Opinião: todos perdem com fim dos canais NET Cidade por uma lei ‘boba’ da Ancine

O canal NET Cidade deixará de operar depois de 17 anos de uma história única. “Única” porque era a única emissora do Brasil e da América Latina que fazia um projeto de voluntariado, abrindo espaço para moradores locais a aprenderem sobre televisão, sem vínculo obrigatório com faculdade. Era totalmente aberto para a população participar. Mas uma determinação da Ancine, a Agência Nacional do Cinema, colocou um final a essa história muito reconhecida na televisão regional do ABC Paulista, Baixada Santista e Americana-SP.

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O Lente Esportiva, programa número 1 da casa e o de mais audiência, tinha uma marca registrada ao assinante, que podia saber com detalhes sobre seu time do coração. O clube tinha espaço que em outros canais de TV não tinha, era tratado como realmente ele merecia. O Cantinho da Várzea é outro projeto sensacional que deixa de ser veiculado. Ele dava voz ao futebol varzeano, muito forte nas comunidades. O fim do NET Cidade, que pertence à NET, prejudica o telespectador, que ficará praticamente órfão de informação sobre esportes e terá de procurar a internet e os jornais da região para se informar e, se tiver sorte, achar lances e gols da sua equipe.

A Ancine não permite desde 2012 que operadoras de televisão por assinatura tenham conteúdo ou canais próprios. O NET Cidade, desde então, funcionava devido às liminares que barravam essa lei “boba” e que não ajuda em nada a nenhuma das partes: pelo contrário. Além do telespectador, profissionais/voluntários perdem o único espaço onde podiam produzir conteúdo autoral. Eu mesmo, nos momentos de desemprego nessa difícil área do jornalismo, era no NET Cidade que eu me desenvolvia para ter um espaço na profissão um dia. Mesmo empregado, não deixei o canal, porque queria me aprimorar mais ainda.

Eu, como um dos remanescentes da emissora (onde entrei em 2008), caí junto. Fico muito triste pelo desfecho que esse canal passou, e sem podermos fazer sequer uma despedida digna (o NET Cidade não pode colocar mais nenhum programa novo no ar sob risco de altíssima multa à NET). Paulo Andrade, hoje narrador da ESPN Brasil, é tido como referência internamente por tudo que desenvolveu dentro da emissora, e hoje está onde está, totalmente por méritos e pelo o que aprendeu no ABC 3 (nome do canal antes de se chamar NET Cidade).

Por último, é ruim para a própria NET como empresa pioneira nesse tipo de projeto, deixando de ter o nome reconhecido nesse tipo de segmento. E é pior até para a concorrência local, pois o Lente Esportiva era referência para os outros. Diversos programas foram produzidos pelos outros canais para se bater de frente com o Lente, mas não vingaram, justamente pelo assinante já ter se fidelizado ao Lente Esportiva e pelo empenho de 110% da equipe de voluntariado do NET Cidade. Sem o NET Cidade, a concorrência não se esforçará tanto justamente por não poder se comparar mais a nenhum conteúdo rival, o que faz parte do mundo da televisão.

Perdem todos: assinante, profissionais, voluntários e concorrência. Pelo bem da comunicação local, vamos ajudar a derrubar essa medida desnecessária da Ancine? Há um abaixo-assinado na internet para que o canal volte às suas atividades.

Crédito da foto: Rafael Brito/NET Cidade



Jornalista desde 2012, com passagens pelos jornais ABCD Maior e Diário do Grande ABC, além do canal NET Cidade. Atualmente como repórter colaborador no site Torcedores.com.