Confira uma entrevista com Ariane Nascimento, ala do Atlético de Madrid no futsal

Confira a entrevista exclusiva da ala brasileira de 28 anos, atualmente atleta do Atlético De Madrid Feminas Navalcarnero. Ela vai nos contar sobre sua carreira, o futsal espanhol e suas diferenças, mudança do futebol de campo para o futsal, as conquistas na Seleção Universitária, e palavras de motivação para as meninas e mulheres que tem o grande sonho de se tornarem atletas de futsal.

Questionada se houve frustração sobre a sua não convocação para o Mundial na Guatemala disse: ”Não sei se frustração seria a palavra mais correta para representar o que senti ao ver que meu nome não estava na lista. Lógico que feliz eu não fiquei, queria muito estar entre as 14 selecionadas e trabalhei muito duro para me destacar na Liga Espanhola.O pensamento é seguir em frente, traçar novos objetivos e ter a certeza de que oportunidades não vão faltar.”

Dani Pergunta – Você é natural de Viana no estado do Espirito Santo, como foi seu inicio no futsal? Qual fato nessa trajetória toda não se esquece?

Ariane Nascimento – ”Meu início no futsal e futebol, de uma maneira geral, foi nas ruas do bairro onde cresci. Nasci em Viana, mas quando completei dois anos de idade, fomos para Vila Velha, outra cidade muito perto da capital. Cresci no bairro Santa Mônica onde as ruas eram de barro e as crianças brincavam à tarde após o colégio. Brincava de bola com meu irmão e os vizinhos e atribuo meu início a essa época, por que foi ali que desenvolvi minha paixão e muitos aspectos técnicos que possuo até os dias de hoje. Das ruas enlameadas passei a jogar numa pracinha, com outras meninas, já com 10 anos. Destacava-me porque antes jogava somente com meninos. Jogando nessa pracinha que um professor me avistou e passei a treinar em sua equipe. Uma equipe pequena, de bairro do professor Niltinho.

O convite foi aceito e passei a treinar com meninas mais velhas e isso me ajudou muito. Jogando um campeonato de bairro com essa equipe, acabei me destacando e fui avistada por um grande treinador do estado do Espírito Santo. O professor Edvaldo Erlacher me fez um convite para treinar em sua equipe, UNIVILA. Aceitei o convite e, após uma competição, I TAÇA BRASIL SUB-20, toda nossa equipe foi convidada a representar a Associação Kindermann, em Santa Catarina. Arrumamos as malas e começamos uma grande história junto a esse clube, com direito a todos os títulos possíveis dentro do futsal brasileiro. Não me esqueço de duas coisas: a dificuldade que eu tinha para comparecer nos treinos da UNIVILA, já que não tinha dinheiro para passagem – sempre dependia da solidariedade das minhas companheiras com caronas, dinheiro e até lanches.

E, das muitas vezes, que tinha que sair escondida para treinar (os treinos aconteciam na parte da noite) e como os treinamentos terminavam tarde da noite, eu sempre dependia de uma amiga para dormir em sua casa. Não havia maneira de voltar a minha casa após as 00:00 horas.tá ai”

Dani Pergunta – Você é conhecida pela velocidade e precisão nos passes, atleta de classe mundial e que atua no momento em uma das melhores equipes de futsal da Espanha: Atlético de Madrid. Existe algum desejo ou sonho que não foi concretizado?

Ariane Nascimento – ”Existem muitos sonhos e desejos que ainda não alcancei e muitos deles não dependem só de mim. Um dos grandes desejos é que o futsal e futebol feminino sejam cada vez mais reconhecidos como profissão e que as atletas sejam consideradas “profissionais”. Ter segurança no trabalho, assim como as outras profissões de “carteira assinada” e que assim, possuem uma segurança na sua vida. Existe o desejo de que as atletas não precisem complementar sua carreira com outras atividades e que possam se dedicar exclusivamente ao que amam fazer. Existe o grande sonho de poder representar a Seleção Brasileira nos jogos Olímpicos, que ajudaria muitíssimo o reconhecimento das atletas e sua profissionalização. Ainda existe o sonho de voltar a representar a Seleção Brasileira, por ser o patamar mais alto dentro dessa área. E inúmeros outros objetivos que traço a cada ano para que a motivação sempre esteja presente. Um sonho que acabo de concluir foi o de ser a primeira mulher artilheira na Liga Espanhola em seu ano de estreia.”

Dani Pergunta – Qual a principal diferença entre o futsal feminino brasileiro e espanhol, em relação a calendário, público presente,etc? Como você analisa isso e se sentiu alguma dificuldade de adaptação.

Ariane Nascimento – ”A principal diferença é a organização. A competição é longa, duradoura, temos jogos todos os finais de semana, fazemos viagens por todo território espanhol e isso é muito motivador. Passamos o ano inteiro treinando com objetivos distintos a cada semana, já que em cada sábado temos um rival diferente. O nível das equipes aqui também me surpreendeu, enquanto no Brasil temos duas equipes em Santa Catarina, duas em São Paulo e uma no nordeste que se destacam, aqui cada jogo é uma batalha fervorosa. Dificilmente conseguimos placares de goleada, apesar de que nesse ano nossa equipe vem se destacando pela quantidade de gols. Todavia, no ano passado, essa não era nossa realidade. Com uma organização como essa, o público comparece, temos o carinho da nossa torcida, temos até uma “torcida organizada” que sempre estão nos jogos em casa! Receber o carinho deles é muito importante para nós. Aqui temos a Associação dos Clubes de Futsal Feminino e a Associação das Atletas de Futsal Feminino que nos apoiam e lutam por melhorias nas competições, além de induzirem uma maior visibilidade para as atletas, com estratégias de marketing. Todas as notícias, resumo dos jogos, fotos de jogadoras, estão disponíveis nos sites e durante a semana exibem os gols da rodada. Tudo isso influencia numa melhoria das competições nacionais espanhola, que admiro muitíssimo.
Quanto à adaptação na Espanha, não posso dizer que estou adaptada, “com todas as letras”. É um futsal muito tático, estuda-se muito as equipes contrárias e as atletas que nelas se destacam. O futsal espanhol é um conjunto mais acentuado do que o brasileiro, o jogo coletivo se sobressai na maioria das equipes. O idioma também foi um grande obstáculo para mim, agora já estou mais acostumada e já compreendo muito bem o Castellano, todavia o processo de aprendizagem é contínuo e sei que quanto mais eu entender o idioma e a cultura espanhola, mais adaptada estarei.”

Dani Pergunta – Você também jogou Futebol de Campo pelo Kindermann/Caçador-SC, como foi a experiência e qual sua preferência?

Ariane Nascimento – ”Quanto ao futebol de campo, eu sempre tive vivências na grama, por assim dizer. No Kindermann, desde de 2008 treinávamos as duas modalidades e me adaptava muito bem ao espaço e ao terreno. Tive muitas experiências positivas no campo e também é uma grande paixão, mas acabei optando pelo futsal por ser de minha preferência.”

Dani Pergunta – Na Seleção Universitária sempre com títulos, participações marcantes e decisivas e até prêmios sendo eleita melhor ala direita do Mundial Universitário em 2012, qual a importância da educação, da formação universitária na sua vida?

Ariane Nascimento – ”A formação universitária é muito importante na minha vida, porque viver do esporte somente é muito arriscado – pode acontecer lesões que te limitam fisicamente, pode acontecer problemas com desmotivação, pode haver uma convocatória que você não faça mais parte, em suma, uma série de fatores que podem não depender unicamente de você e, com a formação universitária, o atleta já tem uma segurança para poder dar continuidade com sua vida. Considero uma das escolhas mais importantes que fiz ao estudar e terminar a licenciatura em Enfermagem. Além disso, a formação universitária me proporcionou passar pela Seleção Brasileira Universitária que nos 4 anos de convocação me trouxeram uma experiência muito valiosa.”

Dani Pergunta – Recentemente do dia 05/novembro na abertura do I Campeonato Brasileiro de Futsal Feminino em Goiânia, houve uma coletiva de imprensa onde foram anunciadas as atletas escolhidas pelo técnico Wilson Saboia para defender a Seleção Brasileira no Mundial (23-29/nov.) que será na Guatemala. E você não esteve entre as atletas convocadas, há uma frustração? Qual o seu pensamento sobre isso, sendo que você vive grande momento em seu clube, o Atlético de Madrid?

Ariane Nascimento – ”Não sei se “frustração” seria a palavra mais correta para representar o que senti ao ver que meu nome não estava na lista. Lógico que feliz eu não fiquei, queria muito estar entre as 14 selecionadas e trabalhei muito duro para me destacar na Liga Espanhola e que assim pudesse ter esse reconhecimento. Mas como ser convocada não depende somente de mim, torço para que as “brazucas” representem nossa camisa com toda raça possível e que possam trazer mais um troféu para casa, o de campeãs. A Seleção Brasileira faz parte de todas as atletas de futsal e cada uma de nós faz parte dessa Seleção, estejamos convocadas ou não. Sempre vou me orgulhar de ter feito parte em 4 mundiais e continuarei trabalhando para que possa fazer parte de outros. O pensamento é “seguir em frente”, traçar novos objetivos e ter a certeza de que oportunidades não vão faltar, seja para mim ou para nossas brasileiras espalhadas pelo mundo.”

Dani Pergunta – Para finalizar, qual a mensagem que você deixa para as atletas de futsal e futebol feminino espalhadas no Brasil, que também tem/tiveram em algum momento o sonho de ser tornar uma grande atleta e viver da modalidade.

Ariane Nascimento – ”A mensagem que sempre deixo é: sigam o seu grande sonho. Se é jogar futsal ou futebol, faça isso acontecer, apesar dos obstáculos que possam aparecer pelo caminho. Cuide da sua felicidade e busque o que te faz feliz! Trabalhe duro para que isso aconteça e faça diferente, faça o que ninguém mais fez.”

Foto: Reprodução/Facebook