Conheça o verdadeiro “número 1” do Brasil na NFL

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Todos consideram que o kicker Cairo Santos seja o primeiro brasileiro nascido no país a jogar na NFL. Mas e Demetrin Leandro Veal? Já ouviu falar? Possivelmente você já escutou esse nome – ele jogou na NFL pelo Atlante Falcons, Denver Broncos, Tennessee Titans -, porém, nunca relacionado ao Brasil. Escondido até hoje, ele foi nada menos que o primeiro jogador brasileiro a atuar na principal liga de futebol americano do mundo. Sua história ficou escondida por anos, mas agora reivindica seu lugar junto aos outros conterrâneos.

“Não é uma questão de ser o primeiro (brasileiro), mas uma questão de ser reconhecido em meu país natal. Eu nasci no Brasil e consegui chegar lá (na NFL)”, clama Leandro Veal em entrevista ao Torcedores.com.

Cairo Santos é também considerado, até então, o primeiro a pontuar, disputar playoffs, e fez sua fama no Brasil. Obviamente ele tem sua importância, não é o caso de desmerecê-lo, porém agora sabemos que todos esses acontecimentos pertencem, na verdade, a Leandro Veal, esse cara de sangue brasileiro, nascido na Bahia, que já fazia sucesso na NFL no início dos anos 2000 e não era kicker.

Conheça a história do verdadeiro pioneiro do país no futebol americano

Mais de uma década antes de Cairo Santos entrar na principal liga de futebol americano do planeta, Leandro era selecionado no Draft – de 2003 – pelo Atlanta Falcons, no sétimo round, como a 238ª escolha. No ano seguinte, migrou para o Denver Broncos e posteriormente para o Tenessee Titans, onde, em 2007, se aposentou. Ele foi o primeiro brasileiro a jogar, a pontuar, a chegar nos playoffs e tem uma história de vida incrível, que renderia facilmente um livro ou até mesmo um filme.

Mas para entender porque ninguém nunca deu esta notícia, descoberta pelos jornalistas Fernanda Pessanha e Felippe Drummond Neto, é preciso voltar muitos anos no tempo.

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Nascido em Salvador (BA) no dia 11 de agosto de 1981, Leandro Veal foi adotado aos cinco anos de idade por uma família americana e foi viver nos Estados Unidos. Durante toda a infância, Leandro sequer sabia deste passado. “Pra falar a verdade nem sempre soube que era brasileiro. É difícil de explicar para uma criança a complicação de ser adotada por pais de outro país. Mas, ao longo dos anos, meus pais foram conversando comigo aos poucos. O bom é que como era criança foi fácil aprender o inglês”, conta Leandro.

Ainda assim, depois da descoberta, não falava sobre isso com muitas pessoas, apenas amigos mais próximos. O nome dele enquanto jogador, Demetrin Veal, nunca teve relação com o Brasil, pois como não tinha a certidão de nascimento e foi logo estudar em uma escola de Paramount, Califórnia, lá foi registrado como nascido no local. Depois, a universidade em que ele jogou (Tennessee), assim como as equipes da NFL, apenas repetiram os documentos da escola. Por isso, ele nunca foi colocado como um jogador de origem brasileira, mas sim da Califórnia.

“Quando fiz 20 anos, poucas pessoas sabiam sobre isso (ser brasileiro), apenas os meus companheiros de time e amigos íntimos. Mas isso foi antes do boom das redes sociais, então ninguém ligava muito para essas coisas tipo um brasileiro jogando na NFL. Eu era só mais um. Por isso, acho que ninguém se atentou para este fato antes”.

As primeiras jardas

Demetrin começou a carreira esportiva tardiamente. Era uma garoto tímido, pequeno e chegou a participar do clube de matemática e a praticar esportes como skate, surf ou mesmo pólo aquático no ensino médio, antes de iniciar no futebol americano. Apesar disso, um de seus professores acreditava que ele teria potencial. Foi aí que, de repente, ele deu aquela esticada natural da adolescência, ficou enorme, e, no último ano do ensino médio, resolveu tentar algo novo, entrando para o time de futebol americano. À época, Leandro não pensava ainda em jogar na NFL, estava apenas se divertindo.

“Não comecei a jogar futebol americano porque era meu sonho; pelo contrário, só fui jogar porque era maior e mais forte que os outros garotos da minha idade, e meu treinador no ensino médio via potencial. Foi aí que descobri que eu era bom neste esporte. Acho que isso se deve ao sangue brasileiro, somos naturalmente atléticos”, conta ele.

Carreira sólida na NFL

Após ter sido selecionado pelo Atlanta Falcons em 2003, Leandro Veal jogou 37 partidas na NFL, como defensive tackle e defenside end, por Atlanta Falcons, Denver Broncos e Tennessee Titans. Mas uma ruptura parcial do ligamento colateral do joelho, em 2007, interrompeu a carreira na liga.

Durante a estada na NFL, ele também conseguiu marcar pontos, mesmo jogando na defesa. Em 2005, fez um safety – que vale dois pontos (quando derruba-se o adversário na própria endzone) –, o que o torna o primeiro jogador do país a pontuar.

Leandro ainda tentou voltar a jogar na UFL (United Football League), em 2009, pelo Florida Tuskers, uma espécie de segunda divisão nacional de futebol americano, mas a liga acabou e ele decidiu se aposentar do esporte completamente em 2011.

Depois de se dedicar sete anos ao futebol americano como jogador, Leandro fez uma tentativa no MMA. Fez quatro lutas, sendo apenas uma única luta oficial, em 2012, quando nocauteou Chad Wicks, ainda no primeiro round. Mas, como ele diz, foi apenas uma experiência.

De volta ao Brasil

Então, de volta às origens, Leandro juntou-se ao americano, assistente técnico da seleção brasileira de futebol americano, Clayton Lovett, e ambos montaram um Centro Comunitário para crianças em Salvador, chamado “Our kids, Together Foundation”. O objetivo é dar às crianças uma oportunidade de ter sucesso na vida, ensinando, educando e aconselhando através dos princípios do esporte.

“Basicamente, eu não estaria onde estou sem uma ajudinha, então, sinto que não é somente minha obrigação, mas também minha responsabilidade passar essa benção para a próxima geração o máximo que puder.” Esta é a razão para isso, além de ensinar às crianças um esporte que me deu tanto na vida” – desabafa Veal.

Leandro não mora no país, mas já pensou em se mudar. Enquanto não vem, fica dividido entre a temporada de futebol americano sueca, onde é assistente técnico da defesa e coordenador de linha defensiva do time Tyresö royal crowns, e a off-season (pós-temporada), período que vive entre Denver, nos Estados Unidos, e as visitas ao Brasil.

Mas o que ele mais quer não é ‘tomar’ o posto de Cairo Santos como o primeiro brasileiro a ter jogado na NFL, e sim o reconhecimento no país natal.

“Para mim, não é uma questão de ser o primeiro, mas uma questão de ser reconhecido. Todos nós fizemos parte disso, e eu quero que esse seja o nosso legado. Sim, eu nasci no Brasil e consegui chegar lá (na NFL), mas deveríamos ser 4 ‘filhos’ do Brasil que jogamos na NFL ”.

Outros brasileiros

Leandro refere-se aos outros três jogadores com alguma ligação com o Brasil e que já estiveram na NFL. O primeiro é o tight end Damiam Vaughn, que ainda criança foi morar no Tio Sam. Ele entrou na NFL e compôs o elenco do Buccaneers e do Bengals, de 1998 a 2002 – mas não jogou nenhuma partida.

O segundo é o right tackle Breno Giacomini. Filho de brasileiros, ele foi selecionado pelo Green Bay Packers em 2008, depois passou pelo Seattle Seahawks, pelo qual foi campeão do Super Bowl em 2014, e atualmente joga no New York Jets.

O terceiro é o kicker Cairo Santos, do Kansas City Chiefs, que até então ostentava o posto de primeiro brasileiro a jogar na NFL.

Se somarmos a essa história os também kickers brasileiros Maikon Bonani e Raiam dos Santos, o Brasil tem nada menos que seis jogadores com história na NFL. Maikon fez testes no Tennessee Titans em 2013 e acabou cortado. Já Raiam tentou entrar na NFL em 2011 via Draft, mas não teve sucesso.

Crédito da Foto: Reprodução / Site Oficial da NFL



Formanda de Jornalismo, formada em Educação Física, pós-graduada em Administração e Marketing Esportivo e apaixonada por esportes, principalmente os Olímpicos e o Futebol Americano "brasileiro". Experiência na área de assessoria de imprensa esportiva e na área de Rádio e TV em grandes eventos, como os Jogos Pan-Americanos Rio 2007 e a Copa do Mundo 2014