Opinião: Um morno GP Brasil, a fraca audiência e a punição exagerada a Felipe Massa

Neste fim de semana ocorreu o GP Brasil de Fórmula 1. O circuito de Interlagos é um dos mais completos do calendário e um dos mais queridos pelos pilotos. A expectativa era de que fosse uma corrida ótima, apesar de o título já ter sido decidido, mas acabou sendo um GP sonolento…

Nico Rosberg fez a pole position e venceu a prova sem dificuldades, garantindo assim seu bi-vice. Não errou e, desta forma, não perdeu a corrida – evitando o que havia acontecido em Austin. Naquela ocasião, o próprio alemão disse ter se sentido “absolutamente nojento”, e que Lewis não havia vencido, mas que ele havia perdido. Fato. No México e no Brasil foi diferente: Nico foi superior o fim de semana inteiro e venceu merecidamente. Será que isso ocorre porque Hamilton já está mais “relaxado” desde que garantiu o título antecipadamente? Talvez isso contribua sim, mas o alemão se tornou um adversário muito mais forte neste final de campeonato e isso, ninguém pode negar.

Uma das coisas que mais me chamou a atenção nos últimos GPs foi o fato de a Mercedes não permitir que Hamilton fizesse estratégias diferentes das de Rosberg. Se Lewis tivesse conseguido impor sua vontade de arriscar algo diferente, talvez tivesse conseguido chegar para brigar com Nico. Conforme Hamilton revelou, enquanto na McLaren os pilotos tinham estrategistas diferentes, na Mercedes trabalha-se com somente um estrategista geral, e Toto Wolff explicou à Sky Sports F1 o suposto motivo para isso: “Se você começa a separar as estratégias, a controvérsia na equipe começa a piorar”. Ou seja, a Mercedes está pensando em facilitar as coisas para ela mesma, para que os pilotos não se sintam prejudicados ou beneficiados dentro da equipe e isso não gere confusões ou desacordos. Mas eles se esqueceram de um único detalhe: trata-se de um campeonato de CORRIDA DE AUTOMÓVEL. O público quer ver os pilotos competindo entre si, independentemente de serem da mesma equipe ou não. E, para isso ser possível, muitas vezes as estratégias têm de ser diferentes. Então, por favor Mercedes, pare de capar a Fórmula 1. Os fãs da categoria agradecem.

Hamilton chegou a dizer no rádio que não conseguiria ultrapassar nessa pista. O menino Max Verstappen, entretanto, provou que o inglês estava errado: fez duas LINDAS ultrapassagens (ambas por fora), uma sobre Pérez e outra sobre Nasr. Parece que o garoto se especializou em fazer ultrapassagens por fora, apesar de fazê-las de todas as formas imagináveis. Ele é tão destemido que consegue achar (ou criar) brechas onde supostamente não existiriam e não é à toa que já se tornou o piloto queridinho de tanta gente – eu gosto desse moleque desde o começo e meus textos estão aí pra comprovar isso, mas mesmo os que o achavam o “novo Maldonado” já estão mudando sua opinião sobre ele.

Fora as três fantásticas ultrapassagens que vi na corrida (as duas já citadas feitas por Max Verstappen e a de Nasr sobre Button), o GP foi morno, sonolento. Confesso que tive imensa dificuldade para controlar o sono. Raikkonen não anda proporcionando muita emoção, Massa estava tendo dificuldade com seu carro desde os primeiros treinos, Nasr foi bem no começo, mas começou a sofrer com o desempenho de sua Sauber, Riccardo lá atrás, McLarens sofrendo pra terminar a corrida, Vettel e Bottas, cada um em seu cantinho, sem conseguir incomodar quem vinha à frente… Enfim, apesar de todas as ultrapassagens no pelotão intermediário, foi uma corrida simplesmente chata. Mas pudemos presenciar um Maldonado diferente no Brasil – ele estava irreconhecível, com uma postura sensata em todas as ultrapassagens que fez ou levou. No incidente que resultou em sua punição, não acho que tenha feito algo errado, foi um incidente normal de corrida, mas ele é o Maldonado e tem todo um retrospecto contra ele.

As três grandes repercussões do final de semana se deram antes ou após a corrida: Alonso mitando, recorde de baixa audiência do GP Brasil e punição a Felipe Massa. Alonso é um gênio como piloto e, às vezes, tem sacadas geniais fora das pistas também – e isso é tudo o que tenho a dizer sobre o banho de sol que zerou a internet.

Com relação à baixa audiência da Globo durante a corrida, acredito que em parte, isso se deve ao fato de que brasileiro gosta é de ver brasileiro vencendo e o esporte em si fica em segundo plano. Mas acredito também que, se o campeonato estiver mais interessante em 2016 (com brigas reais pelo título), a audiência tende a subir novamente. Outro fator importante é que o brasileiro está mudando sua forma de acompanhar os GPs. Se antes era somente pela tv aberta, agora ele usa streamings na internet, onde pode ver a prova e ainda tem acesso a muitas outras informações pré e pós-corrida. Prova de que o interesse não diminuiu tanto quanto parece, é que o público foi maior em Interlagos neste ano do que no ano passado, contabilizando 136.410 pessoas durante os três dias. Eu, particularmente, assisto às corridas na tv aberta e depois assisto novamente na tv fechada, pois gosto de como as transmissões são feitas mais livremente por lá. Talvez seja o futuro natural da categoria por aqui também, assim como já acontece em vários países e eu não teria nada contra esta decisão, mas ela prejudicaria muita gente que não tem condições de adquirir um pacote de tv por assinatura. No final das contas, o que eu quero, e acredito que a maioria dos aficionados por automobilismo também, é uma transmissão melhor e mais completa, seja ela onde for. Também gostaria que colocassem o Lito Cavalcanti pra comentar junto com o Reginaldo Leme, pois isso é feito na Stock Car e o resultado é ótimo.

Sobre a polêmica envolvendo Felipe Massa: Ele foi desclassificado algumas horas após a corrida. O boletim informou que a medição feita conforme diretiva técnica da FIA TD / 029-15 apontou que seu pneu traseiro direito estava a 137 graus, sendo a temperatura máxima permitida de 110 graus. A Williams diz que a medida de seus dois sensores (que são independentes entre si) apontam temperaturas dentro das regras. O primeiro, dentro do cobertor térmico, apontou uma temperatura de 104 graus, enquanto o segundo, do carro, informou que o pneu estava a 107 graus. Acredito que o maior problema nisso tudo é a falta de critério da FIA. Se os pilotos da Mercedes tiveram um problema semelhante no GP de Monza e não foram punidos, por que Felipe Massa tem que ser punido de maneira tão severa, com uma desclassificação? Sim, é verdade que ficou instituído que, a partir daquele incidente em Monza, o que antes eram “recomendações” da Pirelli passariam a ser regras. Apesar disso, acho que uma desclassificação é desproporcional, ainda mais quando não há uma recorrência por parte da equipe. Uma punição de alguns segundos ou algumas posições no próximo grid estaria de bom tamanho, mas desclassificação, para uma primeira punição do tipo, acho exagerado. É natural que a Williams se sinta prejudicada e queira apelar (ainda mais se seus sensores realmente apontaram que o pneu estava dentro da margem aceitável de temperatura).

A última corrida do campeonato se aproxima e eu já me sinto deprimida. Pelo menos continuarei tendo a Fórmula E…

Imagem: Reprodução/Twitter Mercedes AMG Petronas



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