A primeira transmissão de Fórmula 1 de um locutor esportivo

Depois de 11 anos de microfone, foi na rádio CBN, no Grande Prêmio de Cingapura, a minha primeira transmissão de Fórmula 1 da vida; divido aqui os bastidores desta conquista

Esperei terminar o meu final de semana para contar a vocês, amigos do Torcedores.com, a saga da minha primeira transmissão da maior categoria do automobilismo mundial. Caiu para mim esse teste que me fez sentir-me novamente como há 11 anos, na minha primeira narração, no Bruno José Daniel. Ou na minha primeira abertura olímpica, em Pequim 2008, ou a estreia na Rádio Globo, dia 6/2 deste ano. Como, digamos, “sobrevivi” ao teste, achei bacana dividir com vocês os momentos que antecederam esse grande momento.

Soube da missão há mais ou menos 10 dias, quando a CBF decidiu mudar o horário de Corinthians x Santos das 16h para as 11h deste domingo. Oscar Ulisses, o titular da Rádio Globo e o narrador oficial da F1 no Sistema Globo de Rádio teria que fazer o clássico decisivo de hoje. E me escolheram para a missão de assumir o comando na CBN para o GP de Cingapura. Embora eu já tivesse feito uma temporada inteira da Fórmula Indy, no Terra, em 2010/11 e outras categorias, como Fórmula Renault e DTM (turismo), no Bandsports, definitivamente a responsabilidade era diferente. Tanto era, que diariamente Oscar trazia recomendações e era visível a sua preocupação – JUSTA – com a situação, já que a Fórmula 1 é um produto que ele próprio cuida com muito carinho na casa.

Nunca disse “não” a um trabalho na vida. Já narrei mais de 30 esportes diferentes, entre eles squash, tênis de mesa, badminton, esgrima, judô, pólo aquático e afins. Portanto, em tese, eu tiraria de letra. Tudo correto não fosse o tamanho da responsabilidade de substituir a minha referência e ocupar o posto de substituto que já foi de Ulisses Costa (Rádio Bandeirantes) e Silva JR. (Fox Sports). Como sempre busquei ajuda dos amigos que sempre estão comigo e que conhecem a F1 como poucos. Roberto Lioi, repórter da Globo/CBN que acompanha o Oscar nas transmissões, tratou de me deixar tranquilo. “Você já fez coisas mais difíceis. Tira de letra”. O mesmo me disse Everaldo Marques (ESPN), que me ajudou a ler tela por tela do aplicativo de live timming oficial. Também o meu “professor” Cacá Fernando (Bandsports), deixou sua dica. “Um olho no peixe, outro no gato. Um na TV, outro no computador”. Ter todas essas pessoas como referência é sempre importante.

Minha maior preocupação não era tanto com a identificação dos pilotos ou a pronúncia dos seus nomes. Ou mesmo as informações mais técnicas, porque isso a gente pesquisa. Tem na Internet. Basta fuçar que a gente encontra tudo. Mais meu medo era não saber administrar a prova. Eram 61 voltas na pista mais lenta da temporada. Duas horas de duração. Mesmo com dois repórteres (Lioi e Tatiana Cunha, na pista) e dois convidados (Castilho de Andrade, diretor de imprensa do GP Brasil de F1, e Victor Baptista, piloto da F3 Europeia), tive medo de ficar repetitivo ou não saber para onde olhar e quando. E isso, ninguém poderia me dizer porque dependia do que aconteceria na hora da corrida.

Comecei minha pesquisa lendo tudo sobre a modalidade. Lia as notícias dos grandes portais nacionais e internacionais para saber o que estava rolando. Busquei no Youtube aquelas voltas virtuais em que pilotos analisam as características da pista, onde estão os pontos de ultrapassagens, as frenagens mais fortes etc. Até aqueles vídeos dos jogadores virtuais eu assisti para ter uma noção de referências de pista para me localizar. Foram horas no computador. Vi todos os treinos livres e, claro a classificação. Em teste deveria estar tranquilo, mas não. Na noite de ontem para hoje eu mal dormi. Qual era o medo? Decepcionar o cara me confiou em mim. Oscar Ulisses. Porque eu vi a sua preocupação. Não poderia decepcionar.

Cheguei às 7h30 na Rádio. Quem eu encontro no estacionamento? Oscar Ulisses. Se preparando para ir à Itaquera. “Capricha lá, menino! Viu todos os treinos, né?”, perguntou. “Sim”, respondi. “Bom jogo, Oscar”. E fui tomar café na padaria. Lá lembrei da conversa com a repórter Ana Thaís Matos, da Rádio Globo. “Estou orgulhosa. Você não tem nem um ano na casa e já conquistou a confiança do chefe”. As palavras pesam. Fui para a transmissão e, na abertura, era impossível conter o nervosismo. Mas o avião decolou. Fiz a largada, um pouco perdido, mas consegui ver as duas ultrapassagens de Kimi Raikkonen nos primeiros metros e também os pulos de Felipe Massa. Cometi erros, sem dúvida, mas acho que cumpri o papel. Horas depois, enquanto almoçava, o telefone tocou. “Como foi lá, Marcelinho?”. “Ouvi uns pedaços. Muito obrigado viu”. Ganhei o final de semana. Missão cumprida. Ah, Vettel ganhou, a quarta vitória do maior vencedor do Grande Prêmio de Cingapura, o meu primeiro na Fórmula 1.



Narrador esportivo da Rádio Globo e da RedeTV! Cobri três Copas do Mundo (2006, 2010 e 2014), duas edições de Jogos Olímpicos de Verão (2008 e 2012) e uma de Inverno (2010), além de uma edição de Jogos Pan-Americanos (2011). Mais de 30 modalidades esportivas já narradas em 10 anos de carreira.