Goleiro vê carreira ameaçada por religião após perder contrato com time da Série A

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Vitor é um dos destaques do Londrina, time recém-promovido à Série B do Brasileirão, e tinha tudo para se tornar o goleiro da Chapecoense, time que há duas temporadas disputa a elite do futebol brasileiro. Porém, a sua religião impediu o acerto com a equipe catarinense e pode abreviar a carreira do atleta de 30 anos. O motivo? Vitor é adventista e por isso não pode trabalhar aos sábados, algo impensável para um jogador de futebol.

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O jogador decidiu depois de 10 anos de estudos da Bíblia se converter à religião da Igreja Adventista do Sétimo Dia que pede que seus adeptos se resguardem entre o pôr do sol de sexta-feira até o pôr do sol de sábado. Neste intervalo, é proibido trabalhar, estudar ou fazer qualquer atividade que não seja o repouso ou o culto.

A decisão, uma das mais pessoais que pode existir, fez com que o acerto encaminhado entre Chapecoense e Londrina não se concretizasse. Além disso, o contrato com o time paranaense termina em maio e não deve ser renovado.

No entanto, nada disso faz com que Vitor perca a calma ou tema o seu futuro. “Estou bem tranquilo e confiante. Não tenho com o que me preocupar”, afirmou em entrevista exclusiva ao Torcedores.com.

Vitor falou por cerca de 15 minutos sobre a decisão que tomou de se tornar adventista, sobre o futuro como jogador de futebol e sobre o interesse das pessoas na sua vida pessoal.

Confira a entrevista:

Torcedores.com: Como você está encarando o assédio e o interesse sobre a sua vida pessoal?

Vitor: Estou surpreso. Muitas rádios e TVs estão me procurando para dar entrevista. É engraçado porque quando eu era “só” jogador não era assim, mas essa decisão deixou as pessoas alvoroçadas pela vida pessoal de um atleta. Quando fiquei desempregado por quatro meses ninguém me ligava para saber como estava, ninguém se propunha a pagar minhas contas. Mas agora tenho visto muitos comentários, muitas vezes sem respeito.

Torcedores.com: Como você tomou essa decisão? Há quanto tempo pensa nisso?

Vitor: Há mais de 10 anos venho examinando a Bíblia, as escrituras, e descobri a verdade que ela diz, que é preciso descansar no sábado. Assim com não matar, não adulterar. Chegou em um ponto de decidir se seguia o que eu lia na Bíblia ou ignorava. Esse ano decidi tomar a decisão de me batizar.

Torcedores.com: Mas guardar o sábado pode atrapalhar a sua carreira, já que existem jogos no sábado…

Vitor: Essa questão de jogos de sexta e sábado é mais na Série B. Na Série A e C não, isso não atrapalharia. No sábado as equipes costumam fazer um rachão, um treino recreativo, muitas vezes nem treinam. Só na Série B que a maioria dos jogos é no sábado.

Torcedores.com: Você recebeu uma proposta da Chapecoense, mas o acordo não avançou. Como fica sua situação no Londrina (o contrato é válido até maio de 2016)?

Vitor: Quanto eu tive uma proposta da Chapecoense, eu avisei o presidente sobre a minha condição e houve a negativa por conta da minha condição do sábado. Não deu certo, mas o gestor do Londrina (Sérgio Malucelli) falou que renovaria o contrato, mas tenho visto nas redes sociais e internet que ele falou que não vai renovar. Preciso falar com ele para ver se ele tem uma palavra ou duas, se vai manter ou não o que tinha me dito. Eu iria renovar até dezembro sem nenhum reajuste no salário. Aceitei todas as condições.

(Nota da redação: Sérgio Malucelli falou ao Portal da Band e confirmou que o contrato não será renovado.)

Torcedores.com: O que você achou da recusa da Chapecoense em confirmar a contratação?

Vitor: Como é um fato novo, inusitado, existe um choque porque no futebol você precisa estar disponível 24 horas por dia. Eu tinha uma esperança de dar certo, mas pelo visto está havendo uma negação sobre a minha liberdade religiosa.

Torcedores.com: Em algum momento você se arrependeu?

Vitor: Não me arrependi em nenhum momento. A paz que vem de Deus é indescritível. Quem opta por Deus nunca vai se arrepender. Ou Ele não existe ou ele existe e eu prefiro acreditar que Ele existe.

Torcedores.com: Você tem medo de ser obrigado se abandonar o futebol?

Vitor: Medo eu não tenho. Já fiquei um tempo desempregado, mas é no momento mais difícil da sua vida você vê quem pode contar. Eu saio mais fortalecido e uma provação maior que essa não há. Não tenho medo, Deus me deu saúde e capacidade intelectual para ganhar o pão de cada dia. Se for no futebol, ótimo. Sempre lutei para ter a minha carreira, mas se não tiver clube para jogar vou tomar outro caminho. Pode ser que tenha abreviado minha carreira ou pode ser que não.

Torcedores.com: Como foi a reação dos seus companheiros, principalmente do goleiro reserva Marcelo Rangel e provável futuro titular?

Vitor: Sobre o Marcelo, somos grandes amigos e conversamos muito sobre o assunto. Falei para ele se preparar para jogar. Nosso treinador (Claudio Tencati) não gosta muito de revesar, prefere sempre uma base titular e talvez até no Estadual tenha essa mudança. Os outros jogadores que conversaram comigo entenderam e não houve julgamento.

Torcedores.com: Como você vê a religião dentro do futebol?

Vitor: Sem querer generalizar, mas tem muita gente que acaba se aproveitando para criar uma imagem. Chegou em um ponto que optei por falar e fazer. Muitos falam e não fazem, muitos usam Deus como amparo só para horas ruins. Decidi dar continuidade na minha relação com Deus, claro que sabia que a decisão teria consequências boas e ruins.

Crédito da foto: Divulgação



Editor senior do Torcedores.com, o jornalista formou-se na Universidade Metodista em 2009 e passou pelas redações do Diário do Grande ABC, Agora SP, UOL e Fox Sports, onde fez a cobertura da Copa do Mundo de 2014. Está no Torcedores desde outubro de 2014.