Opinião: Mauro Beting pode elogiar quem quiser. Você e eu também. Fora, intolerância!

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Peço licença não para defender o jornalista Mauro Beting, tampouco o palmeirense Mauro Beting. Defendo o ser humano Mauro Beting, o ser humano que sou, o ser humano que você, leitor, é. Porque nós, seres humanos, temos o direito de nos expressar, de viver em liberdade e de não sermos patrulhados por opiniões ou análises sérias que fazemos em uma sociedade cujos princípios básicos são a democracia e o direito à expressão.

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Com tanta gente pregando ódio, racismo, homofobia, etc, ainda temos que ver um profissional sério e ser humano raro ser alvo de ataques nas redes sociais, veja só, porque elogiou um rival do seu time do coração, que também é o meu. Sou palmeirense também, e digo como jornalista, como amante de futebol, como pessoa livre de cegueiras passionais, que o Corinthians de Tite é um dos melhores times que eu vi jogar. E merecidamente vai ser campeão brasileiro em 2015.

Nós, jornalistas, vivemos podados em uma sociedade que tem na hipocrisia uma de suas principais características. Não podemos declarar nosso voto nas eleições, temos medo ou receio de revelar nossos times do coração, não podemos falar se gostamos mais de Android,, Windows Phone ou iOS. Somos patrulhados o tempo todo apenas por opinar. Enquanto isso, algumas pessoas ganham espaço pregando intolerância, medo, ódio, e viram até potenciais candidatos a cargos públicos.

O fato de ser palmeirense não me impede de ver quando os rivais estão melhores. Não me impede de julgar os fatos de maneira séria e ponderada. Sei dizer, ao mesmo tempo, que o Palmeiras conseguiu ser hexacampeão brasileiro em 1973, portanto, 42 antes do Corinthians. Mas também que acho impossível que o Corinthians ganhe apenas mais dois títulos nos próximos 42 anos. Que o nosso time de 1999 era espetacular, mas que o deles de 2012 também fez história.

Sei dizer que o Santos de Pelé é o maior time da história do futebol, que o São Paulo dos anos 1990 e 2000 deixou os demais no “chinelo” em termos de organização e profissionalismo. Que Marcos é o melhor goleiro que eu vi jogar, mas que Rogério Ceni é único e jamais será substituído embaixo das traves e nas cobranças de falta do Tricolor. Que Ademir da Guia é um gênio, mas gênios também foram Pepe, Raí, Sócrates, Casagrande. Cada um com sua torcida, com os seus fãs.

Por que eu não posso ver nos rivais motivo de elogio? Queria eu ter no Palmeiras uma categoria de base como a do Santos. Queria que nossas “crises profundas” fossem como essa atual do São Paulo, com dirigente agredindo o outro, quatro técnicos em um ano, presidente renunciando, e o time a dois pontos da zona de classificação para a Libertadores da América. Que nossa torcida fosse compreensiva no Allianz Parque e acreditasse até o fim, como faz a do Atlético-MG.

Garanto que eles não falam, mas muitos times gostariam de ter essa nossa torcida que gasta muito com sócio-torcedor e ingressos para ver o Palmeiras jogar em um ano de crise econômica e desemprego. Adoro quando me perguntam se palmeirenses não são afetados pela situação do Brasil. Não somos, nosso amor é muito maior que crises passageiras, que PT x PSDB, que Dilma, Aécio e Eduardo Cunha. Como foi e é maior que dois rebaixamentos para a Série B. Tem time aí que veria um verdadeiro êxodo de torcedores se caísse uma vez, imagine duas. Nós causamos invejas em algumas coisas, podemos ter inveja em outras. Ninguém é perfeito.

Reconhecer o que existe de bom no rival do nosso lado e valorizar o que nós temos de bom em vez de apontar defeitos deles deveria ser a postura de um torcedor. Mas muitos preferem o caminho da ditadura. Se você é palmeirense, jamais diga nada a favor do Corinthians, do Santos, do São Paulo. Ignore o sucesso deles, diga que é roubo, esquema de arbitragem. Afirme com todas as letras que só nós somos prejudicados por erros de juízes.

Se engane, fique cego. Assim, os rivais continuarão chegando ao nosso estádio e declarando abertamente, sem o menor pudor, que é só “segurar o jogo por 15 minutos que a torcida deles começa a jogar contra”. Ignoremos os nossos defeitos, apontemos mesmo apenas o que há de errado nos rivais. Pensemos que somos perfeitos. Receita perfeita para continuarmos a ser o time da saudade, da nostalgia, enquanto os outros fazem piada da nossa cara.

Mauro Beting foi xingado por dizer a verdade. É muito melhor do que ser exaltado por dizer mentiras e jogar uns contra os outros. Prefiro ser alvo de xingamentos assim também, mas continuarei a defender o direito de expressão inclusive para que você nos xingue. Na torcida para que um dia isso pare. Tem que parar. Fora, intolerância!

Foto: Reprodução/Facebook



Editor do Torcedores.com, está no site desde julho de 2014. Formado pela Universidade Metodista de São Paulo, já passou por UOL, Editora Abril e Rede Record. Participou da cobertura da Copa do Mundo de 2014, de dois Pans, dos Jogos Olímpicos de Londres 2012 e do Rio 2016. Também colabora com o ONDDA, site "irmão" do Torcedores.com.