Entrevista: “A elitização não acaba com a violência”, afirma especialista

Crédito da foto: Letícia Oliver/Torcedores.com

Para 68% dos torcedores, a violência é a maior causa de afastamento do público dos estádios brasileiros, seguida de preços (ingresso e alimentação), transporte e falta de conforto nos estádios, respectivamente. É o que aponta uma das pesquisas iniciadas em 2009 – e com dados atualizados em 2014 – pelo Núcleo de Sociologia do Futebol da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), lideradas pelo sociólogo Mauricio Murad, referência quando o assunto é violência no futebol.

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De acordo com o especialista, a elitização dos estádios traz uma falsa ideia de contenção da violência, porém as pesquisas coordenadas por ele desde o início da década de 90 até os dias atuais indicam que o problema não está ligado às classes sociais, de renda e escolaridade.

“Infelizmente a violência é universal e tem torcedor violento em todas as classes e origens sociais. Não adianta elitizar. Melhorar as condições do espetáculo é uma coisa positiva, mas isso não deve trazer, necessariamente, a elitização, ou seja, o aumento absurdo no preço dos ingressos e a dificuldade de acessos das camadas populares ao futebol, por uma razão muito simples: historicamente são elas que deram ao futebol essa grandeza que ele tem, de identidade coletiva, de simbologia e de representação cultural do país”, pontuou.

No entanto, segundo Murad, o dado apresentado reflete uma sensação de insegurança por parte dos torcedores influenciada pela imprensa, mas não a real situação encontrada nos estádios brasileiros.

“Um dos fatores que ajudam a entender a violência no futebol, de acordo com as pesquisas, é o sensacionalismo da mídia, que aumenta a sensação de insegurança nos estádios de futebol. Por isso é preciso que os veículos de comunicação tenham um pouco mais de consciência e de responsabilidade social para tratar desse tema. A imprensa não inventa, ela apenas noticia o que já existe, mas falar o que acontece, como acontece, em que horário vai passar e qual destaque vai ter são escolhas a serem feitas, que podem mudar tudo, afinal, edição é edição”, completou.

O sociólogo defende que é preciso combinar duas variáveis: a modernização atrelada ao conforto dos estádios, com o acesso das camadas mais populares da sociedade ao futebol.

“Precisamos melhorar as condições do futebol enquanto espetáculo sem que isso represente elitização. Para equilibrar a finança perdida no preço razoável do ingresso, é possível transportar esse custo adicional, por exemplo, para a venda de produtos licenciados do clube e para a comercialização de comidas e objetos de lembrança. A modernização é um fator que aumenta o marketing, o agenciamento de empresas que vão querer anunciar seus produtos. Numa situação ideal, os estádios estarão sempre muito cheios, entre 40 e 50 mil pessoas, e isso atrai o investidor. Assim você compensa o ingresso promocional, mais barato. É possível mesmo, as pesquisas comprovam que é possível modernizar sem excluir, ou melhor, modernizar e incluir”, sugeriu o pesquisador.

Crédito da foto: Reprodução/Youtube