Os seis atos de Edmundo como ídolo e carrasco do Palmeiras

Talvez as pessoas que comandem o Palmeiras ignorem um pouco os ídolos, a história, as pessoas que fizeram pelo clube. Independentemente das pessoas que estão à frente do Palmeiras me valorizarem ou não, nunca vou deixar de gostar do Palmeiras. É tudo para mim. O Vasco é minha mãe e o Palmeiras, a minha mulher, que eu aprendi a amar depois de adulto. (Edmundo, em entrevista ao GloboEsporte.com, sobre a sua passagem pelo Palmeiras)

Ato I: A construção de uma lenda

Edmundo ainda habita a mais profunda idolatria no coração do palmeirense. Ele, que em 1993 e 94 foi um dos craques a conquistar o bicampeonato brasileiro e paulista pelo clube, ao lado de Evair, aplicando dribles e mais dribles, arrumando inúmeras confusões e sendo o maior anti-herói da década de 1990.

Foi revelado pelo Vasco e em 1993, chamando a atenção de outros grandes clubes, apareceu no Palestra Itália como um dos reforços de peso da Parmalat. Depois de tanto penar nos 17 anos de fila anteriores, o Palmeiras finalmente tinha um time forte e capaz de vencer.

Fez gols, deu assistências, vibrou com a torcida e se sentiu parte dela em algum momento. Era o Animal alviverde, o homem a enlouquecer uma massa com as suas atitudes intempestivas. Se Evair representava a frieza e o calculismo de um centroavante experiente, Edmundo era a cara da diabrura e das molecagens juvenis em campo.

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Ato II: O ídolo do outro lado

Tantos títulos depois, foi a hora de ir embora. Mas não para a Europa, como se esperava que fosse natural. Cercado de vaias das bancadas, o atacante saiu pela porta dos fundos, perdendo a queda de braço com o restante do elenco. Foram vários episódios em que Edmundo acabou isolado pelo grupo palmeirense, o que pesou para que a diretoria não renovasse seu contrato para 1995. Juntamente com Luxemburgo, o jogador foi para a Gávea e formou ao lado de Romário e Sávio o trio de ataque mais frustrado daqueles tempos.

A passagem apagada pelo Fla (marcada pela agressão sofrida contra o Vélez Sarsfield, na Supercopa Libertadores de 1995) não foi o primeiro golpe no coração dos alviverdes. Meses depois, quando se envolveu em forte acidente no Rio, causando a morte de três pessoas.

Ato III: O castigo divino do Animal ao Verdão

Emprestado pela diretoria rubro-negra, foi parar logo no Corinthians. Chegou para se recuperar dos três meses de inatividade e causou impacto com gols e a dupla entrosada com Marcelinho Carioca. Chegou até a marcar duas vezes contra o Palmeiras, nos dois jogos que os rivais fizeram em 1996, pelo Paulistão. Era a maior provocação possível aos torcedores do Verdão. Justo ele, que foi uma grande esperança.

Ato IV: Vem, Velloso

A série de punições não parou por aí. Em 1997, pelo Vasco, foi campeão brasileiro em cima do Palmeiras e ainda passou perto de entrar na pancadaria com o goleiro Velloso, seu ex-companheiro. Durante as finais, foi o maior craque em campo e saiu com o título, apesar dos dois empates em 0 a 0. Curiosamente, esteve ao lado de Evair, desafeto desde 1993.

Ato V: A última chicotada

Em 2005, pelo Figueirense, visitou o Palestra Itália já veterano, para uma partida do Brasileirão. O jogo empatou em 2 a 2 e ele marcou os dois gols dos catarinenses. Mas foi saudado pela torcida, que pedia a sua volta. Depois de todos os momentos de desamor do passado, gols marcados contra aquele que era o seu segundo amor, Edmundo foi contratado para a temporada 2006.

Ato V: Hora da absolvição

Não fosse a gratidão e a intensidade dos momentos felizes em 1993/94, Edmundo poderia ter sido fácil e justificadamente execrado pelos palmeirenses. Nomes como Edílson e Rincón, por exemplo, que passaram com sucesso pelo Verdão, viveram posteriores fases incríveis pelo Corinthians e, naturalmente, foram demonizados pelo lado alviverde.

Isso felizmente não aconteceu com Edmundo, aquele icônico camisa 7 que ajudou a fazer do clube da Rua Turiassu a força dominante no Brasil por duas temporadas. Nos 20 anos da primeira despedida de Edmundo do Palmeiras, pouco se fala de como ele castigou o time quando estava do outro lado.

Essas lembranças ruins foram soterradas por todo o amor incondicional pela sua figura. Absolvido por quem lhe chamou de Animal, terror e melhor do mundo, o atacante é dessas estrelas controversas e carismáticas, essenciais para o folclore do futebol nacional.

Crédito da foto: Divulgação/Facebook



O elo entre o futebol de ontem e hoje. Futebol e mais futebol em histórias que não saem no jornal. Por Felipe Portes, paulistano de 25 anos. Conteúdo clássico, analítico e sem as manias da imprensa convencional. Esse é o "Todo Futebol".