, consultoria, experiência, e observando muito o jogo, dedicando-se a ele. Claro que houve investimento, mas a característica nipônica é outra, por isso o jeito de fazer, também. Está aí a Seleção do Japão para mostrar que, afinal, algo foi aprendido por lá, e não dependeu apenas de money. A mesma coisa, de certa forma, pode se dizer dos Estados Unidos, cuja seleção representava muito pouco na Copa que o país organizou em casa, em 1994, mas que evoluiu bastante desde lá. E não foi apenas o dinheiro, que os norteamericanos também tinham.

Pode parecer que minha leitura é derrotista ou enciumada, mas não acredito que essa fórmula do dinheiro pelo dinheiro vai trazer ganhos para o esporte no final. E fico temeroso quanto ao futuro do futebol tupiniquim, a se confirmar nas próximas disputas internacionais e, especialmente, daqui a dez ou vinte anos. Espero que a minha bola de cristal nesse prognóstico esteja redondamente enganada. A se confirmar.

Crédito da foto: Website South China Morning Post



Redator, professor e compositor. Tive a honra de começar minha jornada no Departamento de Telejornalismo da Bandeirantes, junto a Mauro Beting. Fã dos esportes em equipe, sou um devoto dos torneios internacionais. Acredito que o futebol, como qualquer paixão, tem que ser vivido no coração e na mente. Sem excessos e com bom senso.